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Desde 2005, má formação docente e currículo são problemas do ensino no país

Marcelle Souza

Do UOL, em São Paulo

05/09/2014 23h55

Os dados do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), divulgados nesta sexta-feira (5) pelo MEC (Ministério da Educação), mostram uma evolução insatisfatória nos anos finais do ensino fundamental e principalmente no ensino médio. Para especialistas, uma melhora significativa depende da melhora na formação dos professores e da discussão de um currículo nacional para a educação básica.

“Desde 2005, o MEC está falando da crise do ensino médio e ele não melhora. Não houve mudança curricular, faltam professores, não há flexibilidade. O governo federal não enfrentou o problema. O aluno sai do ensino fundamental, mas não termina o ensino médio”, diz Maria Helena Guimarães de Castro, diretora-executiva da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), de São Paulo, e professora aposentada da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). A especialista também ocupou o cargo de presidente do Inep, instituição do MEC atualmente responsável pelo Ideb, entre 1995 e 2002, na gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

De acordo com o vice-presidente do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), Eduardo Deschamps, a melhoria de qualidade no ensino médio e no fundamental 2 [do 6º ao 9º ano] depende de mudanças importantes nesses dois níveis de ensino. “Enquanto você não ataca as questões centrais, como o currículo e formação inicial de professores, você não vai conseguir impactar de verdade na formação dos alunos, pode ter mudanças pontuais, mas não pode esperar resultados significativos”, diz. Ele também atribui à Lei do Piso salarial docente e às greves do ano passado a causa dos maus resultados.

O ministro da Educação, Henrique Paim, disse nesta sexta que o Brasil vive uma onda de melhoria dos anos iniciais que tende a avançar para os outros anos com o tempo. Ele admite que é preciso intensificar as políticas voltadas para o ensino médio. "A implantação de políticas de gestão voltadas ao ensino médio é mais recente do que o esforço que fizemos nos anos iniciais e nos anos finais. Ao longo desses anos o que conseguimos fazer no ensino médio foi criar condições básicas de funcionamento", defendeu.

Avanço insatisfatório

Os dados divulgados hoje mostram que o país só conseguiu bater a meta de qualidade nos primeiros anos do ensino fundamental (do 1º ao 5º ano). Nas demais séries, o desempenho foi insatisfatório, ficando abaixo das projeções feitas para 2013.

Além disso, a série histórica do Ideb mostra que só os anos inicias tiveram aumento significativo: saiu de 3,8 em 2005 para 5,2 em 2013. Nos demais anos, a variação não foi de um ponto em oito anos: de 3,4 para 3,7 no ensino médio e de 3,5 para 4,2 no segundo ciclo do ensino fundamental.

Segundo o vice-presidente do Consed, o mau desempenho já era esperado pelos secretários. “Nós tínhamos uma expectativa de retrocesso, basicamente porque as questões não foram implementadas. A melhoria do ensino médio depende da sua reformulação, que passa pela discussão com a sociedade, com a universidade, e a importância de encontrar um sistema nacional que integre os sistemas de ensino”, afirma.

“Se o aluno chegar melhor ao ensino fundamental, maior a probabilidade de terminar o ensino médio. Não dá para olhar o ensino médio isolado”, diz Castro. Já constatamos uma melhora razoável nos anos iniciais, mas nos finais [do fundamental] e no médio, o crescimento é muito lento. Isso não é uma boa notícia. Vamos ficar para trás”.

Os dois defendem a discussão de uma base curricular nacional para o ensino fundamental e para o ensino médio e mudanças na formação dos docentes. “Se não houve uma mudança [nas notas], a culpa não é dos professores. As faculdades e os cursos não estão preparando os professores para desenvolver as suas funções na sala de aula. Elas não estão se mexendo para mudar o programa de formação de professores tanto na pedagogia quanto na licenciatura”, diz a diretora do Seade.

Para Marta Vanelli, secretária geral da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), a solução passa também por investimento na carreira do professor. “O motivo [do desempenho das escolas no Ideb] é a desmotivação dos professores, por conta da desvalorização. Junto com isso, falta estrutura nas escolas, faltam laboratórios, material didático, e muitos professores têm contratos temporários”, diz.

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