Geografia

China: uma potência: País é considerado a oficina do mundo

Ricardo Silva

(Atualizado em 06/01/2014, às 12h43)

  • Jacob Ehnmark/Wikimedia Commons

    A Galeria do Povo, na Praça da Paz Celestial, em Pequim, abriga a Assembléia Nacional chinesa

    A Galeria do Povo, na Praça da Paz Celestial, em Pequim, abriga a Assembléia Nacional chinesa

Em outubro de 2014, a China, ou Império do Meio (Tchong-Kouo), relembrará 65 anos da revolução comunista. Mao Tse-Tung, líder do PCCh (Partido Comunista Chinês), enquanto viveu, até 1976, defendeu a política como prioridade superior à economia - o igualitarismo social era mais importante que a produtividade. Depois de sua morte, assumiu Den Xiaoping, em 1978, que passou a dar prioridade à produtividade. Essa tendência ficou famosa com a seguinte frase de Xiaoping: "Não importa se o gato é branco ou preto, o que importa é que apanhe os ratos".

Em pouco tempo, graças à implantação das Zonas Econômicas Especiais instaladas ao longo da orla marítima, a China passou a atrair um número cada vez mais crescente de empresas e investimentos estrangeiros diretos ou em forma de joint venture, tornando-se uma dos maiores potências exportadoras mundiais, inundando o mundo com produtos diversos.

Todavia, a confirmação da China - que conta com uma população de mais de 1,3 bilhão de habitantes e é o terceiro maior território do mundo- como a principal potência emergente do século 21 depende não apenas de sua pujança econômica, mas também de mudanças políticas - que garantam direitos trabalhistas e liberdade de expressão - e da solução de graves problemas ambientais.

Hiper trabalho

No contexto da Nova Divisão Internacional do Trabalho, a China aparece como fornecedora de mão-de-obra barata e abundante para as multinacionais. Mas segundo o entendimento dos trabalhadores dos países desenvolvidos, o modelo chinês é responsável pela destruição de milhares de empregos no Ocidente.

Para se ter uma ideia da situação, um trabalhador médio estadunidense, que trabalha em torno de 8 horas por dia, recebe um salário de 3 mil dólares por mês, enquanto um trabalhador médio chinês, que, muitas vezes, trabalha mais de 10 horas por dia, ganha 160 dólares mensalmente. Isso vale também para os trabalhos que exigem um melhor nível de qualificação profissional: enquanto um designer de hardware dos Estados Unidos ganha 300 mil dólares anuais, um chinês não recebe mais do que 24 mil dólares por ano.

A China conta com uma população economicamente ativa (PEA) de 700 milhões de pessoas - um verdadeiro "exército industrial de reserva" -, que continuarão dispostas a trabalhar por horas a fio em troca de poucos dólares. Porém, são cada vez mais visadas pela opinião pública internacional as grandes empresas multinacionais que usam (ou apóiam) os chamados sweatshops ("fábricas do suor"), nos quais ocorre a exploração extrema dos trabalhadores, chegando a ceifar vidas - o que os chineses chamam de guolaosi (morte súbita por hipertrabalho).

A economia chinesa vem despertando a atenção da comunidade internacional há quase três décadas, devido a seu intenso crescimento, na casa dos 10% ao ano. Para se ter uma ideia do gigantismo, em 2007, às portas da crise financeira, o PIB (Produto Interno Bruto) chegou a 4,3 trilhões de dólares, o que a colocou como a terceira maior economia do mundo (atrás do Japão e dos EUA), com a previsão de que, em 2030, se tornará a primeira economia mundial. No segundo trimestre de 2010, o PIB chinês ultrapassou o japonês, conquistando o segundo lugar do ranking.

Centralismo político

Mas seria uma atitude simplista crer que o modelo econômico chinês se baseia apenas na mão-de-obra abundante e barata. Primeiro, não se pode desconsiderar que inexiste uma política sindical independente do PCCh, o que, sem dúvida, dificulta qualquer ação no sentido de mudança nas péssimas condições de trabalho. Em segundo lugar, não se pode esquecer que a admissão da China na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001, mais do que afirmá-la definitivamente como mais um player no mercado globalizado, demonstra, antes de tudo, que o mundo compactua com seu modelo. Em terceiro lugar, mais do que uma aparente centralização da economia chinesa por parte do governo central, são os governos municipais de importantes cidades que conduzem a economia, realizando acordos ou associações com empresas estrangeiras na forma de joint ventures.

O governo central centraliza com mão de ferro as questões de ordem política, que pouco foram alteradas desde a época maoísta. De um lado, é essa política que reprime jovens manifestantes sedentos de maior abertura política. De outro lado, tal política centralizada conduz o planejamento estratégico chinês, garantindo o positivo crescimento econômico.

Exemplos do centralismo governamental são o controle do câmbio e a desvalorização da moeda (1 dólar equivale a cerca de 8 yuans), apesar das críticas dos EUA. Esse câmbio garante um nível elevado de exportações e, em 2007, assegurou um superávit comercial de 260 bilhões de dólares - e, portanto, um afluxo considerável de capitais. É assim que a China possui hoje uma grande reserva internacional, da ordem de 2 trilhões de dólares.

Essa grande disponibilidade de crédito interno permite uma aceleração do processo de modernização, a multiplicação de obras de infraestrutura (portos, aeroportos, rodovias, estradas de ferro, metrôs, pontes, hidrelétricas) e a intensificação do processo de urbanização de muitas cidades.

Desafios

Quanto aos desafios que a China deve enfrentar a partir de agora, salientemos:

a) a necessidade de repensar questões ligadas à liberdade e à democracia;

b) direito dos trabalhadores a condições mais digna de vida;

c) diminuição das desigualdades sociais - apesar de a China ter retirado cerca de 250 milhões de pessoas da pobreza, há ainda 200 milhões de pessoas abaixo da linha da miséria (que sobrevivem com menos de 1 dólar por dia);

d) conter o intenso êxodo rural, pois se acredita que, nos próximos anos, cerca de 200 milhões de trabalhadores chineses migrarão para as cidades em busca de emprego - muitos deles, inclusive, de forma ilegal, pois a migração tem de ser autorizada pelo governo;

e) repensar a questão ambiental, pois a tendência é de que, em 20 anos, a China ultrapasse os EUA na emissão de gases do efeito estufa.

Ricardo Silva é geógrafo, mestre em Geografia pela Universidade de São Paulo.

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