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Por dentro do maior colégio público ocupado no Paraná: veja fotos e relatos

Janaina Garcia/UOL
Tombado, Colégio Estadual do Paraná é o maior da rede estadual; alunos substituíram bandeiras do Brasil e do Paraná pelas de movimentos "antifascistas" Imagem: Janaina Garcia/UOL

Janaina Garcia

Do UOL, em Curitiba

18/10/2016 11h37Atualizada em 19/10/2016 13h11

Eles não querem proximidade com partidos políticos nem com os que se proclamam representantes da classe estudantil. Rechaçam divisões de tarefas conforme antigos ou tradicionais padrões de gênero (homem/mulher) e prezam por um sistema de organização interna com regras próprias e bem definidas em que o mote seja a coletividade.

Tudo isso permeado por um discurso afinado em que “desmonte do ensino médio” e “congelamento de recursos para a educação” são expressões corriqueiras nas menções que fazem, respectivamente, à MP (Medida Provisória) 746, que prevê a reforma do ensino médio, e a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) 241, que busca disciplinar os gastos do governo federal pelos próximos 20 anos.

Esse é o pano de fundo do que acontece há duas semanas no Colégio Estadual do Paraná (CEP), uma das 600 escolas ocupadas no Estado contra a PEC e a MP.

Criado em 1846, o CEP é não só o maior colégio da rede estadual paranaense, como o mais tradicional: além das centenas de troféus, quadros e mobiliário de época, ele também é tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado e tem entre seus ex-alunos ilustres figuras como o poeta Paulo Leminski, o ex-presidente Jânio Quadros, o ator Ari Fontoura e os ex-governadores Jaime Lerner e Roberto Requião. O prédio também serviu de cenário para campanhas políticas, como a que reelegeu o governador Beto Richa (PSDB) em 2014.

Ainda que muitos de nós estejamos no 3º ano, quase nos formando: não podemos pensar só na gente  Letícia, estudante

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Cartazes na dependência do CEP Imagem: Janaina Garcia/UOL

Dias depois da primeira escola ocupada no Estado, no município de São José dos Pinhais (região metropolitana de Curitiba), foi a vez do CEP. Desde então, o efeito foi quase cascata: desde 25 colégios ocupados ali, já são 600 unidades tomadas até esta segunda-feira (17) segundo o movimento Ocupa Paraná, vinculado à Upes (União Paranaense de Estudantes Secundaristas). Só nessa segunda, foram 100 novas adesões. A secretaria estadual de Educação confirma 570 colégios nessa situação.

Melindrados com a presença da imprensa, os estudantes do CEP aceitaram mostrar o dia a dia a dia da ocupação para a reportagem do UOL, com exclusividade. Entre as atualizações da página no Facebook com informativos do que acontece em cada turno a oficinas com voluntários, eles têm uma agenda cheia e uma divisão de tarefas explicitada em fitas coloridas nos braços.

Fico revoltada quando dizem que esses meninos são ‘massa de manobra’, porque não são. Estão defendendo uma causa justa  Marilene Andruzinski, merendeira

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Panos de chão usados na limpeza do colégio Imagem: Janaina Garcia/UOL

Escolas de SP foram inspiração – para o bem e para o mal

De acordo com os estudantes, a inspiração para as ocupações paranaenses foram as escolas ocupadas em São Paulo, no final do ano passado –contra a reorganização escolar– e começo deste ano –contra a qualidade da merenda oferecida nas Etecs (Escolas Técnicas Estaduais). No auge das ocupações paulistas, no fim de 2015, cerca de 200 colégios foram ocupados, um terço das unidades atuais no Estado vizinho. “Mas lá [em SP] a gente percebeu que a truculência da polícia com os ocupantes foi muito maior que aqui”, afirma a estudante Marina, 17.

“São Paulo foi a grande referência, porque a gente viu que deu certo. Agora, os estudantes dos outros Estados têm que se mexer também contra esse desmonte que querem fazer da educação”, diz a estudante Letícia, 17, aluna do 3º ano. É ela quem apresenta as dependências do colégio, ocupado principalmente na área administrativa –mas com a preservação de um salão nobre onde, com correntes e cadeado na porta, ficam quadros e móveis mais suntuosos.

