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Tablets prometidos pela Prefeitura de SP chegam sem chip e ficam guardados

Então prefeito, Bruno Covas prometeu entregar 465 mil tablets a alunos da rede municipal   - Reprodução
Então prefeito, Bruno Covas prometeu entregar 465 mil tablets a alunos da rede municipal Imagem: Reprodução

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

19/07/2021 04h00

A costureira Aracely Merida Urena, 39, vibrou quando ouviu do então prefeito de São Paulo Bruno Covas (morto em 16 de maio) que a prefeitura distribuiria 465 mil tablets para alunos da rede municipal estudarem em casa em 2021. A promessa, feita em agosto do ano passado, foi parcialmente cumprida: apenas 200 mil tablets foram entregues e boa parte deles está estocada, sem condições de uso.

"Quando a gente soube dos tablets foi muita alegria porque não tenho como dar um tablet ou um celular a meus três filhos", contou Urena ao UOL. "Eu empresto meu celular para eles dividirem, mas o pacote de dados acaba rápido."

Covas prometeu entregar todos os aparelhos até o começo do ano letivo. O contrato de R$ 437 milhões foi assinado em novembro de 2020 com a empresa Multilaser, enquanto o edital para fornecer os chips de acesso à internet foi fechado em janeiro com a Claro (R$ 111,7 milhões) e a Oi Móvel (R$ 13,9 milhões).

Tablets estocados

Embora o primeiro semestre já tenha acabado, a prefeitura entregou às escolas apenas 200 mil tablets até agora. Parte dos equipamentos, porém, está guardada, sem condições de uso.

O UOL conversou sob anonimato com um diretor de escola, um coordenador de ensino e uma professora da rede municipal. Eles reclamam que em suas escolas e "em muitas outras" a prefeitura entregou os equipamentos sem chip e não envia equipe técnica para fazer a configuração dos aparelhos.

"Os equipamentos são distribuídos aos alunos após montagem, programação, testes e ativação do sistema de monitoramento de conteúdo", diz a Secretaria Municipal de Educação, em nota. Questionada, a pasta não justificou o atraso na entrega dos tablets, dos chips e do envio da equipe técnica.

Um diretor de uma escola na região central conta que os 836 tablets chegaram em 24 de março, mas até agora os chips não apareceram. O jeito foi guardar tudo em uma sala e não divulgar a informação no bairro para evitar assalto.

Em uma escola na zona leste, os 714 equipamentos também chegaram sem chip. Há duas semanas, conta uma professora, um técnico apareceu com dez chips, configurou os aparelhos e entregou aos alunos. Os outros continuaram estocados.

O coordenador de ensino de outra unidade na zona leste recebeu os chips no dia 6 de julho, mas os tablets continuaram trancados em uma sala porque a prefeitura não enviou equipe técnica para a ativação dos chips.

O coordenador decidiu, então, pôr a mão na massa e pediu a alguns professores que o ajudasse a ativar os chips e configurar os aparelhos. Na semana passada, ele conta ter passado seis horas ativando 200 tablets e um aplicativo obrigatório que filtra o que o aluno pode acessar.

"O ensino híbrido [presencial e remoto] tornou-se muito relevante para a aprendizagem", afirma Cláudia Costin, professora da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e ex-diretora global de educação do Banco Mundial. "Se não tem dinheiro para todos, dê os tablets aos que estão cadastrados no Bolsa Família ou no auxílio emergencial."

A prefeitura diz que a compra dos aparelhos "seguiu a legislação" e, "em função da pandemia, estão escalonando a distribuição seguindo os protocolos de segurança".

'É lenda', diz mãe

Dona Aracely, do começo da reportagem, foi contaminada pelo coronavírus no começo do ano e ficou com medo de mandar para a escola sua filha de oito anos e os dois meninos, de 12 e 13.

aracely - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Aracely com o marido e os três filhos
Imagem: Arquivo Pessoal

"Sofri muito com a doença e não quero que meus filhos peguem", diz ela. "A gente sabe que criança não respeita distanciamento, principalmente no recreio."

A costureira conta que a dificuldade dos filhos em acompanhar os estudos à distância aumentou quando ela ficou sem internet por dois meses e meio.

"Eu ia buscar os exercícios na escola e depois levava de volta. Olha como o tablet podia ajudar", diz.

As duas filhas da professora Gabriela Rodrigues de Souza Augusto, 28, estudam na zona norte. Mãe solteira e pagando aluguel, ela diz que, se comprar tablets para as filhas de seis e 11 anos, não sobrará dinheiro para manter a casa. Ela, então, comprou um celular "baratinho" para que as duas se revezem no uso.

"Quando uma tem atividade, a outra entrega o celular para a irmã", conta. "Às vezes, tem aula no mesmo horário, e a gente tem de escolher quem vai estudar", diz ela, que não quer os filhos frequentando a escola porque a filha mais velha sofre de asma, "toma corticoide, não pode pegar covid".

Já estamos no meio do ano e nada do tablet. Para a gente, essa história já é lenda.
Gabriela de Souza Augusto, mãe de aluno

A dona de casa Silvana Vieira Leite, 44, também diz duvidar da prefeitura. Mãe de um garoto de 11 anos e uma menina de 15, ela conta que, depois de muito esperar pelo tablet, decidiu comprar um celular barato para os filhos, mas a pouca memória do aparelho não permite baixar o material de estudo.

"Já fiquei três dias sem internet, acumulando lição. Fora que o celular é pequeno para acompanhar muitas horas de aula", lamenta. "Dizem que o tablet já vem com internet e configurado para receber as lições."

Clarice - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Filha de Silvana, Clarice, de 15 anos, divide o celular com o irmão para acompanhar as aulas remotas na capital
Imagem: Arquivo Pessoal

Foi só uma promessa para ganhar voto. O povo acredita, vota e nada.
Silvana Vieira Leite, mãe de aluno

Para a professora da FGV, a distribuição dos tablets pode reduzir "dois grandes problemas nesses tempos de pandemia": a perda de aprendizagem e do vínculo do aluno com o professor e escola.

Há um sério risco de esses jovens não completarem nem o ensino fundamental.
Cláudia Costin, diretora do Centro de Inovação em Políticas Educacionais da FGV

MP recomenda entrega

A entrega dos tablets vem demorando tanto que a bancada feminista do PSOL na Câmara Municipal e o movimento Famílias pela Vida ingressaram com uma Ação Civil Pública em abril. Na ocasião, a Justiça decidiu liminarmente (provisoriamente) que a prefeitura entregasse todos os equipamentos em até dez dias.

"Nosso mandato ganhou a ação pedindo a entrega imediata, mas, ao invés de entregar a prefeitura recorreu", lamenta Silvia Ferraro (PSOL), covereadora do mandato coletivo Bancada Feminista. "A prefeitura foi negligente. Os primeiros tablets começaram a ser entregues só depois de cinco meses após a compra e, ainda hoje, após 8 meses, não foram entregues todos".

Como o município recorreu, a Justiça derrubou a liminar e pediu a opinião do Ministério Público antes de marcar nova audiência, ainda sem data. O MP enviou seu parecer em 29 de junho.

A procuradora Deborah Pierri escreve que, até 21 de maio, apenas 100 mil tablets haviam sido entregues, "não havendo informação a respeito do cronograma para a disponibilização do restante, cujo prazo de entrega já se esgotou".

"A cada dia que o poder público deixa de providenciar o acesso à educação às suas crianças e adolescentes, o dano se torna irreparável, notadamente diante da evasão escolar", escreveu ela, antes de pedir à Justiça que determine a entrega dos tablets.