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Questão Christie - Brasil rompe relações com a Inglaterra

Vitor Amorim de Angelo

Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Durante o 2° Reinado, as relações diplomáticas entre Brasil e Inglaterra ficaram bastante comprometidas, em razão dos episódios conhecidos como Questão Christie. William Dougall Christie era embaixador britânico no Brasil havia dois anos quando um incidente envolvendo um navio inglês, sucedido por outras contendas entre os dois países, levou o imperador d. Pedro 2° a romper formalmente as relações diplomáticas com a Inglaterra.

A Questão Christie entrou para a história brasileira como um dos episódios mais marcantes no campo das relações internacionais. Ao lado das divergências com os ingleses, a Guerra do Paraguai seria outro acontecimento que pautaria nossa política externa na segunda metade do século 19, com reflexos, inclusive, sobre os destinos do Império.

O naufrágio do Prince of Wales

Em abril de 1861, o navio Prince of Wales, que partira de Glasgow, na Escócia, rumo a Buenos Aires, encalhou próximo à costa do Rio Grande do Sul, já em águas brasileiras. No naufrágio, 12 marinheiros acabaram morrendo. Os sobreviventes abandonaram o navio e seguiram em direção à cidade de Rio Grande para comunicar o fato às autoridades brasileiras.

O Prince of Wales, contudo, ficou abandonado, encalhado em alto-mar. Enquanto a tripulação do navio estava em terra, populares que tinham ouvido falar do naufrágio e da carga que a embarcação transportava, saquearam o navio, roubando louças, lenços, azeites e vinhos. Quando os marinheiros voltaram ao Príncipe of Wales, viram que a carga tinha sido furtada.

A tripulação contatou o embaixador Christie, que, por sua vez, solicitou a d. Pedro 2° um pedido formal de desculpas e a indenização pelos danos. O imperador, contudo, negou-se a atender os pedidos do embaixador inglês. Começava, assim, a contenda entre os dois países.

A prisão dos marinheiros ingleses

No ano seguinte, alguns marinheiros ingleses - vestidos em trajes civis - foram detidos no Rio de Janeiro. A acusação que pesava sobre eles era a de que, bêbados, teriam se envolvido numa briga com oficiais da marinha brasileira, provocando tumulto na então capital do Império.

Assim que a polícia identificou os marinheiros, estes foram soltos. Na época, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, Antônio Coelho de Sá e Albuquerque, escreveu ao embaixador inglês solicitando que os marinheiros fossem colocados à disposição das autoridades brasileiras.

William Christie, porém, aproveitou-se da nova controvérsia para retomar o episódio anterior. Em reunião com d. Pedro 2°, Christie exigiu o pagamento de uma indenização referente ao saque do Prince of Wales e à prisão dos marinheiros brasileiros envolvidos na briga no porto do Rio de Janeiro, ameaçando fechar a Baía de Guanabara com navios da marinha britânica, caso não fosse atendido - o que nunca chegou a se concretizar.

O rei da Bélgica é chamado

Em 1863, um novo episódio estremeceria as relações entre Brasil e Inglaterra. Uma esquadra inglesa que zarpara do Rio de Janeiro aprisionou navios mercantes brasileiros que estavam em alto-mar. D. Pedro encaminhou ao governo inglês um pedido formal de desculpas e indenização.

Diante da resposta negativa, o imperador decidiu romper as relações diplomáticas com a Inglaterra. Aquele era o ponto alto de um processo de desgaste entre os dois países que se arrastava desde a década de 1850 - entre outras coisas, por conta das pressões inglesas pela abolição do tráfico negreiro.

Como não existia, na época, um organismo internacional para intermediar os conflitos entre países, Brasil e Inglaterra decidiram levar a contenda ao rei Leopoldo 2º, da Bélgica - tio da rainha Vitória, da Inglaterra. A decisão do rei, favorável ao Brasil, foi comunicada ao governo imperial em Bruxelas, em 1863. A relação diplomática entre Brasil e Inglaterra, contudo, continuaria rompida por mais dois anos, sendo restabelecida apenas em 1865, já no contexto da Guerra do Paraguai.

Vitor Amorim de Angelo é historiador, mestre e doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos. Atualmente, é professor de história da Universidade Federal de Uberlândia.

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