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Professora pede para "dar jeito" em cabelo de aluna e é acusada de racismo

Arquivo pessoal
Gabriela, de quatro anos, estuda em escola municipal de São Paulo Imagem: Arquivo pessoal

Olga Bagatini

Colaboração para o UOL

2018-09-09T14:36:59

09/09/2018 14h36

Uma professora da rede municipal de São Paulo foi acusada de racismo contra uma criança de quatro anos. No dia 30 de agosto, a cuidadora Janaína de Oliveira Martins foi buscar a filha Gabriela na Escola Municipal de Educação Infantil Estrada Turística do Jaraguá e ouviu um pedido para "dar um jeito" no cabelo black da menina. Segundo a docente, que teve a identidade preservada, as outras crianças da sala estavam com dificuldade de se "adaptar" à aparência da colega.

"Eu fui buscar minha filha quando ela [a professora] me chamou de canto. Falou bem baixinho, para ninguém mais ouvir, que eu tinha que dar um jeito no cabelo da minha filha porque as outras crianças estavam achando estranho e ficavam xingando ela de 'feia' por ter o cabelo assim", explicou Janaína ao UOL.

"Ela perguntou se tinha como eu fazer um coque ou uma trança no cabelo dela e eu falei que não, primeiro porque o couro cabeludo dela é sensível e isso poderia machucá-la, e segundo porque ela gosta do cabelo solto e eu não ia fazer isso para agradar outras crianças", acrescentou a mãe.

Incomodada com a postura da professora, Janaína entrou em contato com a diretoria da escola, que pediu alguns dias para tentar resolver o problema internamente e marcou uma reunião com os pais e a profissional na última segunda-feira (3). Durante o encontro, a docente mostrou arrependimento e disse que "não teve intenção de magoar Gabriela", afirma Janaína. 

A mãe acredita que a professora deveria ter "ensinado as outras crianças que isso é errado" em vez de tentar mudar o cabelo de Gabriela. "Eu falei que ia procurar a direção e ela disse que estava falando aquilo para o bem da Gabriela, disse que ela mesma tinha o cabelo 'ruim' e precisava alisar. Mas eu não tenho como alisar o cabelo de uma criança de quatro anos."

Janaína também conta que conversou com outras funcionárias da escola, que refutaram a versão da professora e relataram que Gabriela não ficava isolada e estava sempre acompanhada de outros colegas. "Talvez ela tenha usado essa desculpa da minha filha ficar isolada para falar o que ela realmente pensava", pondera.

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Em busca de respaldo jurídico, o irmão de Janaína, Leonardo Martins, divulgou a história nas redes sociais. A advogada Maria Letícia Puglisi  Munhoz, integrante da Diverse – organização especializada em crimes de discriminação que dá assistência jurídica a pessoas de baixa renda –, aceitou acompanhar o caso. Entretanto, a mãe preferiu não fazer boletim de ocorrência.

"É importante esclarecer que uma fala dessas é crime de racismo. Muita gente acha que é mal entendido, mas é crime, então não pode ser resolvido só com processo administrativo e advertência", explicou a advogada. "Mostrei os caminhos para a Janaína. Ela podia fazer boletim de ocorrência na delegacia ou entrar com uma ação civil pública, um pedido de indenização particular. É muito difícil um caso desses terminar em prisão", diz Letícia, que acompanha o desdobramento do caso junto ao Ministério da Educação.

"A professora é concursada. É bom acompanhar a questão do afastamento porque muita gente não vê isso como uma atividade criminosa, e sim como algo que pode ser corrigido pedagogicamente", argumenta Letícia. "As pessoas têm que prestar atenção para entender a gravidade do racismo. A professora pediu desculpas, mas se a gente não começa a penalizar quem comete esses crimes, as coisas não mudam. Infelizmente alguns servem de exemplo. Esse tipo de caso é muito comum no Brasil."

A diretoria da escola afirma que a profissional será afastada. O UOL tentou contato com a docente, que afirmou estar "muito abalada" e preferiu não se manifestar. Por meio da assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Educação, o órgão responsável pela Emei Estrada Turística do Jaraguá lamentou o ocorrido e informou que abriu "procedimento disciplinar contra a professora envolvida". Além disso, a instituição afirmou que "está realizando ações pedagógicas com os alunos da sala em que a criança estuda, onde estão sendo abordados temas como o respeito à diversidade".

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