Força-tarefa, caneta grátis: Como CE se tornou campeão em inscritos no Enem

O Ceará lidera a lista dos estados brasileiros com mais alunos inscritos e que fizeram o Enem 2023, segundo dados divulgados pelo MEC (Ministério da Educação).

O que aconteceu

Até 2011, o estado percebia que alguns alunos enfrentavam dificuldades para realizar o Enem, afirmou ao UOL a secretária de Educação do Ceará, Eliana Nunes Estrela. O exame é considerado a principal porta de entrada ao ensino superior — com o resultado da prova, os alunos conseguem vagas em universidades públicas, privadas ou até fora do Brasil.

Para tentar vencer essas barreiras na escola pública, a pasta lançou há 12 anos o programa "Enem Chego Junto, Chego Bem". A ação tem sete etapas, que atendem o estudante durante toda a 3ª série do ensino médio.

O programa começa no início de cada ano letivo, com a avaliação dos documentos dos alunos que vão se inscrever. Durante o ano, a secretaria realiza uma força-tarefa para conseguir agilizar todos esses documentos necessários — como o RG.

As escolas também usam seus laboratórios e os professores para ajudar os alunos a fazer não só a inscrição mas também a conseguir a isenção da taxa. Caso a gratuidade seja negada pelo Inep, uma lei de 2021 no Ceará autoriza o governo a pagar a taxa pelo aluno.

Para que os alunos não desmobilizem, "aulões" são realizados durante o mês de férias, julho. O estado também busca, durante o ano, dar apoio e ajuda para os estudos em casa.

Esse programa vai até os dias da prova, com transporte, lanche e todo nosso time nas ruas; seja com um abraço, uma palavra de incentivo ou até caneta. A gente dá uma sinalização de que acredita no estudante.
Eliana Nunes Estrela, secretária de Educação do Ceará

Ações do Ceará podem inspirar outros estados

São Paulo está em segundo lugar, mas no ranking com a pior taxa de inscritos — 50,5% dos alunos da rede pública do ensino médio se inscreveram para a edição de 2023. O estado perde apenas para Roraima, que registrou 44,4% de inscritos nesse grupo.

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A boa experiência do Ceará pode inspirar outros estados. "Precisa ter uma mobilização de toda secretaria, não adianta só secretário dar entrevista e falar "alunos façam o Enem", explica Ivan Gotijo, gerente de políticas educacionais do Todos pela Educação.

O apoio ao estudante não deve ficar restrito, por exemplo, ao transporte público — cidades como São Paulo liberaram a catraca no dia do exame. "Muito alunos não têm estímulo e não pensam no Enem como uma possibilidade de ascensão, de próxima etapa para seu futuro", Ernesto Faria, diretor-executivo do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional).

A baixa taxa de inscritos em São Paulo não fica restrita a alunos de escola pública. No ranking geral, a porcentagem também é baixa. Para Claudia Costin, presidente do Instituto Singularidades, o trabalho precarizado para jovens que não querem fazer faculdade é um dos motivos. "Muitos também não se sem aptos a fazer a prova", afirma.

Ao UOL o governo Roraima afirmou que estudará os dados e avaliará medidas para alcançar mais estudantes. "O fato de o Enem não considerar especificidades regionais também contribui para a baixa procura por parte dos estudantes locais", diz o estado. O governo citou ainda a dificuldade de acesso e os impactos da pandemia.

A reportagem procurou o governo paulista, mas não obteve resposta. O UOL questionou o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) sobre as baixas taxas e o que tem sido feito para atrair os estudantes.

O MEC e Inep, responsável pelo Enem, querem aumentar a taxa de inscritos. Depois de três anos de queda, houve aumento de cerca de 15% em 2023 — o número total, entretanto, ainda é baixo em relação a anos anteriores.

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Uma das ações previstas pelo governo é enviar um email aos estudantes do ensino médio. O órgão quer entender os motivos para queda de inscrições entre 2019 e 2022 e por que há candidatos que se inscrevem, mas faltam.

O que mais disseram os especialistas

A gente ficou muito feliz com esse resultado e acredita que esse programa pode ser nacionalizado, porque ele deu excelentes resultados. Para nós aqui já é uma rotina anual.
Eliana Nunes Estrela, secretária de Educação do Ceará

É preciso organizar uma temporada de inscrição no Enem e, desde a primeira série, trabalhar com a ideia de que ele vai prestar o exame. É preciso fazer com que os alunos se sintam mais conectados com seus estudos no ensino médio.
Claudia Costin, presidente do Instituto Singularidades

As redes de ensino superestimam a capacidade dos jovens de se organizarem. É a primeira vez que esses alunos vão fazer uma prova dessa natureza. Eles precisam ver o local de prova, só o passe livre não ajuda, é preciso construir, por exemplo, a logística desse jovem no dia.
Ivan Gotijo, gerente de políticas educacionais do Todos pela Educação

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