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Paulo Freire criticou socialistas e era contra doutrinação, diz biógrafo

Acusado de subversão, Paulo Freire foi preso durante a ditadura. Depois, trabalhou no Chile, nos Estados Unidos, na Suíça e em países africanos como Cabo Verde. Foi secretário de Educação do município de São Paulo na gestão Luiza Erundina  - Reprodução
Acusado de subversão, Paulo Freire foi preso durante a ditadura. Depois, trabalhou no Chile, nos Estados Unidos, na Suíça e em países africanos como Cabo Verde. Foi secretário de Educação do município de São Paulo na gestão Luiza Erundina Imagem: Reprodução

Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo

22/12/2018 04h00

O fato de 2018 terminar sem que o projeto Escola sem Partido tenha sido votado no Congresso não encerra as discussões sobre o tema nem sobre a influência do pernambucano Paulo Freire na educação do país. A obra e a importância do patrono da educação brasileira estão no centro do debate.

Autor de uma vasta obra, Freire, que morreu em 1997, aos 75 anos, é um alvo dos defensores do Escola sem Partido, mas não só. O plano de governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) afirma que é necessário expurgar "a ideologia de Paulo Freire".

As discussões sobre o educador ganharão mais um elemento em 2019. O professor Sérgio Haddad, do programa de pós-graduação em Educação da Universidade de Caxias do Sul, lançará uma biografia de Freire pela editora Todavia.

Segundo Haddad, que é doutor em Educação, pesquisador e assessor da organização não-governamental Ação Educativa, Freire é pouco estudado no Brasil, e a rejeição ao patrono surpreende pela "ignorância".

O biógrafo afirma que Paulo Freire era um crítico de regimes socialistas e jamais defendeu a doutrinação de alunos. Confira abaixo a entrevista que Haddad concedeu ao UOL por email.

UOL - Qual sua opinião sobre a passagem do plano de Bolsonaro em que se fala que "a ideologia de Paulo Freire" deve ser expurgada? E de que maneira ela está presente na educação brasileira?

Sérgio Haddad - Expurgar a "ideologia de Paulo Freire" me parece uma atitude autoritária, além de pouco operacional. Como fazer isto? Você pode discordar das ideias, que está na base da democracia, mas não expurgá-las. As suas ideias estão presentes não só no Brasil, mas em muitos países do mundo. Alguns dos seus livros já foram traduzidos para mais de 20 línguas. Sua obra "Pedagogia do Oprimido" foi a terceira mais citada em trabalhos na área das humanas no mundo, mais do que [Michel] Foucault e [Karl] Marx. São milhões de livros publicados.

Qual o peso da influência de Paulo Freire na educação brasileira?

É difícil medir. Como qualquer autor, tem aqueles que o admiram, que são a maioria, e aqueles que o rejeitam. A verdade é que ele é menos estudado do que deveria ser no Brasil por sua importância como educador e pensador. É mais estudado fora do país.

No Brasil, entre especialistas em educação, Paulo Freire é mais criticado ou mais apoiado? Por quê?

Eu acredito que é mais apoiado, pelo que vejo e sinto. A verdade é que falta entre os especialistas estudar mais Paulo Freire, as universidades e os programas de formação de especialistas deveriam se responsabilizar por esta falta. Para apoiar ou criticar, é necessário conhecer.

Quais aspectos da obra e dos pensamentos de Paulo Freire são pouco conhecidos no Brasil?

Algumas obras tiveram uma difusão tão grande que acabaram ofuscando aspectos tratados por Paulo Freire em outras obras, no meu ponto de vista. Acho a experiência do autor na África extremamente rica e pouco conhecida, assim como com os camponeses no Chile, no campo da comunicação, e o trabalho com as igrejas quando esteve exilado em Genebra, no Conselho Mundial de Igrejas.

Segundo Sérgio Haddad, o próprio Paulo Freire afirmava que seu pensamento não era dogma - Divulgação
Segundo Sérgio Haddad, o próprio Paulo Freire afirmava que seu pensamento não era dogma
Imagem: Divulgação
 

O que é atual e o que é ultrapassado em Paulo Freire?

Freire sempre afirmou que aquilo que escreveu deveria ser repensado para o momento histórico em que as pessoas viviam. Para ele, seu pensamento não era dogma, pois iria contra tudo o que pregava, mas um insumo, que deveria ser compreendido e relido como uma contribuição para o trabalho educacional. Seu método de alfabetização, aplicado nos anos 60, vem sendo atualizado ao longo dos anos com novas descobertas sobre a leitura e a escrita. No entanto há coisas que são perenes: sua concepção e respeito ao ser humano, a não neutralidade da educação, o diálogo como princípio educativo, a relação entre teoria e prática, por exemplo.

Era esperado ou é uma surpresa que Paulo Freire seja agora tão rejeitado por parte da sociedade brasileira? O que teria levado a esta situação?

Difícil responder. É surpresa se consideramos os argumentos utilizados para a sua rejeição: que ele é comunista, que suas ideias estragaram a qualidade da escola pública, que prega a instrumentalização da educação para fins políticos. São acusações de quem nunca leu suas obras! Surpreende a ignorância de quem utiliza este tipo de argumento. Por outro lado era esperada uma oposição: Paulo Freire, se estivesse vivo, estaria em um campo oposto às ideias e práticas do bloco atual de poder.

No livro "Pedagogia da Autonomia", Freire critica a "ordem capitalista vigente que inventou esta aberração: a miséria na fartura" e os neoliberais. Nesta obra, ele também comenta a relação entre lucro e desenvolvimento humano. "Se, de um lado, não pode haver desenvolvimento sem lucro este não pode ser, por outro, o objetivo do desenvolvimento, de que o fim último seria o gozo imoral do investidor", escreve Paulo Freire. Pode-se dizer que ele defendia um capitalismo menos desigual e o estado de bem-estar social?

Paulo era um cristão que tinha um profundo compromisso ético com a defesa da vida do ser humano em sua plenitude. Portanto, era contrário a qualquer regime que violava direitos fundamentais do ser humano, seja ele de qualquer natureza. Nos seus últimos escritos apontava sobre a crueldade de um capitalismo que desistia de melhorar a vida das pessoas para se transformar apenas em uma competição desregulamentada por mais lucro, assim como foi crítico dos regimes socialistas que haviam desistido da liberdade e da democracia. Todos, para ele, regimes violadores dos direitos humanos. 

Para Paulo Freire, qual deveria ser a postura política do professor em sala de aula?

Paulo Freire sempre defendeu a não neutralidade da educação, portanto, o educador não deveria deixar de expressar sua opinião sobre temas gerais da sociedade num ambiente franco de diálogo com seus alunos. Também defendia que os professores deveriam se organizar profissionalmente na defesa da sua categoria profissional.

No entanto, nunca, em nenhum momento dos seus escritos e da sua prática, advogou a ideia de ser favorável à doutrinação política e ou partidária dos alunos. Ao contrário, sempre defendeu o respeito e o diálogo entre a diversidade de opiniões.

Qual sua opinião sobre a linha de pensamento e os métodos de Paulo Freire?

Particularmente tenho uma admiração muito grande pelo seu pensamento. Foi um humanista, uma pessoa coerente entre aquilo que proclamou e o que praticou como educador, aberto a refazer posições. Era comprometido eticamente com os mais pobres, os discriminados, aqueles e aquelas que sofrem por sua condição social. 

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