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Após aprovar toda a turma, cursinho em laje na Maré quer novo espaço no Rio

O espaço improvisado na laje do UniFavela, no Complexo da Maré - Divulgação
O espaço improvisado na laje do UniFavela, no Complexo da Maré Imagem: Divulgação

Giorgia Cavicchioli

Colaboração para o UOL, de São Paulo

07/10/2019 11h35

Resumo da notícia

  • Professores do pré-vestibular comunitário são graduandos e cotistas
  • Ex-aluno cedeu a laje da própria casa, no Complexo da Maré, para o projeto
  • Coletivo busca recursos para construir seu espaço de estudos

Três jovens estudantes universitários se juntaram para ajudar moradores do Complexo da Maré, na zona norte do Rio, a estudar para o vestibular. A iniciativa, que começou de forma despretensiosa em 2018 em uma biblioteca, cresceu e virou o UniFavela, um cursinho comunitário que no ano passado aprovou toda a sua primeira turma de alunos em universidades públicas do Rio.

Agora, o coletivo fundado por Laerte Breno, Daniele Figueiredo e Letícia Maia quer apoiar mais jovens da comunidade carioca a ingressar em universidades e ocupar o espaço tão sonhado por tantos jovens.

A história do UniFavela mostra que isso é possível. As aulas começaram na biblioteca da Lona Cultural Municipal Herbert Vianna. Mas, como o espaço abrigava muitas atividades, o grupo precisou se mudar.

Foi então que um dos alunos ofereceu a laje da sua casa para que as aulas pudessem acontecer. "Eu achei meio surreal [o local]", diz Breno, estudante de letras da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e criador do UniFavela.

"Foi luta e resistência"

Nesse espaço, com uma mesa-estante de tijolos e um quadro apoiado em tijolos, o grupo foi se fortalecendo. "Somos mais do que um cursinho, somos uma rede de apoio", afirma Daniele Figueiredo, que estuda história na Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

"A gente montou uma equipe de professores graduandos e cotistas. Conseguimos educadores para todas as disciplinas do vestibular", conta Letícia, estudante do curso de história da UFRJ.

Letícia afirma que o ensino no cursinho é horizontal e que os alunos ajudam a construir os temas com os educadores. "Nosso objetivo é ser uma comunidade onde todo mundo se ajuda, todo mundo se acolhe. Passar em uma universidade é consequência. A gente está ali para provocar, para aprender e para questionar", explicou.

O coletivo é também um espaço de luta e resistência. "A gente é enfático em reforçar que não foi meritocracia. Foi questão de luta e resistência", afirma Breno, que celebra a entrada de cada um dos alunos na faculdade.

A turma do cursinho UniFavela, no Complexo da Maré - Divulgação
A turma do cursinho UniFavela, no Complexo da Maré
Imagem: Divulgação

Juliana Santos de Souza, 19, fez um desses momentos de celebração. Aluna do cursinho, ela passou em química na Uerj. "No ano passado eu estava frequentando um pré-vestibular, só que eu desanimei e parei de ir. Foi quando ele me chamou e eu passei a frequentar o deles de tarde. Às vezes, eu ia de noite para o outro também", afirma.

O UniFavela me deu um empurrão, já que eu já tinha desistido praticamente de fazer vestibular. Aí acabou que eu passei em duas faculdades. Criamos um laço bem forte. Somos uma família agora, fomos juntando pessoas de vários cantinhos
Juliana Santos de Souza, estudante

Vaquinha online para novo espaço

Um ano depois do início do projeto, o grupo se instalou no Instituto Vida Real, onde encontrou uma melhor estrutura e segurança para que as aulas aconteçam.

Hoje, o UniFavela conta com 20 educadores e cerca de dez alunos. "Começamos o ano com 20 alunos, mas, por questões socioeconômicas, às vezes, tem evasão escolar", explicou Breno.

Agora, o grupo se prepara para dar mais um importante passo para ajudar a aprovar mais moradores da Maré no vestibular. Por meio de uma vaquinha online, o UniFavela busca recursos para construir um espaço só deles para promover as aulas.

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