Guerra do Paraguai: Tríplice Aliança entre Argentina, Brasil e Uruguai

Renato Cancian
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Durante o período monárquico, o Brasil se envolveu em três conflitos internacionais com países fronteiriços situados ao sul, na região Platina. A Guerra do Paraguai, porém, foi o mais longo e violento. Começou em 1864 e terminou em 1870, com a derrota do Paraguai para os países que formaram a chamada Tríplice Aliança: o Brasil, a Argentina e o Uruguai.

A principal causa da guerra está relacionada às tentativas do governo do ditador paraguaio, Francisco Solano López, de colocar em prática uma política expansionista, com o objetivo de ampliar o território do seu país, apossando-se de terras dos países vizinhos, e ter acesso ao mar pelo porto de Montevideu.

Solano López pretendia formar o Grande Paraguai, a partir da invasão e anexação do Uruguai, de partes do território argentino e das províncias brasileiras do Rio Grande do Sul e Mato Grosso. Não obstante, uma vez iniciado o conflito armado, os países que formaram a Tríplice Aliança procuraram defender seus respectivos interesses e se impor como potências regionais.

O Grande Paraguai

Estudos historiográficos contemporâneos têm contribuído para melhor compreensão do conflito armado, de modo a refutar algumas hipóteses e teses acadêmicas e desmistificar as versões oficiais construídas pelos Estados soberanos envolvidos. Na verdade, todos os Estados envolvidos tinham informações parciais e até mesmo falsas sobre a capacidade e força militar do inimigo e avaliaram equivocadamente que o conflito armado seria um método rápido e, de certo modo, pouco custoso para solução do litígio regional.

O Paraguai, país que saiu derrotado do conflito, não tinha condições sociais, econômicas e militares para sustentar uma guerra de longa duração contra os países platinos. Portanto, podemos afirmar que foi um erro estratégico da elite política paraguaia partir para a solução armada.

Dados referentes à situação social do Paraguai indicam que a sociedade paraguaia era mais tradicional e rural do que urbana e moderna, era arcaica e extremamente desigual, com altos índices de analfabetismo.

A população paraguaia era composta de cerca de 650 mil habitantes, no máximo (sendo que cerca de 25 mil eram escravos), a do Brasil era de cerca de 9.100.000 habitantes, a da Argentina, cerca de 1.737.000 habitantes, e a do Uruguai, perto de 250.000 habitantes.

A economia do Paraguai era extremamente fraca, o país importava a maioria dos produtos manufaturados de que necessitava. Comparando as estatísticas referentes ao comércio exterior dos países da Região Platina (um importante indicador do dinamismo da economia), o comércio exterior do Paraguai chegava a 560.392 libras esterlinas (moeda britânica) e os indicadores da arrecadação de impostos, cuja estrutura era considerada deficiente, apontam para a cifra de 314.420 libras esterlinas.

A título de comparação: no Brasil, a arrecadação de impostos atingia 4.392.226 libras esterlinas; na Argentina, cerca de 1.710.324 libras esterlinas; e no Uruguai, 870.714 libras esterlinas.

Em termos militares, o Paraguai não possuía grande efetivo militar, nem mesmo organização militar moderna. Os soldados eram mal preparados, os armamentos eram arcaicos. A estrutura logística do exército era extremamente deficiente, pois carecia de atendimento hospitalar e adequado fornecimento de provisões, alimentos e munições.

O estopim do conflito

Desde sua independência, os governantes paraguaios afastaram o país dos conflitos armados na região Platina. A política isolacionista paraguaia, porém, chegou ao fim com o governo do ditador Francisco Solano López.

Em 1864, o Brasil estava envolvido num conflito armado com o Uruguai. Havia organizado tropas, invadido e deposto o governo uruguaio do ditador Aguirre, que era líder do Partido Blanco e aliado de Solano López. O ditador paraguaio se opôs à invasão brasileira do Uruguai, porque contrariava seus interesses.

Como retaliação, o governo paraguaio aprisionou no porto de Assunção o navio brasileiro Marquês de Olinda, e em seguida atacou Dourados, na então província de Mato Grosso. Foi o estopim da guerra. Em maio de 1865, o Paraguai também fez várias incursões armadas em território argentino, com objetivo de conquistar o Rio Grande do Sul. Contra as pretensões do governo paraguaio, o Brasil, a Argentina e o Uruguai reagiram, firmando o acordo militar chamado de Tríplice Aliança.

