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Famílias com idosos em casa temem levar crianças à escola devido à covid

Helena Francisco, 63, e o filho Renan, 25, moram com 5 crianças alunas da rede municipal - Arquivo pessoal
Helena Francisco, 63, e o filho Renan, 25, moram com 5 crianças alunas da rede municipal Imagem: Arquivo pessoal

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

21/08/2020 04h00

Famílias com crianças matriculadas na rede municipal temem que uma eventual ida dos alunos para a escola acabe transportando o coronavírus para dentro de casa, afetando principalmente os idosos que vivem com elas —pessoas com mais de 60 anos fazem parte do grupo de risco para a covid-19, doença causada pelo vírus.

Funcionária de uma confecção de roupas, Helena Macedo Leite Francisco, 63, mora em um bairro da zona norte com três filhos adultos e cinco netos que têm de 4 a 8 anos. Dois deles são alunos da rede municipal. Na casa de três cômodos, a família tem passado os últimos meses em isolamento. Ela conta que os dias têm sido "difíceis", mas diz não ter dúvidas sobre a decisão de não mandar as crianças para a escola caso as aulas voltem ainda este ano.

"Se as crianças pudessem ir para a escola e vir para casa, seria um risco muito grande para mim", diz ela, que está afastada da empresa onde trabalha há pelo menos cinco meses justamente por fazer parte do grupo de risco para a covid. Única trabalhadora registrada da família, ela continua recebendo o salário e esporadicamente realiza serviços de casa.

Dados de um inquérito sorológico realizado com alunos da rede municipal de São Paulo, divulgados na terça-feira (18), mostraram que 64,4% dos estudantes que foram testados e tiveram a covid-19 foram assintomáticos. Os resultados foram utilizados pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) como argumento para o anúncio de que as escolas públicas e particulares da capital não abrirão parcialmente em setembro, como autorizado pelo governo do estado.

"[São] Duas a cada três crianças contaminadas com o vírus, sem inclusive não apresentar nenhum sintoma. A escola coloca o medidor de temperatura na porta, não vai apresentar que está febril. Mas ela está contaminada —e, às vezes, com a mesma carga viral de um adulto", disse o prefeito.

Os dados do inquérito sorológico mostraram ainda que 25,9% dos alunos moram com pessoas maiores de 60 anos, um dos grupos de risco para a covid-19.

Controle nas escolas

"Querendo ou não, a criança vai ser um meio muito mais fácil para algum idoso ou algum parente dentro de casa que tem algum problema respiratório pegar [a doença] e acontecer algum falecimento", avalia Renan Leite de Carvalho, 25, um dos filhos de Helena e tio das crianças.

Ex-aluno de escolas da rede municipal, ele diz acreditar que os colégios não terão condições para receber os estudantes em meio à pandemia.

"A gente que estudou em escola pública conhece como é", afirma. "Não tem condições, porque sabemos que os professores não vão conseguir ter um controle para fazer com que a criança mantenha a higienização, com álcool em gel, com a máscara".

A artista plástica Andreia de Castro André Almeida, 40 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Andreia diz ter receio que a filha, caso vá à escola, traga o coronavírus para casa e infecte a avó
Imagem: Arquivo pessoal

Mãe de uma aluna da rede municipal e membro do conselho da escola, a artista plástica Andreia de Castro André Almeida, 40, concorda. "Não tem condição estrutural nenhuma para receber esses alunos. E nem de mão de obra, funcionários para isso, porque tem um quadro bem reduzido de funcionários que poderiam retornar para a unidade", diz.

Reformas nas escolas

Em nota, a Secretaria Municipal de Educação informou que 1.556 escolas municipais foram contempladas com um repasse de R$ 73,6 milhões do PRTF (Programa de Transferência de Recursos Financeiros). "Os recursos são utilizados para promover reformas nas unidades e prepará-las para a volta às aulas presenciais, no contexto de enfrentamento da pandemia", diz o texto enviado ao UOL.

A secretaria disse ainda que EMEF Cleomenes Campos, onde estuda a filha de Andreia, recebeu uma reforma no valor de R$ 1,78 milhão, finalizada em abril, e que a unidade está preparada para receber professores e alunos.

Já a EMEI Dra. Gina de Martinho, onde estudam as crianças que vivem com Helena, necessitava de "intervenções mais simples", de acordo com a pasta, e recebeu R$ 15 mil para a realização de pequenas adequações. A secretaria afirma que a unidade estará "totalmente preparada" para receber os alunos quando houver o retorno das aulas.

"Vale lembrar que o município estuda formas seguras para o retorno das aulas presenciais de 1,1 milhão de alunos. A SME trabalha em conjunto com a área da Saúde para o anúncio de medidas e uma volta segura para estudantes, professores e consequentemente também as famílias. Somente com aval das autoridades de saúde será permitido o retorno das aulas presenciais", diz a nota.

Preocupação com alunos e funcionários

Na residência de Andreia, também mora a sua avó de 89 anos. Ela diz que não levaria a filha para a escola principalmente por ter receio de que a filha leve o vírus para casa, mas também por ter preocupação com a saúde dos outros alunos e dos professores.

"Não é o momento de retornar essas crianças para a escola, até por conta da saúde delas, dos funcionários e dos outros envolvidos. No meu caso, por exemplo, a minha avó e a gente aqui de casa. Já estamos tomando todos os cuidados e não acho que é prudente retornar", afirma.

Ansiedade

Em casa, Helena diz que tem notado os netos muito ansiosos e entediados. Sem internet e computador, as crianças fazem as atividades escolares com a ajuda do celular.

"Tem que dividir o celular, dar um pouquinho para cada uma", explica Renan. Com todos em casa, as contas de luz, água e gastos com alimentação para toda a família têm subido.

"Espero que a partir do ano que vem tudo volte ao normal. Tanto para as crianças como para nós, adultos", afirma Helena, que diz não ver a hora de levantar cedo para trabalhar e "voltar só à noite". "Vejo a minha situação, em casa pequena com tanta gente e as contas cada vez mais altas. A conta é terrível, a conta não está nem aí", afirma.

Apesar das dificuldades de espaço físico e financeiras, ela conta que ninguém da casa teve sintomas da covid-19. "Graças a Deus, eu estou bem. Mas tenho muito medo", diz.