Dom Pedro 1º proclamou a Independência montado em um animal de carga, vestido como um tropeiro e com dor de barriga

Da Redação
Em São Paulo

  • Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional

    "O Grito do Ipiranga", de Pedro Américo eternizou a Independência do Brasil. Pois é: não aconteceu desse jeito

O quadro que você vê acima data do final do século 19, cerca de 66 anos após o 7 de setembro que mudaria a história e transformaria a colônia em nação independente. Eternizada como a imagem da Independência a tela de Pedro Américo foi uma encomenda do monarca Dom Pedro 2º "como forma celebrar os feitos da monarquia brasileira, a esta altura bastante ameaçada pelos ideais republicanos", conta o jornalista Laurentino Gomes, autor de 1822.

Confira a veracidade de alguns mitos que se propagaram sobre o 7 de setembro de 1822:

Dom Pedro 1º proclamou a Independência do Brasil como no quadro?

Não. "D. Pedro montava um animal de carga, provavelmente uma mula, estava vestido como um tropeiro e não em uniforme militar, e os dragões da Independência ainda não existiam. A guarda de honra era formada por fazendeiros, cavaleiros e pessoas comuns das cidades do Vale do Paraíba, por onde o príncipe passara alguns dias antes a caminho de São Paulo", descreve Laurentino. "Além disso, uma testemunha do Grito (o coronel Marcondes, futuro Barão de Pindamonhangaba) registrou em suas memórias que D. Pedro estava com dor de barriga devido a algum alimento estragado que havia comido no litoral paulista. A cena real é bucólica e prosaica, mais brasileira e menos épica do que a retratada no quadro de Pedro Américo." Os Dragões da Independência, a guarda fardada e imponente que aparece na tela não existia na época do grito original às margens do Ipiranga.

O quadro de Pedro Américo é original?

Além da glamourização do "Independência ou Morte!" -- brado de Dom Pedro às margens do rio Ipiranga, outra questão polêmica é "a suspeita de que o quadro de Pedro Américo seja um plágio de uma outra obra famosa, Napoleão em Friedland, de autoria do pintor francês Jean Louis Messonier e exposta atualmente no Metropolitan Museum de Nova York". Segundo Laurentino, "os dois quadros são quase idênticos, mas o de Messonier é mais antigo que o de Pedro Américo".

O Hino da Independência foi composto em 7 de setembro de 1882?

"D. Pedro era de fato um músico talentoso, capaz de fazer composição de qualidade bastante razoável para a época. Ainda assim, seria extraordinário que no intervalo de apenas cinco horas, entre o Grito do Ipiranga e as celebrações noturnas em São Paulo, tivesse composto e ensaiado um hino de estrutura bastante complexa como o da Independência. Isso jamais aconteceu", conta Laurentino.

Tocou-se alguma canção na mesma noite para comemorar a Independência?

Segundo o escritor, a música executada naquela noite foi o Hino Constitucional Português, de Marcos Antônio Portugal, amigo e professor do príncipe regente. A música do atual Hino da Independência foi composta por D. Pedro, mas numa data posterior. A letra é de um poema chamado “Brava Gente”, de autoria do jornalista Evaristo da Veiga."A história oficial se encarregou de propagar a versão de que a noite de 7 de setembro de 1822 em São Paulo teria sido épica, de celebrações, discursos e composições inspiradas", explica o jornalista.

Com o brado de Dom Pedro 1º "Independência ou Morte!", o Brasil deixou de ser colônia de Portugal? De fato, quanto tempo esse grito demorou a ser ouvido às margens plácidas não do Ipiranga, mas do rio Tejo, em Lisboa?

Naquela época, uma viagem de navio entre o Rio de Janeiro e Lisboa demorava cerca de dois meses, o que significa que as notícias a respeito do 7 de setembro de 1822 só chegaram a Portugal em novembro conta o autor de 1822. A reação, segundo ele, foi imediata. Os portugueses se mobilizaram para enviar mais tropas ao Brasil e tentar subjugar pela força os adeptos da Independência. A guerra só terminaria em novembro de 1823.

A Independência do Brasil foi um processo pacífico?

Pelos meus cálculos morreram cerca de 5 000 nos confrontos, o que desmente também um outro mito segundo o qual a Independência brasileira teria sido um processo pacífico, resultado de uma negociação entre pai e filho, ou seja, D. João VI e D. Pedro. Isso não é verdade. Muita gente pegou em armas e morreu defendeu a autonomia do Brasil, especialmente na Bahia e outros Estados do Nordeste.

É verdade que "pagamos" por nossa Independência?

De certa forma, sim. Portugal só reconheceu a Independência do Brasil em 1825, mediante uma indenização de dois milhões de libras. Com parte desse valor, a antiga metrópole cobriria alguns dos gastos para impedir que o Brasil se tornasse uma nação independente. "Depois de ganhar a guerra caberia aos brasileiros ressarcir os prejuízos dos adversários derrotados", conta Laurentino explicando por que os adversários acusaram D. Pedro de “comprar a Independência”. No entanto, a assinatura desse tratado abriu caminho para o reconhecimento da nação que surgia no Novo Mundo.

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