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Apesar de cautela, volta às aulas pelo mundo tem surtos de covid

13.ago.2020 - Sala de aula preparada preparada para receber alunos em escola de Utah, nos Estados Unidos - George Frey/Getty Images/AFP
13.ago.2020 - Sala de aula preparada preparada para receber alunos em escola de Utah, nos Estados Unidos Imagem: George Frey/Getty Images/AFP

Alex Tajra e Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

15/08/2020 04h00

A reabertura das escolas em diferentes países pelo mundo evidencia os desafios para a retomada das aulas presenciais em meio à pandemia do coronavírus.

Mesmo com a adoção de cautela e de uma série de medidas de proteção sanitária —como o distanciamento, o uso de máscaras e até mesmo de barreiras de proteção acrílica em ambientes escolares—, são poucos os casos de estabilidade na reabertura, e houve registros de surtos de covid-19 após a retomada das aulas presenciais.

A avaliação sobre qual é o momento certo para a reabertura das escolas não é simples. Na Coreia do Sul, país que vem sendo considerado referência no combate ao coronavírus, mais de 200 escolas tiveram de ser fechadas logo após a retomada das aulas devido a surtos da doença na capital Seul.

Por outro lado, governantes destacam a importância do apoio psicológico às crianças que ficaram meses sem ir à escola e sem ter contato com pessoas fora do núcleo familiar devido à quarentena.

Na França, onde alunos retornaram às aulas obrigatoriamente por apenas duas semanas antes das férias de verão, o ministro da Educação Jean-Michel Blanquer defendeu a medida e disse que "há uma dimensão psicológica que não deve ser subestimada".

Veja como tem sido a reabertura das escolas em outros países.

França

Em maio, com o relaxamento do lockdown na França, algumas escolas puderam abrir de forma voluntária, sem exigir a presença dos alunos. Logo após a abertura, no entanto, foram registrados pelo menos 70 casos de covid-19 e algumas escolas chegaram a ser fechadas.

"É inevitável, esse tipo de coisa vai acontecer, mas ainda é uma minoria", disse o ministro da Educação francês, Jean-Michel Blanquer, à rádio RTL. Segundo ele, "em quase todos os casos, isso [a contaminação] aconteceu fora da escola".

O governo francês imaginava que a reabertura voluntária das escolas ajudaria a reduzir as desigualdades na aprendizagem entre os alunos devido à adoção do ensino à distância na pandemia. Mas, ao contrário do esperado, crianças de famílias mais ricas foram as que mais retornaram às escolas, enquanto alunos de famílias mais pobres continuaram em casa.

Em volta às aulas na França, pré-escola desenhou quadrados de giz no chão para manter isolamento entre as crianças em meio à pandemia de coronavírus - Reprodução/Lionel Top/BFM TV - Reprodução/Lionel Top/BFM TV
Em volta às aulas na França, em maio, pré-escola desenhou quadrados de giz no chão para manter isolamento entre as crianças
Imagem: Reprodução/Lionel Top/BFM TV

No dia 22 de junho, alunos do ensino fundamental e médio voltaram às aulas de forma obrigatória. A retomada, no entanto, foi breve: duas semanas depois, tiveram início as férias de verão no país europeu, que terminarão apenas no fim de agosto.

Blanquer argumentou que o retorno às salas de aula, mesmo que por apenas duas semanas, era necessário porque "a cada hora, todos os dias de aula contam", seja pelo aspecto pedagógico ou psicológico.

Para que todos os alunos voltassem às salas de aula, os protocolos de saúde foram relaxados. Na pré-escola, por exemplo, não foi estabelecida mais nenhuma regra de distanciamento entre crianças da mesma turma.

Nas demais etapas de ensino, os alunos deveriam manter uma distância lateral de um metro nas salas de aula -antes, o distanciamento necessário era de quatro metros quadrados entre os estudantes. O uso de máscara permaneceu obrigatório para professores e alunos acima de 11 anos.

Não houve registro de grandes surtos de coronavírus após a retomada das aulas nessas duas semanas às vésperas das férias. Agora, as escolas devem reabrir a partir de 1º de setembro.

