História geral

Independência da Colômbia: Da desunião à República de Nova Granada

Érica Turci

O Vice-Reino de Nova Granada abrangia, na época colonial, os países que hoje conhecemos por Colômbia, Panamá e Equador (deste último, apenas uma parte). A história da independência desse vice-reino é complexa - e, até hoje, a data escolhida para se comemorar o princípio de suas lutas (20 de julho de 1810) causa grande debate entre os historiadores. Esse dia marca o início da formação de uma Junta de Governo em Bogotá (a capital), mas essa não foi a primeira Junta de Governo formada na Colômbia e seus membros não chegaram à independência nesse momento.

No mesmo ano em que Napoleão tomou o trono espanhol (1808), a primeira cidade de Nova Granada a tentar formar uma Junta de Governo liderada pelos criollos foi Quito, atual capital do Equador. Mas, sem o apoio das regiões vizinhas (todas ainda sob domínio dos chapetones), os quitenhos foram vencidos. Em função disso, a independência do Equador demorou muitos anos para se concretizar.

Em 1810, as províncias da atual Colômbia começaram a formar suas Juntas de Governo: Cartagena (22 de maio), Cali, Socorro e Pamplona (3 de julho) - e, em 20 de julho, Santa Fé (atual Bogotá).

As noticias sobre a Junta de Bogotá se espalharam rapidamente por toda região, incentivando a formação de outras juntas independentes, até mesmo em pequenas cidades. Mas as diferenças econômicas e culturais e a dificuldade de comunicação entre as regiões da Colômbia agravaram o desentendimento entre os criollos, pois cada Junta defendia uma forma de governo diferente.

Pátria Boba

Somente em 1811 foi possível criar uma unidade política: as Províncias Unidas de Nova Granada. Porém, a capital, Santa Fé, que ficava numa região montanhosa e isolada, não aderiu a essa união, formando o Estado da Cundinamarca.

No ano seguinte uma série de guerras entre a Cundinamarca e as Províncias Unidas teve início. A partir de então, e até 1816, Nova Granada viveu um processo de guerras civis. Enquanto isso, algumas regiões preferiram se manter leais à Espanha, como Pasto e Santa Maria (na Colômbia) - e o Panamá. Esse período ficou conhecido como Pátria Boba (período de desunião).

Em 1814, Simon Bolívar, líder do processo de independência na Venezuela, estava refugiado em Nova Granada, já que fora vencido novamente pelos realistas (chapetones) venezuelanos. Bolívar, que acalentava o sonho de formar um grande Estado na região (englobando Nova Granada e Venezuela), liderou o exército das Províncias Unidas, vencendo e anexando a Cundinamarca em dezembro de 1814.

Luta contra os espanhóis

Mas, nesse mesmo ano, na Espanha, o rei Fernando 7º tinha retomado o trono e iniciado um processo de perseguição aos liberais, tanto na Espanha quanto na América. Em 1815, chegou à Venezuela a maior tropa enviada pela Espanha (10 mil homens), liderada pelo general Pablo Morillo, a fim de restaurar a ordem colonial.

Quando Morillo chegou à Venezuela, os chapetones já tinham vencido Bolívar e retomado o poder (1814), e por isso as tropas espanholas partiram para Nova Granada, contando com a colaboração de Santa Maria. Em 1816, Nova Granada voltou ao domínio espanhol.

Simon Bolívar - que, após a vitória sobre a Cundinamarca, tinha se refugiado na Jamaica e, depois, no Haiti - retornou à Venezuela em 1816 e, com o apoio britânico, conseguiu tomar o porto de Angostura, organizando ali seu quartel-general e a sede de um novo governo independente.

Na Venezuela e na Colômbia a perseguição política praticada pelos espanhóis foi tamanha, que os criollos viram no governo de Angostura uma nova possibilidade de libertação, e se aliaram a Bolívar. Além disso, Bolívar passou a defender o saque às terras dos chapetones, durante as batalhas, e o fim da escravidão, fatos que atraíram muitos mestiços e indígenas para sua causa.

Dessa forma, Bolívar conseguiu unir colombianos e venezuelanos, tanto criollos quanto trabalhadores, na formação de um poderoso exército contra os espanhóis. Por isso, em 1819, quando ocorreu o Congresso de Cúcuta e se proclamou a formação da Grã-Colômbia (um Estado que unia Venezuela e Nova Granada), não houve razão para qualquer tipo de questionamento.

A partir de então, Bolívar e suas tropas venceram inúmeras batalhas contra os espanhóis, derrotando-os definitivamente em 24 de junho de 1821.

Ao mesmo tempo, a Assembleia Constituinte que tinha se estabelecido em Cúcuta organizou a Constituição da Grã-Colômbia, determinando a formação de um país centralista, com capital em Bogotá, sendo Bolívar eleito presidente.

Em novembro de 1821, o Panamá se tornou independente e se uniu à Grã-Colômbia. Em maio de 1822, Bolívar e Antonio José de Sucre, contando com o apoio de tropas enviadas por San Martín, conseguiram libertar Quito, o que permitiu que também o Equador fosse anexado à Grã-Colômbia.

Desintegração da Grã-Colômbia

Somente em 1826, depois de vencer os espanhóis em seu último reduto, o Peru, Bolívar retornou a Bogotá - mas encontrou a Grã-Colômbia em decomposição. Segundo o historiador David Bushnell, "embora bastante consciente das dificuldades que impediam maior integração, Bolívar esperava ver pelo menos alguns arranjos permanentes de consulta e cooperação entre as unidades territoriais independentes".

Mas tal cooperação se tornava, com a passar do tempo, impossível. As diferenças regionais e os interesses das elites eram irreconciliáveis. Mesmo assim, Bolívar convocou, em 1826, a Primeira Assembleia Internacional de Estados Americanos (Congresso do Panamá), que acabou por ser um fracasso, devido à falta de participação dos países americanos recém-independentes.

Bolívar faleceu em dezembro de 1830, antes de ver a desintegração da Grã-Colômbia. Como afirma o historiador Malcolm Deas, "a Grã-Colômbia havia sustentado a guerra de libertação, tinha, de um modo ou de outro, fornecido homens e recursos para os Exércitos de Bolívar no Sul. A tentativa de unidade fora feita (...). No entanto, em 1830, os generais Paez, Santander e Flores emergiram como os respectivos governantes da Venezuela, de Nova Granada e do Equador".

Assim, em 1831, surgiu a República de Nova Granada, que somente em 1886 recebeu o nome de Colômbia.

Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

Bibliografia

  • BUSHNELL, David. "A independência da América do Sul espanhola". In BETHEL, Leslie (org.). História da América Latina: da independência até 1870. SP.: Edusp; Imprensa Oficial do Estado; DF.: Fundação Alexandra Gusmão. 2001.
  • CHAUNU, Pierre. História da América Latina. SP: Difel. 1979.
  • COSTA, Flávio Moreira da (org.) Os melhores contos que a história escreveu. Nova fronteira. Rio de Janeiro, 2006.
  • DEAS, Malcolm. "A Venezuela, a Colômbia e o Equador: o primeiro meio século de independência". In BETHEL, Leslie (org.). História da América Latina: da independência até 1870. SP.: Edusp; Imprensa Oficial do Estado; DF.: Fundação Alexandra Gusmão. 2001.
  • DORATIOTO, Francisco. Espaços nacionais na América Latina: da utopia bolivariana à fragmentação. SP.: Brasiliense, 1994.

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