História geral

China comunista (1): Camponeses se juntam ao movimento revolucionário

Renato Cancian

A revolução comunista na China foi um processo que começou em 1927 e terminou em 1949. No transcurso desses 22 anos, a revolução atravessou quatro fases distintas.

A primeira fase se caracterizou pela eclosão de uma guerra civil envolvendo os nacionalistas e os comunistas, que combateram em algumas cidades do sul do país. O exército nacionalista foi liderado pelo general Chiang Kai-shek e nos primeiros três anos de guerra conseguiu derrotar e expulsar das grandes cidades os comunistas e seus seguidores.

A severa derrota dos comunistas nas zonas urbanas, principalmente nas cidades de Shangai, Gengzhou e Changsha, desencadeou uma autocrítica dentro do Partido Comunista Chinês (PCCh), levando Mao Tsé-Tung à liderança partidária. Mao Tsé-Tung estabeleceu uma nova estratégia revolucionária, voltando-se para as zonas rurais em busca do apoio das massas camponesas.

A Longa Marcha

Dos anos que vão de 1930 a 1937 a revolução atravessa a segunda fase. O conflito se generalizou por todo o território chinês, levando milhões de homens a pegarem em armas. No início, porém, a estratégia maoísta de criação dos chamados sovietes rurais (cujo desdobramento esperado era a organização das guerrilhas camponesas, que iriam deflagrar a guerra revolucionária) se deparou com alguns obstáculos, entre eles a dificuldade de vencer o poderoso exército nacionalista que perseguiu os comunistas pelo interior do país.

Habilmente, Mao Tsé-Tung conduziu os comunistas por quase 10 mil quilômetros pelo interior do país, no que ficou conhecida como a célebre Longa Marcha (1934-1935), até chegarem à província de Shensi, onde se instalaram e ali permaneceram sob a coordenação e proteção do soviete de Yenan.

Em 1937, o Japão invade militarmente a China e o exército nacionalista passa a combater os japoneses. Concentrados na província de Shensi, os comunistas fortalecem suas posições com a organização do Exército Popular de Libertação, formado majoritariamente por milhões de camponeses explorados e empobrecidos, que aderiram em massa ao movimento revolucionário.

Inimigo comum: os japoneses

Mesmo assim, a vanguarda revolucionária comunista decidiu unir forças com o exército nacionalista na luta contra o inimigo comum da China: os japoneses. Tem início, então, a terceira fase do movimento revolucionário, denominada de coalizão das forças comunistas e nacionalistas, que durou de 1938 a 1945.

Depois de oito anos de intensos combates, os japoneses são finalmente derrotados na China e também pelos aliados na Segunda Guerra Mundial. Os comunistas saem fortalecidos na guerra de libertação nacional e retomam a guerra civil contra os nacionalistas, dando início à quarta e última fase do movimento revolucionário.

Finalmente, em 1949, o Exército Popular de Libertação derrota os nacionalistas, que se refugiam na ilha de Taiwan e formam um governo ditatorial, separando-se da China continental como um Estado independente. Vitoriosos, os comunistas fundam a República Popular da China.

Ao assumirem o poder, os comunistas tinham pela frente enormes tarefas diante de um imenso país, muito populoso e com muitas riquezas naturais, mas atrasado em vários aspectos: tecnológico, científico, educacional, social e econômico. A China pós-revolucionária era uma nação desorganizada, falida e em ruínas.

Construção de uma nova China

Os problemas mais urgentes eram a inflação galopante e a paralisação da produção industrial e rural. Depois de muitas décadas de penúria e humilhação, o povo chinês ansiava por mudanças que melhorassem sua condição de vida. Gradualmente, a indústria e o comércio foram nacionalizados. As finanças foram equilibradas e a reforma agrária foi realizada.

Os hábitos e costumes tradicionais do povo foram abruptamente alterados. O Estado declarou a educação popular uma obrigatoriedade. A prostituição e o uso de drogas, antes endêmicos, passaram a ser considerados crimes. As mulheres, por outro lado, se libertaram do concubinato (que as mantinham numa relação de subordinação ao marido).

Os revolucionários desfecharam uma feroz perseguição a todas as classes de indivíduos que tinham ligações com os nacionalistas. Funcionários estatais, administradores de empresas, pequenos e médios proprietários urbanos e rurais, membros de associações religiosas e tradicionais, entre outros segmentos sociais, foram declarados "inimigos do povo".

A população foi oficialmente estimulada a participar, engajando-se na denúncia, julgamento e condenação dos acusados. Todo esse processo foi marcado pelo uso de violenta repressão contra os opositores do socialismo. Como exemplo dessa política oficial, estima-se que cerca de dois milhões de indivíduos pertencentes à classe de proprietários rurais perderam a vida porque resistiram à socialização e à coletivização das terras.

Renato Cancian é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais. É autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: Gênese e Atuação Política - 1972-1985".

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