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Macunaíma: Mário de Andrade cria uma metáfora do Brasil

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

(Atualizado em 24/02/2015, às 13h18)

A diversidade dá o tom de "Macunaíma", um dos principais textos escritos pelo poeta, romancista, crítico de arte, folclorista, musicólogo e ensaísta paulistano Mário de Andrade (1893 - 1945). Editado em 1928, embora escrito em poucos dias, no final de 1926, numa fazenda da família, em Araraquara, interior de São Paulo, trata-se de leitura obrigatória para a discussão do que significa ser brasileiro.

Mitos e lendas indígenas, sobretudo amazônicos, recolhidos e publicados pelo etnólogo alemão Koch-Grünberg, além de provérbios e registros folclóricos, são articulados de modo a construir uma espécie de alegoria nacional em torno da história do protagonista. Chamado de "herói sem nenhum caráter", sua frase preferida é "Ai, que preguiça!".

Atrás do muiraquitã

Nascido numa tribo amazônica, Macunaíma tem dois irmãos, Maanape e Jiguê, e, diferentemente dos habitantes da aldeia, sua personalidade se baseia em mentiras, traições, safadezas e uma vontade imensa de nada fazer e de ter conforto. Espécie de somatório do que existe de pior no Brasil, Macunaíma se apaixona pela índia Ci, a Mãe do Mato. Depois da morte da índia e do filho, no parto, ele dá pela falta da pedra conhecida como muiraquitã, amuleto que recebera de presente dela.

Desesperado feito criança quando perde algo ao qual se apega, ele consegue descobrir que seu objeto de desejo está em poder do mascate peruano e comedor de gente Vesceslau Pietra, chamado de gigante Piamã, que morava em São Paulo. A narrativa passa então a se concentrar na viagem dos três irmãos para a cidade em busca da pedra.

Vitorioso, Macunaíma regressa à Amazônia, mas perde novamente o muiraquitã. Vencido pelo desânimo, vai até o feiticeiro Piauí-Pódole, que o transforma na constelação de Ursa Maior. Fica assim no firmamento sem ter utilidade alguma para os seres humanos.

Modo de falar nacional

A classificação do texto está imersa em debates desde a criação. O autor a chamou de "história" para aproximá-la dos contos populares, mas, não satisfeito, decidiu depois considerá-la uma "rapsódia", gênero popular marcado pela riqueza e variedade de motivos populares. Para complicar ainda mais, a obra tem características épicas, no sentido de ser a jornada de um personagem que representa uma nacionalidade, em busca de um objetivo. Há ainda o humor, que permeia toda a narrativa.

Defensor de uma "gramatiquinha" brasileira que desvincularia o português do Brasil do de Portugal, tendência que já vinha em andamento desde o período romântico, o livro valoriza as raízes brasileiras e o modo de falar nacional. No célebre episódio da Carta pras Icamiabas, por exemplo, existe uma paródia ao português de Portugal antigo, totalmente diferente do modo de falar e de escrever no Brasil.

Uma das figuras mais importantes e eruditas da Semana de Arte Moderna de 1922, Mário de Andrade constrói sua jornada com total liberdade espacial e temporal. Macunaíma, em poucas linhas, viaja de uma parte do Brasil para outra e conversa com pessoas de épocas diferentes.

Assim, ele dialoga com o explorador português João Ramalho (século 16), o desenhista francês Hércules Florence (século 19) e com o industrial nordestino Delmiro Gouveia (século 20), que criou a primeira fábrica nacional de linhas de costura e foi pioneiro da usina hidrelétrica de Paulo Afonso. Cria, assim, uma metáfora de um Brasil repleto de anti-heróis.

Oscar D'Ambrosio, Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação é jornalista, mestre em artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), crítico de arte e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

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