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Os dormitórios ficaram na ala administrativa do colégio Imagem: Janaina Garcia/UOL

"Mas a nossa luta tem um verniz mais amplo, ainda que muitos de nós estejamos no 3º ano, quase nos formando: não podemos pensar só na gente, mas também nos nossos colegas, nossos irmãos mais novos e nos nossos filhos –que educação eles terão daqui 20 anos?”, pergunta Letícia.

O QG da comunicação

Letícia abre uma salinha e mostra o estudante Pedro dos Santos, 18, no computador. Nas paredes, estão avisos e uma espécie de agenda improvisada com atividades até o final da semana.

É ali o QG da comunicação, onde eles postam a rotina de ações em uma página oficial dos alunos, no Facebook, e onde combinam as palestras e oficinas ministradas aos alunos por voluntários. A criação da fanpage, por sinal, foi uma das primeiras ações do movimento na unidade juntamente com a divisão dos trabalhos em sete comissões: segurança, comunicação, limpeza, agenda, alimentação, saúde e livre acesso.

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Pedro, no QG da comunicação, atualiza a fanpage do movimento Imagem: Janaina Garcia/UOL

“A gente prefere se comunicar via fanpage porque sabe que aqui a gente fala a verdade. Mas muito mais nocivas para a educação do que o que falam da gente são essa PEC e essa MP”, diz o adolescente.

Letícia observa: todo dia, alguns agressores (haters) promovem ataques na página, via comentários ou posts, contra a ocupação. “Tem muito cyberbullying, pessoas que nos atacam dizendo que estamos ‘sendo doutrinados’, que ‘somos comunistas’, filiados a partido, mas sabemos que não tem nada disso e que nossa luta é justa”, ela define.

Controle de acesso

Entre as funções divididas logo que a ocupação começou está a do controle de acesso ao prédio –na recepção ficam alunos com listas em que o visitante, quando é permitida a entrada, tem que assinar com a data e a área aonde irá nas dependências do colégio.

Bolsas e mochilas também são revistadas. “É uma maneira de a gente saber que aquela pessoa estava em determinado local se alguma coisa der errado”, explica Arnaldo, 16.

Há proibições –por exemplo, sobre sexo, armas, drogas e bebidas no local– e obrigações –sobretudo em relação à limpeza e organização do espaço. Não há objeção à mistura entre meninos e meninas nos dormitórios, uma vez observadas as ressalvas sobre comportamentos mais afoitos.

Aqui é um espaço comunitário, de desconstrução (...) Tanto que menino faz limpeza e ajuda a preparar a comida, e menina faz a segurança  Millena, estudante

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A limpeza da escola faz parte das obrigações de quem participa da ocupação Imagem: Janaina Garcia/UOL

Merenda comunitária, mas sem mexer na ‘oficial'

Os alimentos usados pelos estudantes na ocupação, segundo eles, são fruto de doações –a merenda fica em uma área que eles mantêm trancada. Até o botijão de gás foi rateado –e as refeições são preparadas em uma espécie de cozinha anexa, na área externa do prédio.

Entre as cozinheiras que preparavam os pratos nessa segunda estava Marilene Andruzinski, 47, que é merendeira e tem uma filha no colégio. “Fico revoltada quando dizem que esses meninos são ‘massa de manobra’, porque não são. Estão defendendo uma causa justa, na minha opinião”, defende. Entre os pratos que dona Marilene –chamada de “tia” pelos alunos– cozinhou estavam bisteca suína, salada de tomate e macarrão. Os estudantes comem com pratos e talheres descartáveis.

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A merendeira Marilena é voluntária na produção das refeições Imagem: Janaina Garcia/UOL

Questões de gênero na roda

Entre as oficinas oferecidas pelos voluntários –vários deles, profissionais formados ou alunos da UFPR (Universidade Federal do Paraná)–, estão a de ‘lambes’, cartazes fixados com cola e mensagens de conteúdo social. Boa parte desse material espalhado pelo colégio traz recados feministas ou de combate ao machismo ou ainda mensagens de apoio à causa LGBT.