Coreia do Sul

Na Coreia do Sul, a reabertura das escolas chegou a ser adiada cinco vezes e a retomada gradual das aulas presenciais aconteceu somente a partir de 20 de maio —dois meses depois do planejado inicialmente.

Em meio ao processo de reabertura, mais de 200 escolas tiveram de ser fechadas novamente depois que novos focos da covid-19 foram registrados em Seul. A maior parte das infecções teve ligação com um surto que se iniciou em um centro de distribuição comercial. As escolas que contabilizaram casos foram fechadas por alguns dias até que todos os que costumavam frequentar o local fossem testados.

20.mai.2020 - Alunos da Coreia do Sul fazem fila para medir temperatura antes de entrar na escola - Chung Sung-Jun/Getty Images - Chung Sung-Jun/Getty Images
Alunos fazem fila para medir temperatura antes de entrar na escola na Coreia do Sul, em maio deste ano
Imagem: Chung Sung-Jun/Getty Images

O governo sul-coreano tem realizado inspeções nas escolas. Para diminuir os riscos de transmissão dentro das unidades escolares, os horários de almoço e recreio são escalonados entre as diferentes séries. Apenas os alunos do ensino médio foram autorizados a frequentar as escolas todos os dias. Para os demais estudantes, a ida ao colégio acontece uma ou duas vezes por semana.

Além disso, as aulas presenciais são mais curtas do que no período pré-pandemia, e o ensino híbrido (misto de aula presencial com ensino a distância) continua sendo uma realidade para os estudantes.

Estados Unidos

Nos Estados Unidos, país com maior número de casos de coronavírus em todo o mundo segundo dados da Universidade Johns Hopkins, alguns estados começaram a reabrir suas escolas já em agosto. É o caso de estados como Tennessee, Georgia, Kentucky, Indiana e Mississipi.

Em um distrito de Georgia, onde a máscara não é de uso obrigatório, mais de 800 alunos e funcionários tiveram de ser colocados em quarentena apenas uma semana após a reabertura das escolas. Segundo o jornal NBC, a medida foi necessária depois que um estudante testou positivo para a covid-19.

12.ago.2020 - Mulher passa em frente a escola pública fechada na cidade de Nova York, nos Estados Unidos - EFE/EPA/Peter Foley - EFE/EPA/Peter Foley
Mulher passa em frente a escola pública fechada na cidade de Nova York, nos Estados Unidos
Imagem: EFE/EPA/Peter Foley

As condições sanitárias para a realização de aulas presenciais ainda são questionadas no país. Milhares de distritos escolares estão em pleno debate sobre abrir por completo ou reduzir a frequência pela metade após o verão americano, em um momento em que a transmissão do coronavírus é tão intensa que, em 15 dias, o país registrou um milhão de novos casos.

Várias cidades estão sinalizando um retorno virtual às aulas, como Houston e Los Angeles, enquanto a cidade de Nova York —que tem o maior número de estudantes em ensino público no país— optou por um modelo híbrido, que deve ser colocado em prática já em setembro. Nos subúrbios de Washington, o condado de Montgomery decidiu que os estudantes não encontrarão seus colegas de classe até 29 de janeiro.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem pressionado pela reabertura das escolas. "Não se pode impedir em definitivo 50 milhões de crianças de frequentar a escola", afirmou em uma entrevista a jornalistas. Trump também já ameaçou reter fundos de instituições de ensino que se recusam a reabrir.

Itália

A Itália, que amargou os piores índices de covid-19 em determinados momentos da pandemia, estuda há pelo menos dois meses uma forma segura de reabrir as escolas. Na semana passada, o Ministério da Educação italiano publicou as novas medidas para a retomada das aulas e serviços educacionais para crianças de zero a seis anos. A ideia é que as crianças voltem às escolas em setembro.

O documento aprovado aponta para uma divisão dos alunos em grupos dentro das faixas etárias, com medição diária de temperatura, que não pode ser superior a 37,5 graus. Nas criança até seis anos, a máscara não será obrigatório; nos professores, o adereço terá de ser utilizado. O governo determinou também que os locais de saída e entrada das escolas sejam diferentes.

