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Com menos turmas para adultos, SP passa de ano alunos que não sabem ler bem

A dona de casa Nelsa Barbosa, que voltou a estudar na EJA, mas com dificuldades; caderno bonito é de autoria do filho - Arquivo pessoal
A dona de casa Nelsa Barbosa, que voltou a estudar na EJA, mas com dificuldades; caderno bonito é de autoria do filho Imagem: Arquivo pessoal

Ana Paula Bimbati

Do UOL, em São Paulo

01/08/2021 04h00Atualizada em 01/08/2021 21h22

A dona de casa Nelsa Barbosa, 68, se emociona cada vez que ouve alguém lendo um livro. Foi por essa vontade de ter as mesmas sensações de um leitor que decidiu voltar a estudar depois de décadas longe da escola.

No ano passado, cursava o 5º ano, mas diz ter sido aprovada automaticamente para o 6º, sem ter aprendido o que era necessário.

Passei de ano sem saber ler e escrever direito. Como podem fazer isso? Agora tenho oito professores e fica difícil acompanhar tudo.
Nelsa Barbosa, dona de casa

Nelsa mostra, orgulhosa, um caderno impecável. Mas é porque seu filho a ajuda escrevendo os trabalhos feitos em casa.

Segundo professores da rede, a aprovação automática na EJA (Educação para Jovens e Adultos) aconteceu devido a um processo de fechamento de salas.

De 2013 até este ano, o número de turmas da EJA na rede municipal tem caído. Em 2021, são 1.445 salas espalhadas por escolas da capital paulista, contra 2.351 em 2013, segundo dados da SME (Secretaria Municipal de Educação), uma redução de 38,5%.

Procurada pelo UOL, a prefeitura nega o fechamento das salas e afirma que "as unidades atendem conforme demanda recebida".

Turmas da EJA na rede municipal	 - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Novas salas só com ao menos 25 alunos

Professor há mais de 40 anos, João Antônio Donizette, da Escola Municipal Desembargador Teodomiro Toledo Pizza, na zona sul, disse que a EJA é historicamente colocada à margem das políticas educacionais. "Essas pessoas ficaram mais de 150 dias sem vir para escola. Como vão acompanhar o 6º ano?", questiona.

No ano passado, segundo ele, a escola tinha sete turmas da EJA, duas do ciclo de alfabetização e outras cinco do ensino fundamental 2. Agora, com a aprovação automática, a unidade só oferece aulas para os anos finais nessa modalidade.

Com medo de perder a vaga, a dona de casa conta com a ajuda dos professores. Diz que eles têm sido "pacientes" com suas dificuldades. "Não sabia nem pegar no lápis direito quando comecei a estudar, é um sonho meu concluir a escola", afirma.

Na Escola Municipal Coelho Neto, na zona leste, restaram também apenas as turmas do ensino fundamental 2 para alunos da EJA.

EMEF  - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Escola Desembargador Teodomiro Toledo Piza, no Grajaú, na zona sul da capital, sofreu com fechamento de salas da EJA em 2021
Imagem: Reprodução/Facebook
Um professor da unidade, que aceitou falar com a reportagem na condição de anonimato, disse que a prefeitura emite um "diploma da desigualdade" ao aprovar todos os alunos sem consultá-los, sabendo que estão tentando concluir os estudos pela segunda ou, às vezes, terceira vez.

Um professor disse ao UOL que há dez anos a Escola Municipal Manoel Vieira de Queiroz Filho, na zona sul, tinha 21 salas. Neste primeiro semestre, a unidade contava com sete salas da EJA. Para o segundo semestre, a previsão é de manter apenas cinco.

O essencial seria ter mais unidades escolares da EJA. O poder público deveria aumentar a capilaridade do sistema educacional, porque questões como transporte, segurança, identidade com o território [onde está inserido] são importantes para incentivar o adulto a retomar os estudos.
Maria Clara Di Pierro, professora da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo)

Para abrir uma turma da EJA, segundo os professores, as escolas precisam conseguir ter no mínimo 25 alunos em uma sala. "Isso significa que, se tenho 10 ou 15 alunos, faço o quê? Não dou acesso à educação para eles? A EJA serve para quebrar o preconceito e barreira, mas com essa regra só dificulta", diz Donizette.

Os professores reclamam da falta de apoio da prefeitura e dizem que é a pressão e o trabalho dos funcionários que faz com que as turmas não acabem. Para conseguir novos alunos, falam sobre a disponibilidade de vagas na EJA e a importância dos estudos.

À espera de uma turma

No começo do ano passado, a babá Maria da Conceição dos Santos, 59, decidiu que iria voltar a estudar. Ela parou os estudos na antiga 4ª série, atual 3º ano do ensino fundamental, em Sergipe.

"A gente é muito leiga em muitas coisas, né? Então queria aprender os conteúdos, saber me expressar melhor em vários assuntos", conta.

O primeiro obstáculo, porém, foi o início da pandemia. Depois, houve o fechamento das turmas do fundamental 1 na Escola Desembargador Teodomiro Toledo Pizza, no Grajaú, zona sul.

O jeito, segundo Maria da Conceição, é esperar a abertura de novas salas. Tentar vaga em uma outra escola é inviável pela distância de sua casa e a dificuldade de se locomover depois do trabalho.

Professores dizem que há anos o número de inscritos vem caindo na modalidade. Dados da secretaria apontam que 2021 teve o pior número de matrículas nos últimos 15 anos.

Matrículas EJA na rede municipal de São Paulo	 	 - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Para a professora da USP, a falta da construção de uma cultura de direito à educação prejudica um maior apoio à EJA. "A construção histórica e equivocada que temos diz que a idade adequada para estudar é a infância e a adolescência. Já a fase adulta serve para aplicar os conhecimentos no mercado de trabalho, mas isso não é verdade", diz Di Pierro.

A especialista em EJA afirma ainda que faltou "diálogo, consulta e sensibilidade" por parte da prefeitura para construir relações flexíveis com estudantes.

O que diz a prefeitura

Em nota, a Secretaria de Educação disse que, com a obrigatoriedade de estudos aos quatro anos de idade, "espera-se a diminuição de matrículas e turmas de adultos para a modalidade", justificando a queda nos números de matrícula e salas da EJA.

Os números, porém, mostram que a evasão escolar cresce ano após ano. Especialistas já falam em uma alta no abandono escolar por causa da pandemia.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2019, por exemplo, afirmam que estudantes não têm se formado dentro da idade escolar esperada: de 50 milhões de pessoas entre 14 e 29 anos, 10 milhões não tinham concluído os estudos.

O UOL questionou a gestão de Ricardo Nunes (MDB) também sobre políticas de acesso e permanência dos alunos da EJA, além da regra de abrir uma sala com o mínimo de 25 estudantes. A secretaria, no entanto, se restringiu a dizer que as salas são abertas sob demanda e, "caso haja necessidade, há a possibilidade de abertura de novas salas para atendimento". Não comentou a aprovação automática.

"Do contrário, o novo estudante cadastrado poderá ser matriculado na unidade disponível mais próxima de seu endereço", disse a pasta. A secretaria afirmou ainda que os alunos matriculados nas escolas citadas pela reportagem estão recebendo atendimento.