PUBLICIDADE
Topo

Pai monta cabana na roça para o filho ter sinal de internet e estudar no PR

Murilo Lopacinski, de 10 anos, estuda no meio da roça em Mallet, no Paraná, durante a pandemia de coronavírus - Arquivo pessoal
Murilo Lopacinski, de 10 anos, estuda no meio da roça em Mallet, no Paraná, durante a pandemia de coronavírus Imagem: Arquivo pessoal

Abinoan Santiago

Colaboração para o UOL, em Ponta Grossa (PR)

17/09/2020 14h33

Uma cabana branca se destaca em meio ao verde de 24 hectares de plantações em um sítio na zona rural da cidade de Mallet, a 210 quilômetros de Curitiba. Ela é usada todo dia por Murilo Lopacinski, de 10 anos, para captar sinal de internet e acompanhar as aulas online enquanto a pandemia do novo coronavírus mantém suspenso o ensino presencial no Paraná.

A cabana é simples. O pai de Murilo, o pedreiro Moacir Lopacinski, de 46 anos, a montou com o filho usando pedaços de madeira, um banco e uma pequena mesa. Ela é coberta por sacos de produtos agrícolas. Apesar da simplicidade, o aluno diz que é o suficiente acompanhar as aulas do sexto ano do ensino fundamental.

A estrutura foi erguida em uma parte alta da propriedade rural por ser o único ponto onde é possível acessar a internet móvel pelo celular onde moram. A casa deles fica a seis quilômetros da sede de Mallet e não tem rede wi-fi. O garoto estuda na cabana desde agosto. Antes de acompanhar as aulas pelo celular, o pai dele pegava e deixava atividades impressas na escola a cada 15 dias.

"Ele tem o celular e existe um único ponto no sítio que pega o sinal de internet. Sempre que queríamos acessar algo, a gente subia lá. Uma vez, quando eu fui deixar as atividades e pegar outras na escola, a pedagoga comentou do aplicativo das aulas pela internet e assim surgiu a ideia de montar uma cabana onde pega o sinal. Ficou até um quadrado legal", contou o pedreiro.

Apesar de Moacir considerar que a cabana não é a melhor alternativa ao aprendizado do filho, ele acredita que essa é a única maneira de Murilo continuar os estudos com segurança em relação ao novo coronavírus. Mallet, segundo o governo do Paraná, tem 65 casos confirmados e duas mortes decorrentes da covid-19.

"Está complicada a situação da pandemia, mas acredito que as aulas devem continuar remotas porque mesmo essa amenizada dos casos, todo cuidado é necessário. Meu filho, mesmo nessa situação, sempre se manteve motivado em continuar estudando", orgulha-se o pai.

Cabana - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A cabana construída para Murilo Lopacinski estudar no Paraná
Imagem: Arquivo pessoal

Natureza ajuda na concentração

Murilo estuda de acordo com o clima. Quando há chuva ou frio intenso no município, não é possível acompanhar as aulas na cabana. Ele escolhe os dias de sol para assistir às atividades.

O aluno comenta que seria melhor se o ensino fosse presencial na escola, mas diz que a cabana pelo menos ajudou a se concentrar mais nas atividades porque no meio da roça escuta apenas o barulho da natureza. Ela fica a mais de 500 metros da casa do sítio.

"É legal ficar na cabana porque tenho paz e presto mais atenção na aula. Eu fico mais concentrado, mas seria melhor se fosse na escola. Por enquanto não dá", comentou o menino, que também precisa contar com a sorte de a bateria do celular aguentar até o fim do horário. "Quando descarrega, preciso voltar para casa", completa o aluno, que faz o download da aula quando o problema acontece.

Paixão pelos estudos

Murilo estuda na escola Nicolau Copérnico, a aproximadamente dez quilômetros do sítio. Lá, existem 358 alunos e cerca de 50% vivem na área rural de Mallet, pequena cidade de 13 mil habitantes. Os estudantes têm as opções de seguirem o ano letivo por meio de atividades pedagógicas pela TV, exercícios impressos ou aplicativo.

Pelo celular, não é preciso ter recarga, porém o aparelho necessita estar captando sinal móvel de conexão para usar a internet disponibilizada pelo governo do Paraná.

A pedagoga da escola, Anderssa Paim, comenta que Murilo tem paixão pelos estudos. Ele estava com o conteúdo do trimestre quase todo concluído, mas decidiu refazê-lo por conta própria através do aplicativo.

"Ele baixou o aplicativo e já estava com as atividades bastante adiantadas. Falamos que não precisaria refazer, mas mesmo assim, com muita força de vontade foi colocando as mesmas atividades em dia e já está quase concluindo o trimestre", diz a pedagoga.

O retorno das aulas presenciais na rede pública do Paraná ainda não tem data definida pelo governo.