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'A demanda era antiga', diz diretora da escola que tirou nome de Médici

Membros da comunidade escolar na frente da nova fachada do colégio, em Salvador - Reprodução/Rodrigo Mantoan
Membros da comunidade escolar na frente da nova fachada do colégio, em Salvador Imagem: Reprodução/Rodrigo Mantoan

Lucas Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

15/04/2014 12h19

A vontade de mudar o nome do antigo Colégio Estadual Presidente Emílio Garrastazu Médici, em Salvador, não aconteceu por conta da efeméride dos 50 anos do golpe militar. Segundo a diretora Aldair Almeida Dantas, essa era uma insatisfação antiga da comunidade.

"A novidade foi a convergência de intenções e a coincidência com esse período de resgaste histórico", disse a diretora do, agora, Colégio Estadual do Stiep Carlos Marighella. "[Essa intenção] já vinha sendo levantada, principalmente pelos professores de humanas."

Aldair está no comando da instituição desde setembro de 2013, mas já trabalhava no local como professora de línguas portuguesa e inglesa hpa 16 anos. Quando dava aula no período noturno, notou a dúvida dos estudantes quanto à mudança.

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"No início, alguns alunos apresentaram estranheza, mas à medida que as ações tomaram corpo, com estudo de textos históricos feito pelos professores, eles entenderam", conta.

Aldair acredita que a única "mácula" da escola era carregar o nome do representante de "um dos piores períodos da história do país" nas suas palavras. "As pessoas dizem que Carlos Marighella foi um guerrilheiro, mas acima de tudo ele foi alguém que lutou pelo povo, pela democracia, pela liberdade", afirma.

Processo de mudança

Um colegiado escolar, formado pelos funcionários, professores, pais de alunos e pela comunidade, entendeu que o lançamento de muitos candidatos ao novo nome criaria confusão e seria muito desgastante. Por isso surgiu a ideia de encontrar apenas dois que representassem o combate ao regime militar e fossem baianos.

Os nomes do guerrilheiro Carlos Mariguella, morto sob o governo de Médici, e do geógrafo Milton Santos foram os escolhidos. "Ambos são da Bahia e descendentes da classe operária. Cada um tentou lutar contra a imposição do regime”, analisa Aldair.

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Chegou-se a pensar em um petroleiro como homenageado, uma vez que o nome do bairro, Stiep, origina-se da sigla "Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Extração de Petróleo", que tinha sede instalada no local.

O próximo passo foi levar a história dos personagens escolhidos para a comunidade escolar. Exposições, revistas temáticas e peças de teatro foram feitas, além de uma aula pública, no dia 30 de novembro do ano passado. Nela foi exibido um filme sobre o período e sobre os dois candidatos.

Palestrantes ressaltaram ainda a importância de Mariguella e Santos no contexto da época. No mesmo dia, foi iniciada a votação. Os presentes puderam escolher entre os dois, além de votar pela manutenção do nome de Médici.

"Ao final de dez dias nós fechamos a eleição e encaminhamos para a Secretaria de Educação, que aguardou o relatório de tudo que tinha acontecido", diz a diretora. No dia 14 de fevereiro, a mudança foi publicada no Diário Oficial.

Críticas

A mudança de nome do ex-presidente pelo guerrilheiro foi polêmica para uma parcela da sociedade. Na última segunda-feira, a página do Facebook da escola avisou aos internautas que postagens de cunho ofensivo e de baixo calão seriam excluídas e banidas.

"Nós somos uma instituição educacional e, embora as pessoas tenham direito de manifestar a opinião, não podemos deixar que a liberdade de expressão desça a um nível que foge ao respeito e ao caráter educacional", afirmou a diretora.

Levantamento

O UOL fez um levantamento, com base nos dados do Censo Escolar 2012, que mostrou que 717 escolas ativas com ensino regular possuem o nome de um dos cinco presidentes da ditadura militar, como era o caso da unidade escolar de Salvador.

Marighella, o atual homenageado pelo colégio, era nome de apenas duas escolas no país, uma no Rio de Janeiro e outra no Pará. Já o presidente Emílio Garrastazu Médici está imortalizado em 120 unidades escolares -- a maioria também no Estado da Bahia.

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