Polícia impede estudantes de levar alimentos e água para ocupação no Rio

Alfredo Mergulhão

Colaboração para o UOL, no Rio

  • José Lucena/Estadão Conteúdo

    Estudantes usam cordas para passar “quentinhas” na ocupação da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc), no Rio

    Estudantes usam cordas para passar “quentinhas” na ocupação da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc), no Rio

Impedidos de entrar com água e comida, os estudantes que ocupam a sede da Seeduc (Secretaria Estadual de Educação do Rio) bateram boca e quase trocaram agressões com policiais militares na tarde desta terça-feira (7), quando tentavam passar alimentos e bebidas para o interior do prédio, situado no Santo Cristo, na zona portuária da capital fluminense. O local está ocupado desde 30 de maio para cobrar também melhorias na rede de ensino e apoiar a greve dos professores.

"Tivemos que trazer comida de forma clandestina. Mesmo assim foi em pouca quantidade. Eram umas 15 quentinhas para 50 pessoas, não deu para quem quis. Eu mesma comi só o resto e hoje ninguém vai ter janta", disse a estudante Tainá de Lemos, 16, integrante da comissão de comunicação da ocupação. Eles usaram cordas para passar os alimentos sobre o muro.

Os policiais ameaçaram prender o professor Leonardo Voigt por desacato e desobediência. O docente está acampado com um grupo de outros cinco professores em frente à Seeduc para apoiar os estudantes e evitar violência em caso de tentativa de desocupação do prédio. 

"Um carro de apoio do sindicato deixou as quentinhas aqui, mas a PM não deixa entrar nada. Eles falaram que são ordens superiores, sem dizer de onde vem essas ordens", afirmou Voigt, que ensina Sociologia e Filosofia no Colégio Estadual Agrícola Rei Alberto I, localizado na cidade de Nova Friburgo. Os professores estão em greve desde 2 de março e apoiam o movimento estudantil.

Sem acesso a comida, os alunos entraram em um restaurante terceirizado que funciona na sede da Seeduc e comeram os alimentos estocados. Policiais civis foram até o local nesta terça-feira para verificar se houve arrombamento, mas não entrou dentro do prédio. A Polícia Civil não se manifestou sobre o assunto.

"Não há nada de ilegal. Era a alternativa que a gente tinha para comer", disse o estudante Welliscen Patrick, 17, também da comissão de comunicação do movimento estudantil. Ele relatou que a falta de água no prédio tem deixado os banheiros do local impraticáveis, sem condições de dar descarga. Os alunos chegaram a usar as mangueiras de incêndio para conseguir água, mas esses equipamentos já estão secos.

Em nota, a Polícia Militar informou que os agentes do 5º Batalhão e do Batalhão de Policiamento em Grandes Eventos (BPGE) "estão estão cumprindo determinação de não entrar alimentos nem pessoas no local". A corporação acrescentou que tem atuado "dentro dos protocolos, garantindo o direito de manifestação e cumprindo as determinações ajustadas entre os órgãos envolvidos". No entanto, não especificou quem deu a ordem para impedir a entrada de água e comida no prédio ocupado.

A Seeduc enviou um comunicado no qual sustenta que não houve corte no fornecimento de água. "Certamente, qualquer flutuação na oferta do serviço é derivada de problemas internos. Como a equipe de manutenção da Secretaria está impedida pelos ocupantes de trabalhar, sequer é possível verificar se há falta d'água ou não", diz o texto. Em relação à comida, a Seeduc afirma que a determinação para impedir a entrada de alimentos, "se verdadeira", não foi passada pelo órgão e por este motivo não vai se pronunciar.

Na segunda-feira (6), o secretário de Educação, Wagner Victer esteve na sede da Seeduc para negociar com os estudantes, mas deixou o local pouco depois, hostilizado pelos alunos. Ele estava acompanhado por representantes da Defensoria Pública, Ministério Público Estadual e Tribunal de Justiça. Os alunos exigiram a permissão da entrada de dezenas de colegas que estavam do lado de fora do prédio. Com a negativa do secretário, a reunião não prosperou.

De acordo com a Seeduc, três unidades escolares da rede estadual permanecem sem nenhuma atividade por conta de ocupação. No auge do movimento, 70 escolas chegaram a ser ocupadas no Estado do Rio de Janeiro. 

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