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'Vendendo almoço para comprar janta', diz dona de escola que reabriu no RJ

Paula Elisa Pinna, proprietária do Jardim Escola Tia Paula, há 36 anos em Madureira, zona norte do Rio - Acervo pessoal
Paula Elisa Pinna, proprietária do Jardim Escola Tia Paula, há 36 anos em Madureira, zona norte do Rio Imagem: Acervo pessoal

Pauline Almeida

Colaboração para o UOL, no Rio

04/08/2020 04h00

A reabertura facultativa de escolas particulares foi marcada ontem por baixa adesão na cidade do Rio. Entre as que decidiram voltar, estão unidades de menor porte em bairros do subúrbio, cuja retomada foi parcial e atraiu pequena parcela dos alunos. Pressionadas pela inadimplência, as escolas que reabriram têm em comum pais de alunos que dependem delas para cuidar dos filhos enquanto trabalham.

No Jardim Escola Tia Paula, de Madureira (zona norte), o retorno ocorre em meio à demanda das famílias e ao aperto financeiro. "Tentei pegar recurso pelo Pronampe [Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte], mas ninguém conseguiu. Estou vendendo almoço para comprar a janta", diz Paula Elisa Pinna, dona da escola, sobre os gastos feitos para a reabertura.

Já os colégios maiores adiaram a volta às aulas por insegurança dos pais e falta de consenso entre a prefeitura e o governo estadual sobre a data da retomada.

Nesta segunda-feira (3), a Prefeitura do Rio deu aval para a reabertura facultativa das escolas particulares para 4º, 5º, 8º e 9º anos. Já um decreto estadual mantém as escolas fechadas ao menos até amanhã (5). Sem autorização para a volta às aulas, as redes públicas municipal e estadual permanecem fechadas.

Com inadimplência das mensalidades beirando os 30%, o Jardim Escola Tia Paula —180 alunos do ensino infantil ao 5º ano— ficou fechado por cinco meses e investiu R$ 20 mil em adequações para prevenção contra o coronavírus —o valor foi parcelado até o ano que vem. Foram adquiridos um ventilador que lança gotículas sanitizantes nas roupas e mochilas, além de máscaras para uso nas duas horas de funcionamento da escola. Parquinho e refeitório continuam fechados.

O Jardim Escola Tia Paula, de Madureira, fez adaptações para prevenção contra o coronavírus - Acervo pessoal - Acervo pessoal
O Jardim Escola Tia Paula, de Madureira, fez adaptações para prevenção contra o coronavírus
Imagem: Acervo pessoal

A reabertura da escola de Madureira, que atende moradores da favela do Cajueiro, é marcada também por um cenário de exclusão digital.

"Tenho alguns pais semianalfabetos que trabalham muito para pagar a escola dos filhos. Os pais fazem sacrifício, eles próprios estão pedindo [para reabrir] porque estão deixando as crianças com vizinhos para trabalhar no mercadão, no shopping e nas lojinhas de Madureira", relata a educadora. Apesar disso, menos de 10% dos estudantes compareceu no primeiro dia de aula presencial.

Em sala, estudantes assistem a aula virtual

Com receita menor em razão de descontos nas mensalidades e alta da inadimplência, a Escola Camões-Pinochio, na Freguesia, em Jacarepaguá (zona oeste), também decidiu receber estudantes cujos pais trabalham fora. Assim como a escola de Madureira, adesão foi baixa —os alunos que voltaram representam pouco menos de 10% dos 500 alunos da escola.

"Quem mandou [os filhos para a escola] foi porque precisava trabalhar e porque a criança já não estava muito bem depois de tanto tempo em casa. A gente tem um grupo pequeno de pais que está bem assustado [com os riscos de contágio], um grupo pequeno que está revoltado porque já queria ter voltado há muito mais tempo e a maioria está em compasso de espera, vendo como serão esses dias", relatou o diretor pedagógico, Luciano Nogueira.

De acordo com as direções das escolas, foi estabelecido o retorno voluntário de profissionais de educação, ou seja, voltou quem se sentiu seguro, inclusive integrantes dos considerados grupos de risco. No entanto, as unidades adotaram estratégias diferentes.

Na de Madureira, os professores receberam os alunos nas salas de aula. Já na da Freguesia, a direção optou por manter os docentes em casa neste momento. Eles seguem gravando e transmitindo as aulas pela internet, assistidas tanto pelos alunos do ensino presencial quanto virtual, em uma tentativa de não haver diferenciação entre os grupos.

Quem foi ao colégio teve a recepção de uma equipe de monitores, que já atuava antes da pandemia, e dos integrantes das equipes de coordenação e direção.