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Detento "salvo" pelo ensino será 1º em SP a cursar uma pós dentro da cadeia

Eduardo Schiavoni/UOL
Venílton se formou na cadeia, fará pós-graduação e diz que foi "salvo" pelo ensino Imagem: Eduardo Schiavoni/UOL

Eduardo Schiavoni

Colaboração para o UOL, em Ribeirão Preto (SP)

2017-04-05T04:00:00

05/04/2017 04h00

Pouco menos de dois anos após se tornar o primeiro preso de São Paulo a conseguir um diploma de curso superior dentro da cadeia, o pedagogo Venílton Leonardo Vinci, 57, está pronto para fazer história novamente. Ele conseguiu uma bolsa de estudos integral e será, no segundo semestre, o primeiro detento a iniciar uma pós-graduação atrás dos muros de uma penitenciária.

De fala mansa e pausada, ele não esconde um sorriso no canto dos lábios toda vez que fala sobre a profissão que escolheu e os planos para o futuro. Hoje interno no CPP (Centro de Progressão Penitenciária) de Jardinópolis, Venílton, além da bolsa, já recebeu autorização para ir até a faculdade acompanhar os encontros presenciais, que devem ser quinzenais.

O restante das matérias, fará na modalidade Ensino à Distância, em um espaço dentro da própria penitenciária. “Já estou me preparando, fazendo as leituras. É uma ansiedade muito grande, mas quero estar preparado”, conta.

Venílton fará o curso na área de Psicopedagogia e também já sabe como pretende aplicar os conhecimentos. “Quero me especializar no ensino de pessoas com dislexia. É fascinante entender a forma como essas pessoas podem aprender. Se não tiverem acompanhamento adequado, elas desperdiçam todo o potencial”, conta.

Após os crimes, a redenção pelo ensino

Com um histórico de passagens pela polícia que se iniciou quando ele era menor de idade e resultou na primeira prisão em 1979, Venílton já cumpriu pena por roubo, furto, receptação e tráfico de drogas. Em 2005, saiu do sistema prisional após cumprir a pena da primeira sentença, mas, ao sair, acabou reincidindo e foi condenado a 30 anos de prisão por homicídio qualificado em 2007.

Foi nessa segunda passagem pela cadeia que teve início o que ele chama de “redenção”. Com uma pena de 30 anos para cumprir, Venílton acabou na cadeia de Serra Azul. Lá, teve a oportunidade de voltar a estudar. “Minha meta era diminuir minha pena e concluir o ensino médio. Não imaginava nada mais que isso”, conta ele. A cada 12 horas de estudo, o preso pode descontar um dia da pena que tem a cumprir.

Mas o gosto pelo estudo acabou falando mais alto e, em 2009, depois de já ter concluído o Ensino Médio, ele conseguiu a chance de ser monitor educacional e auxiliar outros presos no aprendizado. Contratado pela Funap (Fundação de Auxílio ao Preso), passou a receber pelo trabalho de alfabetizar colegas de prisão. “Além disso, esse trabalho também diminuiu minha pena. Para cada três dias trabalhados, eu descontei um de pena”, lembra ele, que chegou a aprender braile para ensinar um detento cego a ler e escrever.

Faculdade a distância

Maravilhado com o dom de ensinar, Venílton se informou sobre um projeto que permitia que detentos do regime fechado fizessem, através do Ensino à Distância, vestibular para cursos da área de educação no Centro Universitário Claretiano, em Batatais. “Eu prestei a seleção em 2010 e passei. Consegui uma bolsa de 50% e pagava, com o dinheiro que recebia da Funap, a outra metade”, conta.

Segundo o coordenador geral de ensino a distância da instituição, Evandro Ribeiro, a bolsa cobria 50% do valor do curso, algo na casa dos R$ 260 em valores atuais. Um sistema foi desenvolvido para que Venílton pudesse acessar, pela internet e de forma restrita, os conteúdos.

