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Devo mudar minha redação do Enem após decisão sobre direitos humanos? Para professores, não

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Ana Carla Bermúdez e Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

27/10/2017 04h00

Mesmo com a suspensão da regra do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) que dá nota zero para a redação que desrespeite os direitos humanos, sem direito à correção de seu conteúdo, cursinhos ouvidos pelo UOL disseram que vão orientar seus alunos a seguirem o que foi ensinado e treinado ao longo do ano, sem mudanças de estratégia.

A decisão judicial é da 5ª turma do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) e acontece bem na reta final de preparação para o exame --os candidatos terão que fazer uma redação já no primeiro dia de prova, no dia 5 de novembro. A segunda etapa do exame será no dia 12. No entanto, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), que é a autarquia do Ministério da Educação responsável pela realização da prova, já afirmou que recorrerá, portanto o caso pode ter mudanças nas instâncias superiores.

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“A princípio não muda nada, porque até nas orientações para os alunos a gente nunca recomendou entrar nesse tipo de assunto”, disse Vinicius de Carvalho Haidar, coordenador pedagógico do Curso Poliedro.

Já Ana Paula Dibbern, professora e coordenadora do cursinho Maximize, diz que é “gastar tempo” se preocupar com essa possível mudança agora. “O aluno que se preocupar com isso só vai ficar nervoso”, diz.

“Acho que é um pouco de alarde o que a Escola Sem Partido está fazendo. E se essa mudança de fato acontecer, não vai mudar nada para a maioria dos alunos”, afirma.

Ela defende que o aluno continue seguindo a orientação básica para a redação do Enem: “um texto dissertativo, com argumentos, uma tese e que traga uma proposta de intervenção para o problema apresentado”.

Tom Junior, coordenador pedagógico nacional do Educafro, concorda e complementa: “As orientações para as redações são as mesmas: que respeitem os direitos humanos, a diversidade étnica, de gênero, religiosa. Isso é um dos pilares que fundamentam a sociedade”.

Direitos humanos acima das regras do Enem

Maria Aparecida Custódio, responsável pelo laboratório de redação do colégio e curso Objetivo, disse que a instituição vai continuar orientando seus alunos para que nas redações prevaleça o respeito aos direitos humanos, afirmando que isso independe de qualquer regra expressa em editais, seja do Enem ou de qualquer outro vestibular.

“O Brasil é signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, é um preceito que vai além da prova. Apesar dessa decisão, nós orientamos é que prevaleça em qualquer redação o respeito aos direitos humanos”, afirmou.

Custódio defendeu ainda que os alunos do Objetivo continuarão sendo ensinados sobre o fato de “os direitos humanos estarem acima de qualquer liberdade de expressão”. Tanto Custódio quanto Haidar acreditam que o tema da redação deste ano deve abordar a questão da homofobia. A nova determinação, portanto, deve gerar polêmica.

“Provavelmente na [redação] desse ano vai ser a mesma coisa, porque o tema já está pronto e deve ser em cima de alguma discussão relacionada ao contexto dos direitos humanos, talvez sobre homofobia”, disse.

Os temas das redações do Enem têm gerado polêmica nos últimos anos. Em 2015, o candidato precisou dissertar sobre violência contra a mulher. O tema foi aplaudido por alguns e muito criticado por outros, por causa do viés feminista. A hashtag #enemfeminista foi criada e começou a ser usada tanto pelos que defendiam quanto pelos que não concordavam com o tema. No ano passado, o episódio se repetiu. O tema foi "Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil".

Poucas redações anuladas em 2016

Apesar da disputa judicial, no ano passado, foi baixo o índice de alunos que tiveram seus textos zerados com base nesta regra. Segundo dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), entre 8,6 milhões de participantes inscritos, 84.236 redações foram anuladas no Enem 2016. Deste total, 4.798 redações foram zeradas por desrespeito aos direitos humanos, ou seja, 5,7%.

O motivo que menos levou à anulação da redação foi o critério de "não atendimento ao tipo textual": 3.615 textos. "Fuga ao tema" foi a regra que mais rendeu nota zero na redação: ao todo, puniu 46.874 redações candidatos.

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