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Por que cai o interesse nos cursos de ciências sociais e filosofia?

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Imagem: divulgação

Carolina Cunha

Especial para o UOL

17/12/2019 04h00

Resumo da notícia

  • De 2014 a 2019, procura pelos cursos de ciências sociais e filosofia caiu 47% e 20%, respectivamente, segundo Ranking Universitário da Folha (RUF).
  • Cenário pode ser explicado por uma mudança no perfil dos universitários e pela disseminação na sociedade de uma imagem negativa sobre as carreiras
  • Reforma do ensino médio, que tirou a obrigatoriedade do estudo dessas áreas, também pode ser responsável pela queda de interessados em ser professores

Há cada vez menos vestibulandos com interesse em cursar ciências sociais e filosofia no Brasil. É o que revela o último Ranking Universitário da Folha (RUF). O total de ingressantes nesses dois cursos cai desde o ranking de 2014. A queda percentual no número de ingressantes da edição do RUF de 2014 para a de 2019 foi de 47% em ciências sociais (de 9.826 para 5.169 alunos) e 20% em filosofia (de 6.469 para 5.174 estudantes).

O ranking de cursos avalia, anualmente, 40 graduações de universidades, centros universitários e faculdades com maior número de ingressantes no país de acordo com o último Censo da Educação Superior disponível.

A pesquisa não revela os motivos da queda no ingresso de estudantes nas duas áreas, mas para especialistas, algumas hipóteses podem ser traçadas. O cenário pode ser explicado por uma mudança no perfil dos universitários, pela disseminação na sociedade de uma imagem negativa sobre as carreiras e pela reforma do ensino médio, que tirou a obrigatoriedade do estudo dessas áreas por todos os alunos.

A carreira de professor é a que mais absorve os profissionais formados em ciências sociais e filosofia. Em 2008, as disciplinas de sociologia e filosofia tornaram-se obrigatórias no ensino médio. Antes disso, o ensino era opcional. A medida colaborou para aumentar o número de vagas nas escolas para profissionais de filosofia e sociologia.

Reforma no ensino médio

Em 2017, o presidente Michel Temer sancionou a reforma do ensino médio, que flexibilizou o currículo. As disciplinas de filosofia e sociologia deixaram de ser obrigatórias, o que faz com que a carga horária seja reduzida.

O professor Emerson Galvani, vice-presidente da Comissão de Graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, acredita que ainda é cedo para avaliar os efeitos da reforma nas escolas. "Os currículos das redes de ensino ainda estão se ajustando a esse novo documento. As mudanças serão sentidas em uma escala maior de tempo". A queda da demanda nos dois cursos ainda não é observada na USP.

Apesar de não ter resultados visíveis nas escolas, o impacto da reforma já é percebido em quem pretende seguir a carreira de professor. "As disciplinas continuarão a existir, mas elas vão sofrer um rearranjo dentro de uma carga horária bem menor. O professor terá que dar aulas para muitas turmas para compensar o número de horas. Isso já afasta o interesse dos jovens pela docência", analisa José Alves, coordenador da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest) da Unicamp.

Renato Janine Ribeiro, professor de filosofia e ética da USP, avalia que a crise econômica também pode ter uma influência nesse cenário. A licenciatura costuma atrair estudantes que vem de famílias com menos recursos. Com a crise, os novos estudantes podem preferir um diploma que permita uma inserção mais fácil no mercado de trabalho. "A situação de formação de professor é complicada para quem teme o desemprego. Os jovens podem estar mais preocupados sobre como ganhar a vida no futuro", acredita.

Áreas atacadas por Bolsonaro

Os cursos de filosofia e sociologia já foram acusados por alas do atual governo de fazer "doutrinação ideológica", de serem de esquerda e subversivos. Para o professor José Alves, os ataques às ciências humanas trazem uma imagem negativa e podem influenciar na escolha profissional.

"Eu considero que os professores ou jovens que optam pela carreira docente conhecem bem a realidade do ponto de vista de mercado e salários. Mas o momento atual traz uma perda de credibilidade e desprestígio em relação à função que professores exercem. Isso também contribui para que jovens, às vezes, não tendo tanta clareza, se perguntem se vale a pena enfrentar tantos obstáculos a respeito de uma profissão", afirma José Alves.

O educador relata que o interesse pela licenciatura está em queda na Unicamp, em todas as profissões, incluindo nas carreiras de exatas. "Isso reflete um possível futuro apagão na formação de professores. No caso específico de filosofia e sociologia, desde as últimas eleições existe um ataque muito grande à imagem da profissão de docente. Aí quando você pensa na cabeça do jovem, ao optar pela carreira, ele tenta também uma empregabilidade possível".

Em abril de 2019, Abraham Weintraub, o ministro da Educação, disse que reduziria o investimento público em faculdades de filosofia e sociologia, colocando essa verba em cursos que "geram retorno de fato". O ministro citou como exemplos os cursos de veterinária, engenharia e medicina. O presidente Jair Bolsonaro apoiou Weintraub e afirmou no twitter que "estuda descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia (humanas) ".

Para Renato Janine Ribeiro, o atual governo não valoriza as ciências humanas. "No governo Bolsonaro existe uma campanha para convencer os jovens de que não existe espaço para a sociologia e filosofia. A sociedade parece ter um descaso muito grande com essas áreas e isso é muito preocupante. As pessoas passam a acreditar que essas são profissões subversivas e improdutivas para o país, que elas não produzem riqueza", acredita.

O professor lembra que essas profissões vão além da carreira de professor e são fundamentais para pesquisas em políticas públicas, que orientam para um projeto de desenvolvimento nacional. "É preciso entender as demandas e fenômenos da sociedade em temas variados como violência e saúde, por exemplo. Filosofia e Sociologia podem não aumentar o PIB de forma direta, mas podem aprimorar processos a partir de uma visão sistêmica".

José Alves tem opinião semelhante. "Há um discurso moralista e preconceituoso em relação a um campo de conhecimento. Se eu falo de dados da sociedade, quem vai interpretar esses dados além das estatísticas? As análises sociais são fundamentais para que prefeituras e Estados possam debater políticas públicas e programas sociais que possam reverter nossos problemas".

O educador lembra que em países desenvolvidos, como Estados Unidos e a França, as disciplinas fazem parte do currículo de diversos cursos superiores, inclusive de Exatas e Tecnológicas. "Os seres humanos nasceram para pensar. E essas disciplinas estimulam o livre pensamento e uma reflexão autônoma. O conhecimento técnico também precisa de uma visão crítica. A questão fundamental da sociologia e da filosofia é entender um fenômeno social", avalia.

O atual corte de verbas em pesquisas para a área de Humanas, também impacta estudantes que vislumbram a pós-graduação e o campo da pesquisa científica. Segundo o professor Emerson Galvani, os efeitos negativos dessa política educacional já se manifestam na sociedade brasileira com os cortes orçamentários nas agências de fomento CAPES e CNPq. "A sociedade e a comunidade científica precisam ficar atentas a esses novos caminhos, para não perdermos os ganhos das últimas décadas e olhar para um futuro melhor".

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