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"Não aceitaria de jeito nenhum" voltar ao MEC, diz Vélez

Do UOL*, em São Paulo

25/06/2020 12h30

Primeiro ministro da Educação do governo Jair Bolsonaro (sem partido), o professor e filósofo Ricardo Vélez Rodríguez afirmou hoje durante participação no UOL Entrevista que não voltaria ao cargo "de jeito nenhum".

Em entrevista à repórter Ana Carla Bermúdez e ao colunista Tales Faria, Vélez criticou o uso da ideologia no MEC (Ministério da Educação), se arrependeu de declarações passadas e disse que perdeu o cargo porque achavam que ele havia "tucanado".

Indicado pelo ideólogo Olavo de Carvalho, Vélez ocupou o cargo por pouco mais de três meses. Acabou demitido em abril de 2019 após colecionar uma série de medidas controversas, como a demissão de funcionários do alto escalão.

Vélez disse não guardar mágoas por ter comandado o MEC por tão pouco tempo, mas afirmou que jamais aceitaria um convite de retorno à pasta, que segue ocupada interinamente por Antonio Paulo Vogel após demissão do economista Abraham Weintraub na semana passada.

"Não aceitaria de jeito nenhum [voltar ao cargo]", disse. "Não porque tenha medo de gerir, mas tem de haver espaço para colaboração de gente mais jovem."

Estou com 77 anos. Não estou gaga, de forma alguma, me interesso muito pela educação, mas já dei minha contribuição
Ricardo Vélez Rodríguez, ex-ministro da Educação

Ele declarou que aceitaria um convite apenas "se for chamado para dar minha colaboração desinteressada", como conselheiro do ministério.

"Acharam que eu tinha tucanado"

Vélez atribuiu sua queda do ministério à impressão do governo Bolsonaro de que ele havia "tucanado", ou se aproximado das diretrizes do PSDB.

Isso teria ocorrido após sua intenção de priorizar a formação de professores do ensino básico e fundamental de olho em experiências de outros políticos, como "a reforma iniciada no governo Michel Temer".

Ele também se disse "impressionado com a reforma do ensino em Pernambuco feita pelo [ex-governador de Pernambuco] Eduardo Campos (morto em 2014)", do PSB.

"Acharam que eu tinha tucanado", afirmou o ex-ministro. "Isso não tem batismo ideológico. É garantir ensino chão de fábrica? Eles me obrigaram a sair."

Infelizmente, Bolsonaro tomou partido deles e saí
Ricardo Vélez Rodríguez, ex-ministro da Educação

Saída do MEC

Vélez também disse não guardar mágoas por sua demissão ao dizer que o cargo não pertencia a ele, mas a Bolsonaro, que o indicou.

"Cargo público não é propriedade, é serviço", disse. "Não fiquei ressentido, disse 'quem me chamou foi o senhor. O cargo é seu, muito obrigado pela oportunidade'."

Eu fiquei triste de que a proposta não iria até o final
Ricardo Vélez Rodríguez, ex-ministro da Educação

Ideologia na educação

Para o ex-ministro, o governo enviesou ideologicamente as políticas educacionais do governo. Enquanto sua proposta teria se voltado para a "colaboração das secretarias estaduais e municipais" e diálogo com o Congresso, os integrantes do governo defenderiam a privatização da educação.

"Eu falei 'não, de jeito nenhum'. O sistema público de ensino é um patrimônio da nação. (...) Temos de geri-lo como bem público e não com burocracia para que satisfaçam interesses pessoais, se esquecendo do serviço que deve prestar a nação."

Acho que ideologizou-se [o MEC]. Houve presença marcante de pautas olavistas (na gestão de Wenitraub), o que é ruim
Ricardo Vélez Rodríguez, ex-ministro da Educação

"Em uma reforma na educação do tamanho de um país como o Brasil é preciso a colaboração de todos, de todas as secretarias municipais e estaduais, e com diálogo. Tem que seguir um rito constitucional", disse.

Brasileiro viajando é canibal?

Vélez disse ainda que se arrependeu de uma entrevista concedida à revista Veja em fevereiro do ano passado. Na ocasião, ele defendeu o ensino de educação moral e cívica porque os adolescentes brasileiros em viagem ao exterior se comportariam como canibais.

"O brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba assentos salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola", afirmou, na época.

"Se tem algo que não tenho dificuldade em praticar é arrependimento de algo que disse. Esse dos canibais foi uma escorregada ruim porque comprometeu uma entrevista que foi muito positiva."

Ele também disse ter se arrependido de ter sugerido uma lei obrigando as crianças a cantar o Hino Nacional. "Isso foi ruim, mandei tirar essa parte imediatamente. Os que reclamaram tinham razão."

Empresários na escolha de reitores

Vélez disse ainda que defendia a participação de empresários na escolha dos reitores das universidades federais. Sua intenção era aprovar um projeto de lei com a mudança.

"Uma comissão faz análise dos cinco melhores currículos, [cujos donos] são chamados a debater suas propostas administrativas, com uma inovação, que não é tão pequena, como a participação dos empresários da região, porque o sistema produtivo tem de ser chamado."

Para o ex-ministro, a alteração é necessária porque "quem elege pauta são os sindicatos de servidores ligados à CUT (Central Única dos Trabalhadores) em eleições diretas, incluindo a nomeação dos reitores".

*Texto de Afonso Ferreira, Fábio Castanho e Wanderley Preite Sobrinho. Produção de Diego Henrique de Carvalho.