As batalhas da Guerra do Paraguai

A guerra do Paraguai durou seis anos, período durante o qual travaram-se várias batalhas. As forças militares brasileiras, chefiadas pelo almirante Barroso, venceram a batalha do Riachuelo, libertando o Rio Grande do Sul. Em maio de 1866, ocorreu a batalha de Tuiuti, que deixou um saldo de 10 mil mortos, com nova vitória das tropas brasileiras.

Em setembro, porém, os paraguaios derrotam as tropas brasileiras na batalha de Curupaiti. Desentendimentos entre os comandantes militares argentinos e brasileiros levaram o imperador dom Pedro 2° a nomear Luís Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias, para o comando geral das tropas brasileiras. Ainda assim, em 1867, a Argentina e o Uruguai se retiram da guerra. Ao lado de Caxias, outro militar brasileiro que se destacou na campanha do Paraguai foi o general Manuel Luís Osório.

Sob o comando supremo de Caxias, o exército brasileiro foi reorganizado, inclusive com a obtenção de armamentos e suprimentos, o que aumentou a eficiência das operações militares. Fortalecido e sob inteiro comando de Caxias, as tropas brasileiras venceram sucessivas batalhas, decisivas para a derrota do Paraguai. Destacam-se as de Humaitá, Itororó, Avaí, Angostura e Lomas Valentinas.

Vitória brasileira

No início de 1869, o exército brasileiro tomou Assunção, capital do Paraguai. A guerra chegou ao fim em março 1870, com a Campanha das Cordilheiras. Foi travada a batalha de Cerro Corá, ocasião em que o ditador Solano López foi perseguido e morto.

Vale lembrar que, a essa altura, Caxias considerava a continuidade da ofensiva brasileira uma carnificina e demitiu-se do comando do exército, que passou ao conde d'Eu, marido da princesa Isabel. A ele coube conduzir as últimas operações.

Consequências da guerra

Para o Paraguai, a derrota na guerra foi desastrosa. O conflito havia levado à morte cerca de 80% da população do país, na sua maioria homens. A indústria nascente foi arrasada e, com isso, o país voltou a dedicar-se quase que exclusivamente à produção agrícola.

A guerra também gerou um custoso endividamento do Paraguai com o Brasil. Essa dívida foi perdoada por Getúlio Vargas. Mas os encargos da guerra e as necessidades de recursos financeiros levaram o país à dependência de capitais estrangeiros.

A Guerra do Paraguai também afetou o Brasil. Economicamente, o conflito gerou muitos encargos e dívidas que só puderam ser sanados com empréstimos estrangeiros, o que fez aumentar nossa dependência em relação às grandes potências da época (principalmente a Inglaterra) e a dívida externa. Não obstante, o conflito armado provocou a modernização e o fortalecimento institucional do Exército brasileiro.

Com a maioria de seus oficiais comandantes provenientes da classe média urbana, e seus soldados recrutados entre a população pobre e os escravos, o exército brasileiro tornou-se uma força política importante, apoiando os movimentos republicanos e abolicionistas que levaram ao fim do regime monárquico no Brasil.

Observação - O estudo historiográfico mais recente e abalizado sobre a Guerra do Paraguai é "Maldita Guerra", de Francisco Doratioto (Companhia das Letras, São Paulo, 2002). A obra "O Genocídio Americano", de Júlio Chiavenatto, que marcou época nos estudos sobre a questão, atualmente é considerada ideológica e ultrapassada, em especial porque se fundamenta numa interpretação que não se comprova com os fatos. Por exemplo, Chiavenatto afirma que o Brasil agiu como defensor dos interesses imperialistas ingleses no continente. Na época do início da guerra, o Brasil estava com relações diplomáticas rompidas com a Inglaterra, em função da Questão Christie.

Renato Cancian é cientista social, mestre em sociologia-política e doutorando em ciências sociais, é autor do livro "Comissão Justiça e Paz de São Paulo: Gênese e Atuação Política -1972-1985" (Edufscar).



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