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Mata Atlântica - Floresta é a mais agredida do mundo

Eduardo Vessoni/UOL
O Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba abriga seis trilhas pelo interior dessa área preservada de 426 hectares formada por um cinturão verde de Mata Atlântica, a pouco mais de 50 km da capital paulista Imagem: Eduardo Vessoni/UOL

Ângelo Tiago de Miranda

(Atualizado em 15/01/2014, às 16h16)

Originalmente, a Mata Atlântica se estendia por toda a costa brasileira, acompanhando planaltos e serras desde o Rio Grande do Norte (6º S) até o Rio Grande do Sul (30º S), adentrando o interior do território brasileiro na região dos estados da Bahia, Minas Gerais e São Paulo.

Ao todo, a Mata Atlântica já cobriu 1.300.000 km2, ou cerca de 15% do território brasileiro, englobando 17 estados, atingindo até o Paraguai e a Argentina

Devido à forte devastação, essa formação vegetal foi fragmentada, estando hoje reduzida a pequenos vestígios de sua área original de ocorrência. São 456 manchas verdes distribuídas entre o município de Osório, no Rio Grande do Sul, e a Serra da Ibiapaba, na divisa do Piauí com o Ceará. Atualmente, os remanescentes têm sua maior extensão contínua na região das serras do Mar e da Mantiqueira (Sudeste do Brasil), obstáculos à ocupação humana e à exploração florestal.

Devastação

A longa história da devastação da Mata Atlântica começou com a chegada dos colonizadores portugueses no século 16. Estima-se que o comércio de pau-brasil tenha provocado o abatimento de, aproximadamente, 2 milhões de árvores dessa espécie. Anos mais tarde, com o início efetivo da colonização, grandes extensões da Mata Atlântica foram substituídas pela agricultura da cana-de-açúcar, no Nordeste.

No final do século 19 e início do século 20, foi a vez do avanço da cultura cafeeira no Sudeste-Sul expulsar a floresta dessas regiões. A floresta foi sendo devastada também pela expansão da indústria, da agricultura, do turismo e da urbanização, que exigiram a extração de madeiras de vastas áreas.

Características

Esse bioma corresponde aos climas tropical litorâneo úmido (na faixa litorânea nordestina), tropical de altitude (no Sudeste) e subtropical úmido (no Sul). Enquadrada na categoria das florestas tropicais, apresenta-se como uma formação vegetal latifoliada (cujas folhas são muito largas), perene ('sempre verde' - os vegetais se recobrem constantemente de folhas), heterogênea (rica em espécies), densa (muitas árvores por unidade de área), higrófila (espécies vegetais que se desenvolvem em áreas muito úmidas) e predomina sobre terra firme.

Junto a outras formações do mesmo gênero, que estão presentes em outros países, a Mata Atlântica compõe o bioma terrestre de maior biodiversidade do planeta. Pesquisas realizadas com imagens de satélite, combinadas com levantamentos feitos em terra, confirmaram a sua luxuriante riqueza: recorde de plantas lenhosas (angiospermas) por hectare (450 espécies no sul da Bahia), cerca de 20 mil espécies vegetais, sendo 8 mil delas endêmicas (exclusivas do bioma), além de recordes de quantidade de espécies e endemismo de vários outros grupos de plantas. Para se ter uma idéia do que isso representa, em toda a América do Norte são estimadas 17.000 espécies existentes, na Europa cerca de 12.500 e, na África, entre 40.000 e 45.000.

Em relação à fauna e a quantidade de espécies conhecidas até hoje no bioma, são, por exemplo, 261 espécies de mamíferos, 1.020 de pássaros, 197 de répteis, 340 de anfíbios e 350 de peixes. Outro número impressionante da fauna da Mata Atlântica se refere ao endemismo. Das 1.711 espécies de vertebrados que vivem ali, 700 são endêmicas, sendo 55 espécies de mamíferos, 188 de aves, 60 de répteis, 90 de anfíbios e 133 de peixes.

Agressões

De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), a Mata Atlântica abrigava em 2008, 383 dos 683 animais ameaçados de extinção no Brasil. Com exceção da Ilha de Madagascar, na costa oriental do continente africano, é a floresta mais agredida do mundo.

Só no Estado do Espírito Santo foram postos abaixo 3 bilhões de árvores nas últimas quatro décadas - o que dá a incrível marca de 8.500 árvores por hora. Segundo dois levantamentos publicados em 2001 pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e pela Organização S.O.S Mata Atlântica, referentes aos estados do Paraná e do Rio de Janeiro, no fim da década de 1990 o Paraná superou o Rio de Janeiro em termos de devastação: mais de 60 mil hectares da Mata Atlântica original em território paranaense desapareceram no período, enquanto 3,7 mil hectares foram desmatados no Rio.

Hidrografia

É importante destacar ainda a existência de sete das nove maiores bacias hidrográficas brasileiras nesse bioma. Nele estão os mananciais que abastecem de água 70% da população brasileira.

Assim, proteger a Mata Atlântica também é proteger os processos hidrológicos responsáveis pela quantidade e qualidade da água potável para mais de 110 milhões de pessoas em cerca de 3,4 mil municípios inseridos no bioma.

Os rios e lagos que compõem essas bacias estão em grande parte ameaçados pelo desmatamento das matas ciliares ou de galeria (estreitas faixas de árvores que margeiam os rios) e conseqüente assoreamento dos mananciais, pela poluição da água e pela construção de represas sem os devidos cuidados no meio ambiente.

Essa emaranhada rede de bacias é formada por rios de grande importância, como: Paraíba, Paraíba do Sul, Doce, Jequitinhonha, São Francisco, Paraná, Tietê e Ribeira do Iguape.

Preservação

Para a preservação das riquezas faunísticas e florísticas da Mata Atlântica é necessário a tomada de múltiplas medidas que dependem da vontade política dos governantes, da conscientização, mobilização e participação dos cidadãos e da incorporação do conceito de sustentabilidade nas atividades econômicas.

Em conjunto, outras medidas importantes são a fiscalização da caça, da posse de animais em cativeiro e do comércio ilegal de espécies silvestres, além de uma efetiva fiscalização da atividade pesqueira e da realização de programas de educação ambiental junto à população.

Ângelo Tiago de Miranda é geógrafo, professor de Geografia e estudante do curso de Licenciatura em Pedagogia pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).

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