'Analfabetismo e escravidão são lados da mesma moeda', diz Nobel da Paz

Bruna Souza Cruz e Lucas Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

  • Lucas Rodrigues/UOL

    Kailash Satyarthi, prêmio Nobel da Paz, faz aula pública na zona oeste da capital paulista

    Kailash Satyarthi, prêmio Nobel da Paz, faz aula pública na zona oeste da capital paulista

"Há 30 anos, percebi que a escravidão humana e o analfabetismo são dois lados da mesma moeda." A frase é de Kailash Satyarthi, ganhador do Nobel da Paz 2014 que atua pelo fim do trabalho infantil e escravo desde 1980 e pelo direito à educação.

Dando continuidade ao pensamento acima, o indiano contou, durante uma aula pública em São Paulo, a história de uma garota que trabalhava numa fábrica de tijolos. "Não recebia nada, nunca podia sair, não tinha acesso à saúde." Ela foi salva por uma das missões secretas de resgate feitas por Kailashi, mas acabou falecendo por conta de uma tuberculose. Tudo isso aos 14 anos.

"Não quero morrer foram suas últimas palavras. No dia seguinte, levamos seu corpo ao hospital. O pai precisava assinar uma certidão de óbito, mas não conseguiu. Ele disse: 'Senhores, se eu conseguisse ler e assinar, minha filha não teria morrido", conta o Nobel.

O pai da jovem se referia ao momento em que "assinou" o contrato de trabalho com sua digital. Se ele tivesse conseguido ler o documento, ele saberia que o trabalho era perpétuo e que ele e sua família nunca poderiam deixar aquele lugar. "A educação para o pai [da jovem] foi questão de vida e morte", refletiu Kailashi.

"Impedir a educação é crime"

Na visão do ativista indiano, vivemos um círculo vicioso, no qual as mais de 160 milhões de crianças que trabalham são filhas dos mais de 200 milhões de adultos que não trabalham.

"É impossível acabar com a escravidão sem acabar com o analfabetismo. Estamos em 2016 e ainda há crianças privadas da educação. A educação é o meio para o progresso e a chave para abrir o seu futuro. Ela pode trazer justiça e igualdade social."

Segundo o ativista, existem no mundo 168 milhões de crianças no trabalho infantil. Além disso, 59 milhões no mundo nunca foram para a escola e 120 milhões saíram antes de aprender a escrever, a ler e coisas básicas de matemática.

Como solução para o problema, o indiano reforça que a sociedade civil precisa exigir que os governos sejam de fato responsáveis pela educação. Afinal, "negar a educação é violar um direito humano. Impedi-la é um crime."

Ocupações

Na aula pública, organizada pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação, estiveram presentes estudantes que ocuparam escolas estaduais de São Paulo contra o projeto de reorganização proposto pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).

No encontro, Kailashi afirmou aos jovens que sofreu abusos policiais durante a juventude enquanto defendia melhorias na educação. "Quando eu tinha 13 anos, fui preso pela polícia porque tentava ir contra [a entrada do idioma] o inglês no currículo escolar. Fui preso e apanhei como vocês. Mas se pudesse, faria tudo de novo", disse.

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