Como universidade virou centro de batalha entre bilionário e governo

Sean Coughlan

Repórter de Educação da BBC

  • Marios Lolos - 9.jul.2015 /Xinhua

    Grupo de manifestantes levam bandeira da União Europeia para frente do edifício do parlamento em Atenas

    Grupo de manifestantes levam bandeira da União Europeia para frente do edifício do parlamento em Atenas

Michael Ignatieff não é o tipo de pessoa que você esperaria encontrar no centro de uma disputa de poder global envolvendo nomes de peso como Donald Trump e Vladimir Putin.

Ele era o esguio e intelectual apresentador de programas de arte do horário nobre da TV britânica nos anos 1990. Tinha o jeito de um músico de jazz experimental.

O autor e acadêmico canadense entrou na política em seu país de origem, e foi líder do principal partido de oposição, o Liberal, entre 2008 e 2011. No ano passado, assumiu o cargo de presidente da Universidade da Europa Central (CEU), na Hungria.

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O que era para ser um último emprego para Ignatieff, hoje com 69 anos, virou uma tempestade política: a instituição de ensino baseada em Budapeste tornou-se campo de batalha entre o liberalismo internacional e o populismo nacionalista.

Tudo isso em meio à aprovação, pelo governo da Hungria, de uma lei que pode fechar a universidade e torna incerto o futuro de 600 funcionários e de alunos de cem países.

Precedente perigoso?

Ignatieff diz que um fechamento seria o primeiro de uma universidade europeia desde a Segunda Guerra Mundial.

"Por isso é que algo tão chocante. Isso cruzaria uma linha perigosa. Não há qualquer razão para sairmos de Budapeste, é um ultraje", disse o canadense em Londres.

"Somos uma instituição livre, e isso é uma tentativa de controle", afirma.
A justificativa das autoridades do país da Europa Oriental é que a universidade não atingiu novos critérios de qualidade educacional. A disputa, contudo, tem raízes mais profundas, a começar pelo fato de que a CEU é bancada pelo megainvestidor George Soros.
O bilionário, que nasceu em Budapeste e sobreviveu ao Holocausto, é um defensor de causas liberais.]

Segundo Ignatieff, o atual primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, tem uma longa rixa pessoal com Soros - Orbán disse recentemente no Parlamento Europeu, por exemplo, que Soros é um "agressor" da Hungria.
O megainvestidor fez inimigos em outros lugares. Ele chamou o presidente dos EUA, Donald Trump, de "vigarista e aspirante a ditador", e é um duro crítico do mandatário russo, Vladimir Putin.
No última semana, manifestantes em Budapeste usaram o slogan "Europa, não Moscou", para protestar contra a suposta preferência do governo húngaro pelas relações com a Rússia, em detrimento do Ocidente.

A história da rivalidade entre Orbán e Soros tem contornos ainda mais interessantes: nos anos 1980, o atual líder do país recebeu uma bolsa de Soros para estudar na renomada universidade britânica de Oxford.
Orbán fez estudos sobre a sociedade civil em transições democráticas (a Hungria esteve sob controle comunista até 1989), mas hoje é um premiê enfrentando protestos nas ruas. Há quem o veja no mesmo time de Trump e Putin em um embate contra o liberalismo.
Na campanha presidencial francesa, por exemplo, o candidato centrista, Emmanuel Macron, acusa sua oponente da extrema direita, Marine Le Pen, de integrar aliança com Orbán e Putin.

'Alegações falsas'

A CEU é registrada tanto nos EUA e na Hungria como instituição de ensino, e diz ter como missão promover valores democráticos após o fim do controle soviético no país europeu.

Ignatieff esteve em Londres para um evento da University of East London, que junto com a CEU desenvolve projetos de ajuda a refugiados - iniciativas que não encontram grande acolhida em uma Hungria hoje mais hostil em relação à imigração.

O presidente da universidade disse acreditar que a eleição de Trump tenha sido vista pelo governo húngaro como uma chance de atacar a instituição.
"O senhor Orbán deve ter pensado que a administração de Trump não se importaria se ele fosse contra uma instituição associada com o liberalismo.

Mas desde o início as coisas foram bem diferentes", explicou, referindo-se ao pronunciamento do Departamento de Estado dos EUA expressando a oposição de Washington à nova legislação educacional húngara.

O assunto chegou à Comissão Europeia, que abriu uma investigação contra a Hungria, que é integrante da União Europeia. O vice-presidente da Comissão, Frans Timmermans, disse que as novas regras educacionais húngaras "foram vistas por muitos como uma tentativa de fechar a CEU".
E um grupo de pesquisadores europeus escreveu uma carta aberta para o premiê, classificando a posição do governo em relação à universidade como algo "contrário ao garantido por regimes democráticos".
Orbán, no entanto, escreveu de volta aos cientistas, dizendo que suas alegações "não correspondem à realidade" e que são parte de uma "campanha internacional de desinformação" contra o governo húngaro.

Desfecho

Segundo Ignatieff, a licença da universidade pode ser cancelada a partir de outubro, impedindo o recrutamento de novos estudantes.
"Não vamos fechar, mas talvez tenhamos que deixar o país".

Ele diz ter recebido ofertas de seis países para abrigar a instituição de ensino.

No entanto, a intenção é permanecer na capital húngara e tentar apaziguar os ânimos. Ignatieff enfatiza o fato de não haver disputa política com Orbán.
"Isso não é fascismo. Ele (Orbán) é um populista democrata que ganhou uma eleição legítima. Não estamos vivendo na Hungria comunista ou na Alemanha nazista."Ignatieff também diz que não se deve ver o dedo de Putin em tudo. "Damos a Putin poderes com os quais ele só pode sonhar. Fazemos dele alguém maior do que é", argumenta.

Mas o canadense diz se preocupar com o precedente que o eventual fechamento de uma universidade no coração da Europa possa abrir para o futuro da democracia.

"A democracia não é apenas o governo da maioria, liberdade de imprensa e um Judiciário livre. Também envolve instituições que têm o direito de governar a si próprias", diz.

"Universidades são irritantes e difíceis. Mas se você quer uma democracia, elas são extremamente importantes", completa.

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