Uma faxineira limpa a sala de aula na escola secundária Piero Gobetti, em Turim, como parte das medidas para tentar conter um surto de coronavírus, na Itália - Massimo Pinca/Reuters - Massimo Pinca/Reuters
Uma faxineira limpa a sala de aula na escola secundária Piero Gobetti, em Turim, como parte das medidas para tentar conter um surto de coronavírus, na Itália
Imagem: Massimo Pinca/Reuters

Um registro de todos que entram nos estabelecimentos vai ser criado a fim de controlar a aplicação das medidas sanitárias. As aulas devem retornar no país no dia 14 de setembro. Ao contrário de outros países, a Itália optou por finalizar o ano letivo (que acaba no verão europeu) com aulas à distância.

Nessa semana, o governo anunciou parceria com 11 empresas para fornecimento de novas carteiras, máscaras de proteção, testes sorológicos e álcool em gel para as escolas do país. As bancadas serão substituídas por carteiras individuais, e 2 milhões de funcionários das escolas serão testados.

Israel

O país, que foi um dos primeiros a permitir a reabertura de escolas, colecionou casos de surtos nas instituições de ensino. Em maio, quando boa parte dos países ainda lidava com números altos da pandemia, Israel optou por reabrir as escolas enviando mais de 2 milhões de alunos de volta às aulas com restrições e distanciamento social.

No mesmo dia, uma escola de Jerusalém reportou um caso de covid-19, que depois se alastrou para 153 estudantes e 25 funcionários. Jornais locais afirmaram que apenas um professor teria sido o vetor "supercontagiante" da escola. Tempos depois do surto, foi noticiado que parte dos estudantes daquela escola não usava máscaras por conta do calor.

O governo anunciou que as escolas que apresentassem um único caso de coronavírus deveriam fechar. Mais de 200 escolas fecharam e 22 mil alunos e professores foram colocados em quarentena, segundo levantamento da BBC. Após os surtos nas escolas, o país, que apresentava relativo controle da pandemia, voltou a registrar mais de 2 mil casos da doença por dia.

Boa parte das escolas só pode retornar no fim de junho. As autoridades se arrependeram da reabertura precoce, que foi tratada como o grande impulsionador dos novos casos da covid-19 no país. Agora, o uso de ar-condicionado foi restrito e o número de alunos por sala de aula foi reduzido.

Reino Unido

No Reino unido, cada país optou por uma programação distinta de reabertura das escolas. Na Escócia, as aulas retornaram na última terça-feira sem uma obrigação geral de distanciamento social entre os alunos. Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte têm orientações distintas, e devem abrir somente em setembro, quando começa o ano letivo europeu.

No início de junho, as escolas inglesas chegaram a ser autorizadas a reabrir, mas houve resistência de pais, alunos e professores. Menos de uma semana depois, o governo desistiu do plano. Na Escócia, a Associação de de Lideres Escolares e Universitários afirmou que as diretrizes do governo não são claras, e que as escolas estão tendo de se preparar de forma autônoma caso haja casos da covid-19.

O premiê britânico Boris Johnson em visita a uma escola, em Londres, para conferir os preparativos para o retorno das atividades em setembro - EFE/EPA/PIPPA FOWLES/10 DOWNING STREET - EFE/EPA/PIPPA FOWLES/10 DOWNING STREET
10.ago.2020 - O premiê britânico Boris Johnson em visita a uma escola, em Londres, para conferir os preparativos para o retorno das atividades em setembro
Imagem: EFE/EPA/PIPPA FOWLES/10 DOWNING STREET

Na Inglaterra, sindicatos de professores têm argumentado que o estado deve fornecer mais segurança para a volta às aulas. A BBC reportou que o governo inglês estuda até fechar pubs e restaurantes para que as escolas possam reabrir; as autoridades daquele país também pensam em aplicar multas aos pais que não levarem seus filhos para as escolas.

Um estudo publicado no último dia 3 na revista científica The Lancet mostra que, caso os governos do Reino Unido não façam um rastreamento severo e tenham uma política de testagem em massa dos alunos, incluindo os assintomáticos, um novo pico de contaminação da covid-19 vai acontecer em dezembro. Caso as escolas optem por um modelo híbrido, esse pico da segunda onda chegaria em fevereiro do ano que vem.

*Com agências internacionais