Professora pede para "dar jeito" em cabelo de aluna e é acusada de racismo

Olga Bagatini

Colaboração para o UOL

  • Arquivo pessoal

    Gabriela, de quatro anos, estuda em escola municipal de São Paulo

    Gabriela, de quatro anos, estuda em escola municipal de São Paulo

Uma professora da rede municipal de São Paulo foi acusada de racismo contra uma criança de quatro anos. No dia 30 de agosto, a cuidadora Janaína de Oliveira Martins foi buscar a filha Gabriela na Escola Municipal de Educação Infantil Estrada Turística do Jaraguá e ouviu um pedido para "dar um jeito" no cabelo black da menina. Segundo a docente, que teve a identidade preservada, as outras crianças da sala estavam com dificuldade de se "adaptar" à aparência da colega.

"Eu fui buscar minha filha quando ela [a professora] me chamou de canto. Falou bem baixinho, para ninguém mais ouvir, que eu tinha que dar um jeito no cabelo da minha filha porque as outras crianças estavam achando estranho e ficavam xingando ela de 'feia' por ter o cabelo assim", explicou Janaína ao UOL.

"Ela perguntou se tinha como eu fazer um coque ou uma trança no cabelo dela e eu falei que não, primeiro porque o couro cabeludo dela é sensível e isso poderia machucá-la, e segundo porque ela gosta do cabelo solto e eu não ia fazer isso para agradar outras crianças", acrescentou a mãe.

Incomodada com a postura da professora, Janaína entrou em contato com a diretoria da escola, que pediu alguns dias para tentar resolver o problema internamente e marcou uma reunião com os pais e a profissional na última segunda-feira (3). Durante o encontro, a docente mostrou arrependimento e disse que "não teve intenção de magoar Gabriela", afirma Janaína. 

A mãe acredita que a professora deveria ter "ensinado as outras crianças que isso é errado" em vez de tentar mudar o cabelo de Gabriela. "Eu falei que ia procurar a direção e ela disse que estava falando aquilo para o bem da Gabriela, disse que ela mesma tinha o cabelo 'ruim' e precisava alisar. Mas eu não tenho como alisar o cabelo de uma criança de quatro anos."

Janaína também conta que conversou com outras funcionárias da escola, que refutaram a versão da professora e relataram que Gabriela não ficava isolada e estava sempre acompanhada de outros colegas. "Talvez ela tenha usado essa desculpa da minha filha ficar isolada para falar o que ela realmente pensava", pondera.

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Em busca de respaldo jurídico, o irmão de Janaína, Leonardo Martins, divulgou a história nas redes sociais. A advogada Maria Letícia Puglisi  Munhoz, integrante da Diverse – organização especializada em crimes de discriminação que dá assistência jurídica a pessoas de baixa renda –, aceitou acompanhar o caso. Entretanto, a mãe preferiu não fazer boletim de ocorrência.

"É importante esclarecer que uma fala dessas é crime de racismo. Muita gente acha que é mal entendido, mas é crime, então não pode ser resolvido só com processo administrativo e advertência", explicou a advogada. "Mostrei os caminhos para a Janaína. Ela podia fazer boletim de ocorrência na delegacia ou entrar com uma ação civil pública, um pedido de indenização particular. É muito difícil um caso desses terminar em prisão", diz Letícia, que acompanha o desdobramento do caso junto ao Ministério da Educação.

"A professora é concursada. É bom acompanhar a questão do afastamento porque muita gente não vê isso como uma atividade criminosa, e sim como algo que pode ser corrigido pedagogicamente", argumenta Letícia. "As pessoas têm que prestar atenção para entender a gravidade do racismo. A professora pediu desculpas, mas se a gente não começa a penalizar quem comete esses crimes, as coisas não mudam. Infelizmente alguns servem de exemplo. Esse tipo de caso é muito comum no Brasil."

A diretoria da escola afirma que a profissional será afastada. O UOL tentou contato com a docente, que afirmou estar "muito abalada" e preferiu não se manifestar. Por meio da assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Educação, o órgão responsável pela Emei Estrada Turística do Jaraguá lamentou o ocorrido e informou que abriu "procedimento disciplinar contra a professora envolvida". Além disso, a instituição afirmou que "está realizando ações pedagógicas com os alunos da sala em que a criança estuda, onde estão sendo abordados temas como o respeito à diversidade".

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