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Pandemia infla entrada de palavras em vocabulário da língua portuguesa

22.06.21 - Centro comercial de Araraquara (SP) vazio durante o 2º lockdown na cidade; palavra entrou no dicionário - UOL
22.06.21 - Centro comercial de Araraquara (SP) vazio durante o 2º lockdown na cidade; palavra entrou no dicionário Imagem: UOL

Letícia Mutchnik

Do UOL, em São Paulo

17/10/2021 04h00Atualizada em 21/10/2021 11h17

Além do protocolo sanitário —com máscaras e álcool em gel—, a pandemia de coronavírus também trouxe mudanças na nossa linguagem. Conforme os casos de covid-19 aumentavam, novas palavras e a ressignificação de algumas outras passaram a fazer parte da nossa vida.

Subnotificar, trabalhador essencial e lockdown foram alguns vocábulos adicionados na 6ª edição do Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), da ABL (Academia Brasileira de Letras), lançada em julho deste ano. Das 1.160 palavras inseridas nesta nova edição, 65 (5,6%) estão ligadas direta ou indiretamente à pandemia.

O Volp é usado como base para os dicionários da língua portuguesa. Hoje, no total, ele conta com 382 mil palavras.

Algumas das novidades até já apareciam nas conversas e textos (como telemedicina, home office e videoaula, por exemplo), mas ganharam força e passaram a ser usadas com mais frequência.

"Os acontecimentos que marcam determinada época têm reflexo na língua", afirma Evanildo Bechara, professor, gramático e filólogo brasileiro, presidente da Comissão de Lexicologia e Lexicografia da ABL e membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Galega da Língua Portuguesa.

Como a língua acompanha qualquer modificação por que passa uma sociedade, testemunhamos o efeito linguístico da pandemia não apenas na língua portuguesa, mas em várias outras. Ou seja, vimos a rapidez com que a língua acumulou um novo vocabulário e ele se tornou parte essencial do idioma, com termos científicos se incorporando à linguagem cotidiana e criações populares surgindo para nomear fatos extraordinários."
Evanildo Bechara, professor, gramático e filólogo

Segundo o especialista, a última vez que ocorreu a adição de tantas palavras referentes a um acontecimento específico foi na época da 2ª guerra mundial (1939-1945).

"Começada com os excessos de [Benito] Mussolini [ditador italiano] e [Adolf] Hitler [ditador alemão], vieram palavras de todos os lados", diz Bechara, citando termos como blitz e Fanta, que vem do alemão fantastisch (cuja tradução é fantástico).

Novos significados

Vocábulos como desconfinamento (usadas em expressões como fases do desconfinamento e plano de desconfinamento) e desconfinar, por exemplo, passaram a remeter, agora, à saída do período de restrições mais severas para impedir a circulação do vírus. Anteriormente, eram pouco usados e nem registrados em dicionários da língua portuguesa.

Outras palavras já tinham ganhado novo significado no dia a dia dos brasileiros, mas entraram de vez nas conversas e textos no ano passado.

"O termo 'quarentena' inicialmente indicava um período de 40 dias durante o qual pessoas, mercadorias e bagagens, vindas de algum lugar atingido por epidemia, ou doença contagiosa, deveriam ficar isolados, incomunicáveis, sem contato com os habitantes do lugar para onde se dirigiam", diz Bechara. "Com o passar do tempo, esse período pôde ser estendido ou reduzido, conforme as circunstâncias, mas a denominação quarentena foi mantida."

@uol

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Processo de adição de novas palavras ao "Volp"

Não há uma média anual de palavras adicionadas no vocabulário da língua portuguesa da ABL. Bechara afirma que "uma nova palavra ou expressão começa a circular nos dicionários quando se incorpora ao léxico culto ou popular de uma língua".

Ainda assim, existe um critério para determinar o que entra ou não no dicionário, com os especialistas observando os seguintes aspectos, nesta ordem:

  • Se o termo foi criado segundo os princípios que regem a formação de palavras antigas e modernas no nosso léxico;
  • Se a criação da nova palavra traduz com eficiência a ideia que a pessoa que a usou quis transmitir;
  • Se, para traduzir a mesma ideia, o idioma não tem palavras antigas e mais expressivas;
  • Se o fato de não existir um termo no dicionário é prova suficiente de que não deva ser criado outro vocábulo ou de que há um erro no uso desse termo.

A frequência de uso, a presença em textos oficiais, jornalísticos e acadêmicos e a relevância da palavra para os assuntos debatidos nas universidades e na vida social e profissional das pessoas também são levadas em consideração na seleção dos vocábulos e expressões, de acordo com o gramático.

Com a suspensão das atividades presenciais na ABL desde março de 2020, os lexicógrafos continuaram analisando os vocábulos, mas em home office.

Em um processo inédito, em outubro do ano passado, a ABL começou a apresentar semanalmente, nas redes sociais e no site, palavras ou expressões recentes que passaram a ter uso corrente na língua portuguesa, "podendo ser um neologismo [nova palavra], um empréstimo linguístico ou mesmo um vocábulo que, apesar de já existir há algum tempo, estava sendo usado com mais frequência ou com um novo sentido nos dias atuais", diz Bechara.

"O trabalho de redação das novas palavras continua sendo feito", conclui o especialista.