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Mensagens de gênero ilustram os 'lambes' espalhados pelo colégio Imagem: Janaina Garcia/UOL

“Aqui é um espaço comunitário, de desconstrução –não tem diferença entre homem e mulher. Tanto que menino faz limpeza e ajuda a preparar a comida, e menina faz a segurança –porque isso não é tarefa ‘para homem’ ou ‘para mulher’, mas de qualquer um”, define a estudante Millena, 17.

Nos banheiros, homens e mulheres se revezavam na limpeza enquanto a reportagem visitava a ocupação –a exemplo do esquema de segurança nas escadarias da entrada principal.

Apoios de dentro e de fora

Entre os alunos, são comuns os relatos de manifestações hostis, em outras unidades de ensino, por parte de membros da comunidade escolar que não aceitaram a paralisação das aulas. Nesta segunda, 17, a paralisação veio da parte dos professores estaduais, que entraram em greve por tempo indeterminado.

Alimentos e artigos de higiene doados, bem como oficinas –de jazz, poesia, história, repressão policial, questões de gênero, português e matemática, por exemplo--, são os argumentos dos estudantes para defender que o apoio vai muito além do que ocorre entre eles próprios.

“Estou muito agradecida pelo movimento desses alunos. Esse enfrentamento deles me dá esperanças e me faz querer somar forças com eles –ainda mais contra uma reforma de ensino médio que lima qualquer possibilidade de educação de qualidade; sequer estrutura para o ensino integral nós temos, mesmo sendo um dos maiores colégios do Estado”, destaca a professora de química Célia Cardoso de Melo, 58.

Professora se emociona ao falar sobre estudantes

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Célia conta que esteve ano passado no protesto no Centro Cívico, dia 29 de abril, em que policiais reprimiram professores e estudantes que protestavam contra mudanças na previdência dos servidores. “Meu filho tomou uma bala de borracha na bochecha”, lembra.

Integrante de uma oficina de jazz, o músico Gabriel Floriano, 31, mestrando em música na UFPR, explicou que a proposta dessas ações “são coisas mais livres, menos técnicas”: “Serve mesmo para a gente demonstrar nosso apoio à causa dos meninos, que estão defendendo coisas sérias e de fato importantes”.

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O músico Gabriel Floriano deu uma oficina de jazz aos alunos da ocupação ao lado de amigos Imagem: Janaina Garcia/UOL

Eleições e Enem à vista

Os alunos afirmam ter recebido esta semana visitas de funcionários do TRE-PR (Tribunal Regional Eleitoral do Paraná) e “de gente ligada ao Enem (Exame Nacional do Ensino Médio)” –este, marcado para o fim de semana de 5 e 6 de novembro. Já o segundo turno das eleições, caso de Curitiba, acontece no próximo dia 30. Eles não demonstraram intenção de deixar ocupação, muito menos de não realizar as duas obrigações (para os que votam e/ou prestam o Enem).

A aposta do grupo ouvido pelo UOL é que essas atividades sejam realocadas pelos órgãos competentes para outras unidades de ensino que não estejam ocupadas, principalmente universidades.

De acordo com a secretária estadual de educação, Ana Seres, todos os diretores de escolas ocupadas convocarão ainda nesta terça (18) os  conselhos escolares para que, juntos, avaliem o processo de ocupação e tomem decisões isoladas. "Porque cada realidade é um ato diferente. Está muito difícil generalizar uma decisão em que ocupações se modificam a partir do momento em que iniciam o processo, por isso, vamos responsabilizar diretores [no sentido de que] ouvirão conselhos para tomadas de decisões pontuais", definiu.

Indagada sobre o que será feito caso as ocupações prossigam após o período decretado de recesso --de ontem até a próxima sexta--, a secretária resumiu: "Vamos avaliar novamente. Essas medidas são para até sexta-feira desta semana". 

Nesta terça, Seres e o governador Beto Richa (PSDB) participam de uma audiência com o ministro da Educação, Mendonça Filho, para apresentarem o resultado de debates sobre a reforma do ensino médio, feitos no Paraná, e no qual há críticas à MP 746