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Após denúncia de racismo, UFRJ volta atrás e revoga banca de concurso

Prédio da reitoria da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) - Divulgação
Prédio da reitoria da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Imagem: Divulgação

Marcela Lemos,

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

02/09/2021 13h26

O IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) decidiu ontem (1º), por unanimidade, revogar a banca que iria admitir novos docentes na instituição. A decisão ocorreu após o professor Josué Medeiros dizer que o colega Wallace de Moraes não poderia integrar o grupo por "se vitimizar por ser negro", situação relatada por Moraes e outros docentes presentes na reunião. Entidades e o acadêmico encararam o gesto como racista e acionaram a reitoria da universidade.

A acusação partiu do Coletivo Docentes Negras e Negros da universidade. De acordo com a denúncia, Wallace de Moraes, único negro do setor e que preenchia todos os pré-requisitos para integrar a banca, foi vetado após ser chamado por um colega de departamento de "brigão, desequilibrado, sem condições emocionais".

Segundo o coletivo e Moraes, as falas partiram do professor Josué Medeiros, durante uma reunião realizada no dia 11 de agosto, que definiu a banca de professores - que por sua vez, foi formada apenas por docentes da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), sem nenhuma participação de profissionais da UFRJ.

A reunião desta quarta foi convocada com urgência pelos 17 docentes do IFCS. Com duração de cerca de 3h30, a conversa foi acompanhada pelo UOL. Em determinado momento, quase 500 pessoas viam o encontro virtual.

Wallace de Moraes, de 47 anos, é professor de de Ciência Política da UFRJ. - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Wallace de Moraes, de 47 anos, é professor de de Ciência Política da UFRJ; outro docente disse que ele não poderia assumir um posto por se "vitimizar por ser negro? e ter desequilíbrios emocionais.
Imagem: Arquivo Pessoal

Nela, Wallace voltou a descrever os ataques sofridos e, ao se dirigir à chefe do setor, a professora Thais Aguiar, questionou a condução do processo.

"Vocês fizeram questão de aprovar uma banca só com nomes de vocês. Você acha isso justo? Na Ciência Política isso tem um nome: ditadura da maioria", enfatizou o professor, que recebeu apoio e mensagens de solidariedade de outros docentes ao longo da reunião.

Por sua vez, Thais Aguiar se defendeu. "Eu insisto que esse fórum não se transforme em um tribunal de exceção, de pré-julgamentos. Nossa instituição possui fóruns adequados para a apuração de denúncias", disse. A professora destacou ainda que vive um linchamento público, e que isso poderia ter sido evitado.

De acordo com a denúncia, Thais Aguiar e seu substituto eventual, o professor Pedro Lima, além de omissos aos comentários de Medeiros durante a reunião do dia 11, ratificaram que um "membro desequilibrado não poderia compor a banca''. Os três, agora, são alvo de uma sindicância na instituição.

Pedro Lima esteve presente na reunião desta quarta e não se manifestou. Já o professor Josué, que teria proferido os ataques, não compareceu. O UOL procurou pela segunda vez o professor, mas ele não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Indicação de afastamento

Ainda na reunião, a professora Thais Aguiar, a única do trio alvo de uma sindicância na UFRJ a se posicionar, ouviu ainda a sugestão do futuro diretor do IFCS, Fernando Santoro, de se afastar da chefia do departamento - o que foi rejeitado por ela.

"Eu não sou apegada a essa chefia. Fui eleita. (...) Muitas pessoas são investigadas e continuam nos cargos sendo investigadas. Se a sindicância apontar, eu saio".

Ao UOL, o advogado de defesa da docente, Daniel Mitidieri, destacou que ela "é uma pessoa que abraça a luta antirracista de uma maneira que não está em discussão, que é incontestável". Sobre a sugestão de afastamento do cargo, Mitidieri defendeu o princípio de presunção da inocência.

Ele negou também que a professora tenha tecido considerações de natureza racial ou até mesmo profissional sobre Wallace. "A banca constituída e revogada hoje tinha sido aprovada por outros professores e não foi determinada unilateralmente pela Thais. Ela concordou com a banca que não constava, não só o Wallace, como nenhum outro professor da UFRJ e o motivo é muito simples: a universidade possui conflitos inerentes a qualquer grupo coletivo".

Próximos passos

Na reunião desta quarta, a docente se absteve da votação. Mesmo assim, os 17 docentes presentes entenderam que a decisão pelo cancelamento da banca foi unânime.

Ao UOL, o professor Wallace comemorou a decisão. "Acho que é um primeiro passo por justiça, havia se formado uma banca com princípio de exclusão racista e que não incluiu nenhum professor da UFRJ. Foi um reparo", avaliou o docente.

Na reunião ainda foi aprovada uma carta de desagravo ao professor Wallace. A defesa dele prepara uma ação na Justiça Federal.

Ainda não há prazo definido para a formação da nova banca que será responsável pela contratação de novos docentes na instituição. Todos os 17 professores integrantes da IFCS têm direito à voto.