“O mérito é todo dele. Nós só fornecemos os instrumentos. No nosso programa, todos os selecionados devem exercer algum tipo de atividade remunerada na unidade para poder custear as suas mensalidades. Não é um programa oferecido de modo aleatório a todos os detentos. Todos os interessados devem ter uma aprovação interna antes de ingressarem na instituição”, conta.

Após cinco anos de dedicação, a colação de grau ocorreu em 3 de setembro de 2015, em cerimônia realizada dentro da Penitenciária 1 de Serra Azul, presídio de segurança máxima no qual Venílton era interno.

“A Educação salvou a minha vida. E não quero ser o único a ser salvo. Sei que sou um exemplo, sou um exemplo vivo de que quem consegue acreditar em si mesmo consegue vencer, consegue melhorar. Quero levar isso para outras pessoas, é a missão que escolhi”, conta.

Convite para pós-graduação

O bom desempenho de Venílton nos estudos fez com que o Centro Universitário Claretiano oferecesse a ele uma bolsa para pós-graduação em Pedagogia, também pelo sistema de Ensino à Distância. O único empecilho, porém, era a necessidade de algumas saídas da prisão para o estabelecimento de ensino, o que não seria possível no regime fechado.

Paciente, Venílton esperou que saísse a progressão de regime para o semiaberto, o que ocorreu em 2016. Mas acabou adiando o início dos estudos para realizar um sonho: comandar uma classe e dar aulas para uma turma de alunos adultos e que estavam em processo de alfabetização.

Logo que foi transferido para o CPP de Jardinópolis, onde ficam presos do semiaberto, Venílton conseguiu fazer inscrição como professor eventual na escola da rede estadual que ministra as aulas para os presos da unidade e passou a ser convocado para substituir os profissionais em caso de faltas. “O maior salário que já recebi na vida foi ensinar um colega de prisão a ler e a escrever. Depois, ele me contou que escreveu uma carta para a mãe dele e chorou. Chorei junto”, conta, com a voz levemente embargada.

Enquanto trabalhava como professor eventual, um dos professores da rede estadual teve que tirar uma licença e ele acabou assumindo, por um semestre, a responsabilidade pela sala de aula que funciona dentro da penitenciária. ”Ele foi um excelente professor, teve resultados maravilhosos. Foi um verdadeiro mestre”, conta Ana Carolina Cordeiro, diretora técnica responsável pela área de Educação do CPP e uma das tutoras de Venílton.

Terminado o trabalho, Venílton decidiu que era a hora de focar na pós-graduação. Pediu para trabalhar no setor de carpintaria da prisão e, com isso, abriu espaço para fazer as leituras preparatórias para a especialização. Em sua rotina, além das leituras da área da educação, está o trabalho diário, das 7h às 17h, em reparos gerais na própria unidade. “Além da profissão de educador, também sei fazer móveis, armários, tudo isso. Gosto muito, distraio a cabeça”, conta.

Apesar da mudança temporária de ares, Ana Carolina conta que o detento segue sendo referência para os demais presos. Ela indica livros da área, debate com ele técnicas pedagógicas e conversa inclusive sobre as atividades que serão desenvolvidas com os demais presos. “Ele acaba sendo uma referência, principalmente para os demais presos, que são monitores educacionais. Mesmo sem ser mais monitor, todo mundo acaba procurando por ele”, conta.

Livro de memórias

Sem usar drogas, lícitas ou ilícitas, há 18 anos – ele diz que a última vez que usou cocaína foi em 13 de maio de 1999 -, Venílton espera também a saída da prisão, que deve ocorrer no segundo semestre de 2017, para se dedicar a outro projeto: quer escrever um livro de memórias, onde pretende contar sua história para mostrar aos outros a força que a educação pode ter na vida das pessoas.

“Vai se chamar Superação Atrás das Grades”, conta.

Além da pós, que deve terminar no fim de 2018, Venílton também quer prestar concurso na área da pedagogia e comandar uma sala de aula. “Pode ser alfabetização de adultos, de crianças, não tem problema. Mas tenho esse dom. Para muitos, a chegada aos 60 anos marca o fim da vida profissional, a aposentadoria. Para mim, será o início”.

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