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História do Brasil

França Antártica - Para expulsar franceses, portugueses fundaram o Rio

Renato Cancian

Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Entre 1555 e 1624, o Brasil foi alvo de invasões estrangeiras promovidas por franceses e holandeses que tentaram, em várias ocasiões, se estabelecer em partes do território colonial brasileiro.

As invasões e a reação de Portugal para retomar o controle de sua posse provocaram importantes mudanças na vida econômica e na organização política e territorial do Brasil colonial. Mas é importante enfatizar que franceses e holandeses tiveram diferentes motivações para organizar expedições marítimas e aportar no território brasileiro.

Os motivos da invasão francesa

Navegadores franceses conheciam o litoral brasileiro e aqui já haviam criado várias feitorias para contrabandear o pau-brasil. Em 1555, no entanto, a França estava atravessando um período de conflito religioso envolvendo católicos e protestantes. Os protestantes franceses, conhecidos como huguenotes, passaram a ser perseguidos pelos católicos do reino.

Liderados por Nicolau Durand Villegaignon e com o apoio do Almirante Gaspar Coligny, os huguenotes buscaram refúgio no Brasil. Em 1555, os franceses planejaram, então, se fixar permanentemente na Baía da Guanabara, um ponto do litoral brasileiro que os portugueses ainda não tinham povoado. Os franceses se instalaram nas ilhas de Serigipe (hoje Villegaignon) e Paranapuã (hoje ilha do Governador), Uruçu-mirim (hoje Flamengo) e em Laje, e denominaram toda essa região de França Antártica.

Confrontos entre franceses e portugueses

Quando os franceses invadiram o Brasil, os portugueses já tinham iniciado o processo de colonização. Desde de 1549 o Brasil possuía um governo-geral. Assim, Portugal reagiu, determinando ao governador-geral, Duarte da Costa que organizasse uma campanha para pôr um fim à França Antártica. Duarte da Costa, no entanto, não obteve êxito em nenhuma de suas tentativas. Em 1558, foi substituído no cargo por Mem de Sá. Este, em 1560, deu início a outra campanha para expulsar os franceses.

A campanha de Mem de Sá

Mem de Sá seguiu de Salvador para a vila de São Vicente, onde obteve o apoio dos colonos e dos jesuítas, reunindo esforços para lutar contra os franceses. Os portugueses, então, obtiveram uma vitória parcial contra os franceses ao atacar o forte Coligny, na ilha de Serigipe, e conseguiram fazê-los fugir. Mas ficaram impossibilitados de persegui-los devido a avarias provocadas pelos combates em inúmeras embarcações. Por isso, acabaram por abandonar a região.

Com a retirada dos portugueses, os franceses retornaram e ocuparam novamente o forte Coligny, tomando ainda posições em Uruçu-mirim e Paranapuã. Com o objetivo de resistir e defender a França Antártica, os franceses conquistaram o apoio dos índios que habitavam a região. Desde que se estabeleceram em terras brasileiras, haviam firmado boas relações com os índios, fazendo-os seus aliados contra os próprios colonizadores portugueses, considerados por ambos - franceses e índios - como o "inimigo comum".

A Confederação dos Tamoios

Incentivados pelos franceses, os índios das tribos tamoios conseguiram se unir a outras tribos e criaram a Confederação dos Tamoios, com objetivo de guerrear contra os portugueses. Embora ficasse iminente, a guerra entre os portugueses e os índios não chegou a ocorrer. Antes disso, os jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta realizaram um valioso trabalho de negociação com os tamoios, firmando o chamado Armistício de Iperoig. Na prática, isso resultou no fim da aliança dos índios com os franceses.

Ainda assim, os invasores permaneciam na Guanabara. Por esse motivo, Mem de Sá solicitou reforços a Portugal. D. Catarina, regente do trono português, enviou, em 1563, de uma frota comandada por Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá. Além dos reforços recebidos, Mem de Sá obteve o apoio do nativo Araribóia, chefe das tribos termiminós.

Com a reunião dessas forças, os portugueses iniciaram uma nova campanha. Após travarem vários combates, conseguiram expulsar os invasores acabar com a França Antártica. Estácio de Sá, porém, morreu em decorrência dos combates. De qualquer modo, de sua expedição resultou na fundação da cidade do Rio de Janeiro. O índio Araribóia foi recompensado por Mem de Sá com uma sesmaria próxima à Baía da Guanabara, que futuramente daria origem à cidade de Niterói.

Invasão francesa em São Luís do Maranhão

Mas o fim da França Antártica não significou a expulsão definitiva dos franceses do território brasileiro, pois eles iniciaram várias novas investidas no litoral das regiões Norte e Nordeste. Em 1612, invadiram o Maranhão e estabeleceram uma colônia batizada de França Equinocial. Nessa nova tentativa, eram chefiados por Daniel de La Touche, que fundou a cidade de São Luís (atual capital do Maranhão), nome escolhido por ele para homenagear o então rei francês, Luís 13.

Dessa vez, contudo, os portugueses estavam mais preparados para repelir os invasores. Sob a liderança de Jerônimo de Albuquerque, conseguiram expulsar definitivamente os franceses, tanto do Maranhão quanto do Brasil, em 1615. Foi no decorrer dessas lutas que os portugueses ocuparam e povoaram a região do território brasileiro que hoje abrange os Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Pará e Maranhão.

Renato Cancian é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais, é autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: Gênese e Atuação Política - 1972-1985" (Edufscar).

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