O isolamento de professores diante de casos de violência e bullying

  • Alexandre Campbell/BBC Brasil

    Professora há 29 anos, Jonê Brandão ainda se choca com histórias contadas por alunos

    Professora há 29 anos, Jonê Brandão ainda se choca com histórias contadas por alunos

Professora de Língua Portuguesa da rede pública há 29 anos, Jonê Carla Baião sempre pede aos alunos, no início do período letivo, uma redação curta sobre a vida deles. Já leu e ouviu muita história, mas ainda se atordoa com relatos como o que lhe foi entregue no primeiro dia de aula de 2017 por uma aluna do 9º ano:

"Eu sempre fui zoada e a última vez em que tive paz na escola foi no Jardim (de infância); depois disso não tive um ano sequer em que não tenham mexido comigo", escreveu a jovem, que, negra e muito magra, era alvo constante de ofensas dos colegas, e os professores não percebiam.

Outra vez, também no primeiro dia de aula, uma aluna vinda de São Paulo escreveu que apanhava do pai e por isso havia se mudado para o Rio para morar com a mãe e o padrasto - que passou a abusar sexualmente dela.

Tema constante de debate na escola pública brasileira, a violência nos colégios voltou à cena depois que Marta Avelhaneda Gonçalves, de 14 anos, foi morta por estrangulamento numa sala de aula do Rio Grande do Sul na semana passada.

Relatos de violência, agressão e bullying expõem tanto o sofrimento do aluno como o isolamento do professor para agir diante de casos que ultrapassam a competência de apenas "transmitir conhecimento".

Alexandre Campbell/BBC Brasil
Alunos de Jonê Carla retratam casos de violência em atividades em aula

Uma proposta em tramitação no Congresso há 17 anos, o projeto de lei 3.688, propõe a contratação de psicólogos e assistentes sociais na rede pública como forma de oferecer atendimento aos alunos e apoio aos professores no ambiente escolar.

Especialistas ouvidos pela BBC Brasil elogiam o mérito do projeto, mas afirmam que é preciso pensar no conjunto da situação escolar. A Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), por sua vez, alerta que uma das dificuldades para que ele seja aprovado é sua viabilidade financeira e operacional.

Na avaliação da entidade, a contratação não pode ser feita em cada escola, mas sim em parceria com as secretarias de Saúde e Assistência Social - mudança já prevista no projeto. Parte dos municípios brasileiros ainda não consegue pagar o piso nacional do magistério (R$ 2.298,80), e, para a Undime, ter psicólogos e assistentes sociais recebendo valor possivelmente superior criaria conflito com os professores.

Rotina de prevenção

Uma professora da História, que concordou em dar entrevista à BBC Brasil sob anonimato, vive numa escola municipal da Baixada Fluminense situações semelhantes às relatadas por Jonê Carla.

"Tenho um aluno que viu o pai matar a mãe. O garoto é hiperativo e não para quieto. Agora o pai vai sair da prisão. Como vai ser? Tive aluna que sofria abuso sexual do padrasto, outra do pai. Tivemos que chamar o Conselho Tutelar. Alunos e professores precisam de ajuda para lidar com isso", avalia.

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Em casos de abuso sexual ou violência doméstica, o professor é orientado a procurar imediatamente a direção da escola para que a denúncia seja apurada, recorrendo a órgãos como polícia e Conselho Tutelar.

Docente das redes municipal e estadual do Rio, Jonê Carla relembra uma ocorrência de abuso sexual encaminhada ao Conselho Tutelar. Segundo ela, a preocupação é que o professor não guarde o caso apenas para si e procure apoio para o aluno.

Especialista no tema da gestão escolar e doutora em Administração Pública, a pesquisadora Gabriela Moriconi, da Fundação Carlos Chagas, avalia que o suporte psicossocial proposto no projeto de lei ajudaria alunos e professores a não apenas reagir a "problemas" de um ou outro estudante, mas criar uma rotina de ação preventiva capaz de agir no conjunto das escolas.

Moriconi acompanhou projetos educacionais no Canadá e no Reino Unido e observou fatores que podem influir no clima da escola. Na experiência canadense, por exemplo, equipes multidisciplinares não ficavam fixas nos colégios, mas no sistema educacional, atendendo a várias unidades.

"É um suporte importante para um professor que já enfrenta questões variadas, como o salário baixo, a adequação da dificuldade da aula para turmas pouco homogêneas, ou turmas grandes, ou a definição de regras de convivência", afirma a pesquisadora.

