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Redação do Enem, democratização do acesso ao cinema, surpreende professores

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Imagem: Getty Images

Carolina Cunha

Colaboração para o UOL

03/11/2019 14h02Atualizada em 03/11/2019 17h48

Resumo da notícia

  • Prova de redação do Enem 2019 acontece hoje (3)
  • Professores apostavam que o tema poderia ser democratização do acesso à cultura e não especificamente ao cinema
  • Tema abre espaço para discussão sobre a Lei Rouanet

A primeira prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019 sob o governo de Jair Bolsonaro (PSL) surpreendeu os professores ouvidos pelo UOL. Os estudantes que participaram do exame deste domingo (3) tiverem que argumentar sobre a "Democratização do acesso ao cinema no Brasil".

A prova começou às 13h30. O UOL irá fazer a correção online do exame e o gabarito extraoficial em parceria com o Objetivo.

O tema de 2019, segundo os professores, foi mais específico do que nos anos anteriores. "Surpreendeu. Nós apostávamos que o tema até poderia falar de democratização do acesso à cultura e não especificamente sobre o cinema", afirma Maria Aparecida Custódio, professora do laboratório de redação do Objetivo.

Para Maria Aparecida, esse é um tema acessível e que qualquer candidato poderia fazer uma relação direta com o seu dia a dia na hora de escrever.

Segundo a coordenadora de Redação do Poliedro, Maria Catarina Bozio, a prova atual ano se diferencia da linha de 2018. "Ela traz de volta um tema que pede um recorte sobre o Brasil. Isso tinha desaparecido da prova de 2018, mas era uma tendência de 2014 pra cá. Isso pode trazer uma tranquilidade ao aluno, na hora de pensar uma proposta de intervenção que seja próxima da realidade deles".

O tema também surpreende porque cultura não é um assunto caro ao governo atual, que havia prometido interferir na prova elaborada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep).

Além disso, nos últimos meses, o presidente criticou o cinema brasileiro e entrou em guerra com o principal órgão de fomento às produções audiovisuais. Bolsonaro cortou quase metade do orçamento da Agência nacional de Cinema, a Ancine.

A cultura como eixo temático da redação havia aparecido em 2011, quando os candidatos tiveram que dissertar sobre "Cultura e mudança social".

Como o aluno pode argumentar?

Para o professor do Curso Anglo, Sérgio Paganim, o estudante deve argumentar a favor da democratização do acesso. "O acesso ao cinema no Brasil pode ser uma questão mais concreta. Como a população brasileira pode ter acesso a produções cinematográficas em geral? As salas de cinema no Brasil possuem uma distribuição irregular, especialmente quando a gente sai dos grandes centros urbanos", afirma Paganim.

De acordo com Rafael Cunha, professor de redação e linguagens do Descomplica, a coletânea de textos motivadores para os estudantes usarem na argumentação direciona o entendimento do tema, mas não é uma grande fonte de argumentos e referência. "A não ser pelo último texto, que dava alguns insumos e referências que poderiam ser aproveitadas como fonte de argumentos", afirma.

A professora Maria Aparecida, do Objetivo, lembra que uma proposta de intervenção eficaz deve sugerir ações concretas para promover o acesso às produções de cinema. Ela sugere que o candidato poderia refletir sobre o valor do ingresso de cinema ou o número de salas de cinema em cidades. "O candidato também poderia abordar as produções audiovisuais não apenas pelo viés do cinema, mas por outras plataformas como o Netflix, o Youtube e eventos culturais, como mostras", diz.

Para Simone Motta, coordenadora de Português do Grupo Etapa, a escolha do tema foi acertada "É um tema de ordem social, atual, abre diversas possibilidades para inserção da proposta de intervenção e tem características nacionais. É um bom tema, o estudante certamente consegue se organizar", afirma.

Lei Rouanet vale?

Assim que foi divulgado o tema pelo Inep, as redes sociais reagiram rapidamente e internautas questionaram se a redação deu margem para criticar ou defender a Lei Rouanet, um mecanismo criado para estimular o apoio da iniciativa privada ao setor cultural.

O diretor do Colégio Oficina do Estudante, Antunes Rafael dos Santos, avalia que o candidato poderia abordar a Lei Rouanet, caso ele fosse problematizar questões de políticas públicas e leis de incentivo para a promoção do acesso ao cinema. "Sim, o tema desse ano abre espaço para discussão da Lei Rouanet. Quando a gente pensa em acesso ao cinema, também estou falando de produções nacionais. A Lei pode ser um dos argumentos abordados pelo candidato" avalia o professor.

Alas do governo Bolsonaro já criticaram a Lei Rouanet como um mecanismo de incentivo e financiamento público. O governo também barrou repasses de fundos para produções que já haviam sido aprovadas e o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) teve verbas bloqueadas. Críticos do governo também avaliam que a Ancine vem sendo desmontada pelo governo.

O professor acredita que essa questão é polêmica, mas reflete um tema importante para a sociedade. "A proposta de redação trazer um tema que pode sugerir o contrário a isso é curiosa. Existe uma brecha e possibilidade de que os candidatos possam articular favoravelmente ao que contraria, de certa forma, as crenças do atual governo".

Segundo o professor, o aluno deve usar argumentos sólidos, sem se esquecer dos objetivos principais da redação. "Os argumentos principais que eu acredito que o candidato deve colocar são sem dúvida nenhuma o quanto se dá o acesso à cultura nesse sentido. Como isso faz com que a população cresça intelectualmente ou como isso faz a população refletir sobre a sua atual realidade, já que a cultura amplia o acesso ao conhecimento", avalia.

A professora do Curso Poliedro, Maria Catarina Bozio, também afirma que o uso de temas da atualidade devem ser inseridos como argumentação no contexto da intervenção proposta. "A gente pode considerar polêmicas que aconteceram ao longo de 2019, como a Ancine e todo o questionamento em torno da Lei Rouanet. O candidato pode ou não aproveitar esse link com a atualidade, mas sempre deve pensar se a democratização do acesso acontece ou não".

Controle de dados foi tema do ano passado

No ano passado, o tema da redação foi "Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet".

Em 2018, mulheres foram maioria entre os 55 participantes que receberam nota mil na prova de redação.

Enquanto homens foram autores de 13 textos que conquistaram a nota máxima, as mulheres escreveram 42 redações nota mil —o que representa 76% dos casos.

Questões da prova já foram alvo de polêmicas. No ano passado, já eleito, Jair Bolsonaro criticou uma pergunta que tratava do "dialeto secreto" utilizado por gays e travestis e disse que sua gestão no Ministério da Educação "não tratará de assuntos dessa forma".

A questão à qual Bolsonaro se refere está no caderno de linguagens. Nela, o teste mostrou um texto sobre "pajubá, o dialeto secreto dos gays e travestis" e questionava o candidato quanto aos motivos que faziam a linguagem se caracterizar como "elemento de patrimônio linguístico".

"Uma questão de prova que entra na dialética, na linguagem secreta de travesti, não tem nada a ver, não mede conhecimento nenhum. A não ser obrigar para que no futuro a garotada se interesse mais por esse assunto. Temos que fazer com que o Enem cobre conhecimentos úteis", disse.

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