Por "perseguição política", Metodista demite 50 professores, diz sindicato

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

  • Andreson Gores/ABCDigipress/Folhapress

    Fachada do campus Rudge Ramos da Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo

    Fachada do campus Rudge Ramos da Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo

Pelo menos 50 professores da Universidade Metodista de São Paulo foram demitidos nesta semana, de acordo com o Sinpro ABC (Sindicato dos Professores do ABC). A motivação dos desligamentos, segundo o sindicato, é política.

O UOL entrou em contato com a Universidade Metodista por telefone e e-mail às 11h30 desta quinta-feira (14) e, até o fechamento da reportagem, não obteve nenhuma resposta.

Cristiane Gandolfi, diretora do Sinpro ABC e professora do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Metodista, diz que a maior parte das demissões foi de profissionais que participaram de assembleias para debater atrasos no pagamento de salários.

Segundo ela, a Metodista teria atrasado diversas vezes o pagamento de salários e de outros direitos dos docentes, como FGTS e férias, desde 2015. "A princípio, essas demissões lembram uma retaliação do direito de os trabalhadores exigirem que seja pago o que é devido", afirma.

Estudantes e professores dizem ainda que a instituição estaria passando por um processo de "desmonte". Carlos Ferreira, aluno da pós-graduação em comunicação social, afirma que coordenadores e professores de todas as faculdades dos três campi da universidade tiveram suas horas de trabalho reduzidas.

"A justificativa que dão é de corte de custos, mas esses professores que foram demitidos não são os que têm os maiores salários. Os de maiores salários foram convidados a assinar a redução da carga. Não é só financeiro, é político", diz.

Demitido nesta terça-feira (12), José Salvador Faro, professor do curso de graduação em jornalismo e do programa de pós-graduação em comunicação, diz que a universidade está passando por um processo de "lógica empresarial", com menos investimento em tecnologia e redistribuição de funções --o que afetaria diretamente a qualidade de ensino e pesquisa.

"Na parte acadêmica, isso inclui mudanças curriculares. Estímulo ao EAD [ensino a distância], que é bem mais barato; cursos híbridos, que alternam uma parte forte a distância –você enxuga despesa na parte presencial, com menos aulas físicas, e aumenta aquela parte que tem sido vista pelas empresas de educação como mais vantajosa em termos de lucro", afirma.

Faro é consultor do MEC (Ministério da Educação), da Capes, do CNPq e da Fapesp. Ele era representante eleito dos professores no Consun (Conselho Universitário), órgão responsável pelas principais decisões relativas à universidade.

Atritos internos

As demissões acontecem no primeiro ano de gestão do novo reitor da instituição, Paulo Borges Campos Júnior. Escolhido pela Igreja Metodista, ele assumiu o cargo em abril.

Para o estudante Ferreira, um cenário de "instabilidade" vem se desenhando na universidade há mais tempo. "Voltei para a Metodista há 2 anos e só nesse período já tivemos 3 reitores", afirma.

Em agosto de 2016, o professor Márcio de Moraes renunciou ao cargo de reitor após 10 anos. O posto foi então ocupado interinamente pelo professor Fábio Botelho Jogrislberg.

Em uma carta que teria sido escrita por um membro da Igreja Metodista, mantenedora da Universidade Metodista, a forma como foram feitas as demissões é criticada. O texto pede ainda a destituição do atual reitor.

"Nesta semana a situação se intensificou e o número de demissões que sinalizam os desmandos e o desmonte da Instituição deixou mais tenebroso o horizonte e isso tem afetado diretamente a imagem da Igreja Metodista na Terceira Região", diz um trecho da carta.

"Não há um estudo real e profundo da realidade da Instituição e dos caminhos para redução do déficit financeiro. Ao meu ver a destituição do atual Reitor da UMESP [Universidade Metodista de São Paulo] é a melhor saída para um caminho de diálogo e construtivo de novos tempos", pede o documento.

Prejuízos na pós-graduação

Alunos e professores ouvidos pela reportagem são unânimes ao dizer que, no processo de demissões e redução de carga horária atribuída aos docentes, o maior prejuízo é para os cursos de pós-graduação.

O professor Faro destaca que, para ocupar um cargo de docente na pós-graduação, um professor precisa ser credenciado na área em que vai atuar –um processo extenso e exigente, segundo ele.

"Existe uma série de critérios como experiência científica, produção acadêmica que organismos como a Capes e outros internacionais é que avaliam", afirma o professor. Para ele, isso torna muito difícil que as vagas decorrentes dessas demissões sejam ocupadas por novas contratações. "Não seria fácil conseguir um professor de agora até janeiro".

Já em especial na Poscom (pós-graduação em comunicação), Ferreira afirma que, dos 11 professores que formavam o quadro docente, 5 foram demitidos. Outros 3, que não aceitaram a redução "pela metade" da carga horária, segundo ele, também foram desligados do programa.

"Essas demissões não poderiam acontecer dessa forma. A Capes estabelece que a gente tem que ter pelo menos 10 professores permanentes no programa de pós. Temos hoje 3 professores com carga de 30h. A Capes pode chegar até a descredenciar o programa ou dar uma nota mais baixa", afirma.

Como cada professor orienta de 8 a 10 alunos, segundo Ferreira, entre 54 a 80 pessoas estão sem orientadores e não sabem como dar continuidade a seus trabalhos de pesquisa.

"Está um clima de velório", diz ele, que está na fase final de entrega do seu projeto, com data de entrega marcada para fevereiro. "Agora, não sei como vou terminar".

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