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Bióloga: 'Mentir no currículo é querer usurpar credibilidade da ciência'

Do UOL, em São Paulo

30/06/2020 00h01

Doutora em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP), Natalia Pasternak citou o caso envolvendo o ministro da Educação, Carlos Decotelli, e disse que mentir no currículo é querer usurpar a credibilidade da ciência.

Decotelli é alvo de uma série de acusações que envolvem indícios de plágio e fraude em sua vida acadêmica. O ministro negou as acusações agora à noite.

"É muito curioso que um governo que desrespeita tão explicitamente a ciência, as titulações acadêmicas, as universidades que só fazem balbúrdia, ao mesmo tempo queira a credibilidade que a ciência traz, a credibilidade que esses títulos acadêmicos trazem", disse ela, em entrevista ao programa "Roda Viva", da TV Cultura.

"Ninguém disse que o ministro da Educação precisa ser doutor. Mas por que mentir no currículo, então? Porque querem a credibilidade da ciência, porque a ciência traz credibilidade Essa credibilidade tem sido usurpada por movimentos anticiência, pela pseudociência. A mesma coisa a gente vê com esses casos muito tristes de pessoas que mentem em seu currículo porque querem a credibilidade de títulos que não conquistaram, porque a ciência traz credibilidade", acrescentou.

Ministro nega acusações

O ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, negou hoje as acusações de plágio sobre sua dissertação de mestrado, explicou por que se apresentou como doutor — ainda que não tenha adquirido o título na Universidade de Rosário, na Argentina, como alegou — e confirmou que segue à frente do MEC, mesmo depois dos questionamentos sobre seu currículo.

As declarações foram feitas após reunião com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Mais cedo, o Palácio do Planalto anunciou que a posse de Decotelli, inicialmente marcada para amanhã, às 16h, foi adiada e ainda não tem data para acontecer.

O ministro argumentou que, por ter "desenhado" o Banrisul e ter feito seu mestrado com base em sua vivência no banco, é possível que tenha havido uma "distração" no desenvolvimento da dissertação, mas não um plágio propriamente dito. Ele lembrou que, na época, não havia tantos mecanismos quanto hoje para verificar esse tipo de problema.

"Quando você escreve, tem que ter disciplina mental para escrever, revisar e mencionar o que citar. Cuidado. É possível haver distração? Sim, senhora. Hoje, a senhora tem mecanismos para verificar, [tem] softwares. Mas naquela época, pela distração... Não houve plágio, porque o plágio é quando faz 'Control + C, Control + V', e não foi isso", justificou ele em entrevista a jornalistas.

Quanto ao doutorado, Decotelli disse ter cursado todos os créditos do curso na Universidade de Rosário e até recebido um certificado de conclusão. Sua tese, porém, foi reprovada, e a banca que a analisou lhe pediu que fizesse "readequações" no trabalho. Só que o ministro precisou voltar ao Brasil por conta de "dificuldades financeiras" — e nunca mais voltou para apresentar a tese corrigida.

"A banca falou que a tese tinha um ponto de corte muito longo e me mandou fazer readequações. Essa foi a recomendação formal da banca. [Mas] Eu precisava voltar ao Brasil, porque toda a despesa foi pessoal, não havia bolsa. Com dificuldade, não mais voltei. [Mas] Eu fiquei com o diploma de créditos concluídos, posso disponibilizar a vocês", disse Decotelli.

Ele se referiu à ausência do título de doutor como um "detalhe operacional", uma vez que, pelas leis argentinas, não foi feita a defesa a uma banca, como de costume. "[Mas] O curso de pós-graduação, com todas as notas, disciplinas concluídas, aprovadas, frequência, caderneta, toda a estrutura da secretaria da Universidade de Rosário, estão nos papéis disponíveis", reforçou.

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