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"Estou com medo, achei que tomaria um soco", diz professora abordada por PM

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

17/12/2019 14h52

Resumo da notícia

  • A professora Angela Soares foi abordada de forma truculenta por um PM
  • Ela tentava ajudar os alunos que ocupavam uma escola em Barueri (SP)
  • Ela disse que sentiu medo, mas enfrentou porque não está em uma ditadura

A professora Angela Soares, 43, é acostumada com criança. Formada em pedagogia e letras, ela foi a primeira a ser chamada na noite de ontem quando a Polícia Militar ameaçou invadir uma escola pública ocupada por alunos que tentavam impedir o fechamento da unidade em Barueri, na grande São Paulo.

Ao final da ação, Angela acabou famosa. Um vídeo amador que ganhou as redes sociais mostra a truculência de um PM que, aos gritos e com o dedo em riste, pede à professora que "fique quieta" e apresente os documentos porque "aqui é polícia".

Nas imagens é possível ouvir o policial solicitando os documentos da docente. Ela se nega apresentá-los e o PM, que ainda não foi identificado, grita com a professora. Ele a ameaça de desacato e prisão, enquanto ela pede respeito.

Angela, que já deu aula a alunos dos ensino fundamental e médio, hoje é vice-diretora de uma escola estadual em Carapicuíba, também na grande São Paulo.

"Quando fui chamada, corri até lá porque trabalho em escola de periferia e sei que lá a polícia trata os alunos como vagabundos", afirmou a professora ao UOL.

"Meu corpo inteiro tremia"

De acordo com Angela, sua única atitude ao chegar na escola foi pedir aos estudantes que não abrissem o portão.

A professora Angela (ao centro) com colegas após ação da PM em escola pública em Barueri - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A professora Angela ao lado de colegas após ação da PM em escola pública em Barueri
Imagem: Arquivo Pessoal
"O policial do vídeo estava descontrolado, dizendo que entraria na escola de qualquer maneira. Fui ao portão e pedi baixinho aos alunos que só abrissem quando os pais deles chegassem. Quando virei para o policial e falei que eles eram menores de idade, ele veio para cima de mim", lembra a professora.

Embora demonstrasse destemor, Angela afirmou que estava "apavorada".

Eu estou com medo até agora. Meu corpo inteiro tremia enquanto ele me encurralava. Achei que fosse tomar um soco
Angela Soares, professora

Ela diz acreditar que só não foi agredida porque as pessoas ao redor começaram a filmar. "Quando ele percebeu todo mundo filmando, deu uma respirada, entreguei o RG, mas demorou horas para me devolver o documento", diz. "Os policiais ficaram tirando sarro, dizendo que iam fazer BO [boletim de ocorrência] para me indiciar e abrir um processo."

Apesar do medo, não podia fraquejar. Ele estava gritando comigo, mas sou uma professora, uma servidora pública como ele. Nós dois representávamos o Estado ali
Angela Soares, professora

Protesto tinha grávida e garoto de 10 anos

Angela temia pela integridade física dos estudantes, especialmente a de um menino de 10 anos e de uma aluna grávida. "Ela estava tranquila, com a mãe do lado de fora. Quando vi o garoto, perguntei o que ele fazia ali, e ele me respondeu que estudava na parte da manhã e que entrou com todo mundo para defender a escola."

Ela conta que se a Apeosp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), da qual é membro, não estivesse por lá, "a PM iria invadir e tirar os alunos à força". "A polícia só se acalmou quando uma equipe de reportagem chegou. Foi automático. Imagina o que teria acontecido se ninguém estivesse filmando?", questiona.

Uma das entradas da escola E. E. Lênio Vieira de Moraes  - GoogleStreetView - GoogleStreetView
Uma das entradas da escola E. E. Lênio Vieira de Moraes
Imagem: GoogleStreetView

"A ditadura já passou"

Para a professora, a agressividade policial reflete o perfil conservador de alguns políticos que chegaram ao poder nas últimas eleições, como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador do Estado, João Doria (PSDB).

A legitimidade ao policial vem desses políticos. Quer dizer que nós, reles mortais, temos de abaixar a cabeça quando somos abordados? A ditadura já passou
Angela Soares, professora

Angela só deixou a escola às 3h40 da madrugada de hoje, quando os cerca de 20 alunos deixaram o prédio sob a promessa do governo estadual de que os alunos continuarão estudando na E. E. Lênio Vieira de Moraes no ano que vem.

"Cheguei em casa umas 4h, tentei pegar no sono às 5h, mas estava muito tensa, não consegui dormir. Saí da cama às 7h", conta. "Ainda tenho medo."

Em nota envida à reportagem, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que o "Comando do 20º BPM/M analisa as imagens e apura todas as circunstâncias relativas aos fatos" e que "o policial envolvido foi afastado das atividades operacionais até o término das investigações e encaminhado para acompanhamento psicológico."

A abordagem policial gravada, no entanto, contraria as regras descritas na cartilha "Abordagem Policial", lançada em 2016 pelo Condepe (Conselho Estadual da Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), ligada ao governo estadual.

Veja 7 questões abordadas na cartilha:

Um policial pode revistar uma pessoa na rua?

Sim, mas apenas se o policial suspeitar que a pessoa esteja portando arma ou droga. Neste caso, o suspeito deve ficar com as mãos para o alto durante toda a revista.

Qualquer pessoa pode ser revistada?

Segundo a cartilha, o policial não pode parar alguém sem que haja algum indício de irregularidade. Morar na periferia, a cor da pele, orientação sexual, gênero ou forma de se vestir não são justificativas.

Como os policiais devem agir durante a revista?

O policial não pode gritar ou xingar a pessoa revistada. Ele deve tratar com respeito os familiares que se aproximam para pedir informação. Se o agente não obedecer a regra, ele pode responder por injúria ou abuso de autoridade.

Mulheres podem ser revistadas?

Nesses casos, a revista precisa ser feita por policial feminina. O policial homem só pode revistar uma mulher se nenhuma agente estiver por perto. Passar as mãos em partes íntimas configura crime de ato libidinoso e abuso de autoridade.

Um policial pode usar da força para fazer a revista?

O policial cometerá crime de tortura se ameaçar ou bater em alguém para obter alguma confissão. Ele também é proibido de ordenar que a pessoa saia correndo sem olhar para trás ao fim da revista.

Uma pessoa pode ser detida por não portar documento?

Ninguém pode ser preso por estar sem documento, embora a recomendação seja que todos portem identificação. Sem o documento, a pessoa informa o nome do pai, da mãe e a data de nascimento para que o policial confirme se o suspeito é foragido da Justiça.

A pessoa revistada deve responder a todas as perguntas?

Não. Ninguém é obrigado a informar de onde vem e para onde vai. A pessoa sob revista também não precisa informar se tem antecedente criminal ou se conhece alguma pessoa em especial.