"Psicólogos e assistentes sociais não trazem solução para todos os problemas, mas são uma forma de realizar um trabalho mais constante na escola e compreender o aluno em seu contexto. É preciso entender como esses alunos se sentem, se respeitados ou ameaçados", acrescenta.

'Bullying exige plateia'

A indisciplina também preocupa e atrapalha professores brasileiros. Pesquisa divulgada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em janeiro de 2015 mostrava que, entre 33 países comparados na Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (PISA) de 2013, o Brasil foi o lugar em que os professores mais se queixaram de estudantes indisciplinados.

Pelo menos dois em cada três professores brasileiros disseram ter problemas com o assunto em sala de aula. Entre os países pesquisados, a média era de 31% - pouco menos de um terço.

Entre o aluno ideal e a escola real, um dos caminhos é tentar entender as diferenças, avalia a pedagoga Cláudia Barreiros, mestre e doutora em Educação e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Educação Básica do Cap-Uerj, o Colégio de Aplicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

"O professor tem que partir do princípio de que os alunos são diferentes. Não adianta chegar à escola e dizer: 'ah, não era o que eu esperava'. Temos de lidar com estes alunos e suas realidades", afirma.

O Cap-Uerj implementou em 2011 um programa de combate ao bullying, preocupação relatada por professores ouvidos pela BBC Brasil.

Pesquisadora do tema, Barreiros destaca que o bullying pressupõe um praticante, um alvo e também uma plateia - as pessoas que dão ao praticante a "visibilidade" almejada. "Se é uma piada, todos estão se divertindo, é uma brincadeira. Se alguém começa a sofrer com a piada, já não é brincadeira", alerta.

Cláudia relembra o caso de uma aluna negra, gordinha, que sofria bullying contínuo. Alguns professores cobravam que a família ajudasse, estimulando um regime. "Eu me perguntava, mas e a cor, querem mudar também? Não vamos culpar a vítima. O bullying não resulta da diferença, resulta do preconceito", analisa.

Da experiência do magistério, ela guarda a lição de uma turma na qual meninos de 6, 7 anos perseguiam meninas chamando-as de "macacas" e "baleias". O melhor resultado obtido por uma professora contra o problema foi dizer claramente às crianças que racismo é crime punido com prisão.

"Temos de trabalhar no sentido educativo, claro, mas o professor não pode ser conivente ou leniente. É preciso deixar explícito que o preconceito não será tolerado", afirma.

Do mesmo modo, em casos de agressão, abuso ou violência doméstica, a orientação é levar imediatamente a denúncia às instâncias responsáveis.

Efeitos no professor

Diante da violência, da indisciplina e da rotina estressante de sala de aula, o professor também sofre as consequências.

O psicanalista Leandro dos Santos atendeu durante dez anos professores e diretores de escolas públicas do ABC paulista no ambulatório de uma faculdade particular em que dava aulas. As queixas mais comuns eram depressão, estresse e esgotamento nervoso.

"Até hoje atendo professores no consultório e observo um grande sentimento de impotência diante da rotina escolar", afirma Santos, mestre em Psicologia Escolar e doutor em Psicologia Clínica pela USP.

"Às vezes me sinto só diante de tanto sofrimento do aluno. Queria poder fazer mais", diz a professora de História da Baixada Fluminense. Ela conta que já trabalhou em uma escola pública em que havia um psicólogo e se sentia mais segura para abordar alunos com hiperatividade ou deficit cognitivo.

"O professor sozinho não dá conta. Por mais que o aluno se identifique com um ou outro professor, não fomos treinados para essa ajuda tão especializada", analisa Jonê Carla, a professora que pede aos alunos redações sobre suas vidas.

Na tentativa de melhorar a autoestima dos estudantes, Jonê Carla discute gênero, identidade, racismo, descobre histórias, escreve sobre o que aprende em sala de aula. E guarda em seu baú de professora relatos pungentes, como um poema escrito por um ex-aluno de uma escola em Guadalupe, na zona norte do Rio:

Mataram meu colega e eu não digo nada

Me chamam de zumbi e eu não digo nada

Me ameaçam e eu não digo nada

Estão em guerra e eu não digo nada

A seca está matando e eu não digo nada

Professor me dá os esporros e eu não digo nada

Morre gente e eu não digo nada

Ficam me criticando e eu não digo nada

O Brasil perde a Copa e eu não digo nada

Picham a escola e eu não digo nada

Pois agora chega, eu vou dizer tudo.

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