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Mesas distantes, rodízio, trocas de lápis proibidas: a volta às aulas no AM

Escola particular de Manaus instalou divisórias de acrílico em mesas para atividade em dupla - Divulgação/Escola Meu Caminho
Escola particular de Manaus instalou divisórias de acrílico em mesas para atividade em dupla Imagem: Divulgação/Escola Meu Caminho

Rosiene Carvalho

Colaboração para o UOL, em Manaus (AM)

22/07/2020 04h00

Revezamento de dia de aula, distanciamento entre cadeiras, falta de contato físico e convívio em áreas coletivas, higiene frequente de mãos, objetos pessoais, pés descalços e limpos e proibição de empréstimos de material escolar. Com essas regras, o Amazonas, estado que chegou a ser o epicentro da Covid-19 no país, foi o primeiro a retomar as aulas na rede particular de ensino.

Sob a desconfiança e necessidade dos pais, mais da metade dos 84 mil estudantes matriculados este ano em escolas particulares de Manaus voltaram às salas de aula com regras nunca antes adotadas. Com 1,2 milhão de estudantes no ensino básico, considerando a rede pública estadual e municipais, apenas 7,5% dos estudantes no estado são de unidades de ensino particular.

As escolas públicas ainda não têm previsão de retorno.

Duas semanas após o início da volta às escolas, a FVS (Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas) sustenta que há estabilidade e uma tendência de queda dos registros da doença tanto em Manaus quanto no interior do estado.

Após o retorno das aulas em Manaus, o estado do Amazonas registrou 14.962 novos casos e 208 mortes. Nas duas semanas anteriores, o número de novos casos foi menor 12.604, mas o número de mortes maior: 272.

Escolas fizeram planejamento

Todo o planejamento do retorno às aulas foi feito por cada escola, em reuniões virtuais e consulta aos pais, a partir da orientação do Sinepe (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Privado do Estado do Amazonas) e da Fenep (Federação Nacional de Escolas Particulares). O Governo do Amazonas só publicou decreto com regras e orientações às unidades de ensino três dias antes do retorno às aulas.

"O que tinha no decreto nós já havíamos previsto no planejamento", afirmou a vice-presidente do Sinepe, Laura Cristina Vital, dona de uma escola de educação infantil e fundamental em Manaus.

"As escolas se uniram e entenderam que precisavam se estruturar. Compraram termômetros, instalaram mais pias, adquiriram tapetes de sanitização, totem de álcool, barreira acrílica para as mesas (crianças menores), adesivaram chão para indicação do distanciamento social. Tudo baseado no plano diretor que o sindicato distribuiu às associadas, tendo como bússola as orientações da OMS e da Fenep", disse Laura Cristina.

A microempresária do setor de estética, Larisce Penalber, 29, com filhos matriculados numa escola de grande porte na zona centro-Sul de Manaus, afirma que a filha de 10 anos estava ansiosa para retornar à sala de aula. Foram quase quatro meses em casa sem contato com os amigos. A mãe disse que teve receio porque os avós moram na mesma casa.

A família colocou na balança os prejuízos que poderiam ter no rendimento escolar da filha e da saúde mental, além das exigências do mercado de trabalho que diminuem o tempo de dedicação às crianças em casa. Já o filho de quatro anos da microempresária não voltou à escola. Ela avalia que os prejuízos pedagógicos para ele, em função da idade, serão menores.

O rodízio está funcionando bem e nossa adaptação com o lanche e os cuidados de higiene também. Minha filha leva três máscaras quando vai à aula para trocar na escola. Sinto um pouco de insegurança, mas os cuidados que a escola demonstra ter, me deixam mais tranquila"

O funcionário público Thiago Michilles, 35 anos, que tem filhos matriculados em escolas de médio porte na zona norte de Manaus, avalia que, mesmo com o retorno às salas de aula, há grande prejuízo pedagógico.

"O rodízio faz com que o meu filho do 5º ano vá à escola duas vezes por semana com aulas de 7h às 10h. Eu acho que reiniciou só para justificar a mensalidade. O que uma criança aprende indo duas horas, por duas vezes na semana na escola? E a aula pela internet não é a mesma coisa", disse.

Alunos de escola em Manaus voltam à sala de aula, mantendo distanciamento entre as cadeiras  - Divulgação - Divulgação
Alunos de escola em Manaus voltam à sala de aula após quarentena, mantendo distanciamento
Imagem: Divulgação

Thiago afirmou que dá aula de reforço aos filhos em casa do conteúdo que eles deveriam ter aprendido este ano. "Minha preocupação é principalmente com português e matemática, porque são disciplinas cumulativas. Se você não aprende uma coisa, todo o resto se perde", disse.

O filho mais novo do funcionário público apresentou sintomas de gripe e falta de ar uma semana após retornar à escola. O médico que o atendeu não fez teste para covid-19, mas indicou uma pequena alteração no pulmão. Por isso, Thiago disse que, mesmo melhor, suspendeu a ida do mais novo à escola. O mais velho manteve a programação.

"Ele levou as máscaras, me disse que as mesas estão distantes e as crianças proibidas de emprestarem lápis, borracha. Não sei se foi na escola, mas comunicamos e ele deixou de ir à aula esses dias".

"Nada mais é normal"

Para a vice-presidente do Sinepe, o retorno das crianças à sala de aula é válido mesmo fora da normalidade. "Nada é mais normal. Acredito que tem como recuperar sim e não está perdido. Dentro do que reorganizamos o calendário, acho que vamos conseguir, sim. Não tem por que desistir", avaliou.

A assistente social Carla Grijó, de 30 anos, é mãe de Benjamin Grijó Coelho de apenas um ano e seis meses e teve que optar pelo retorno dele à creche pela necessidade de volta presencial ao emprego dela e do marido.

Benjamin - Carla Grijó/Arquivo pessoal - Carla Grijó/Arquivo pessoal
Benjamin Grijó Coelho, de um ano e seis meses, que voltou para a creche em Manaus
Imagem: Carla Grijó/Arquivo pessoal

O Sinepe informou que, a exemplo do que ocorreu na escola de Benjamin, 40% das matrículas em unidade de ensino infantil foram canceladas. "Infelizmente, há escolas que não resistiram aos quatro meses sem atividade e cancelamentos de matrículas e fecharam as portas", disse.

Em entrevista concedida à Rádio BandNews Manaus, no dia 14 de junho, o secretário de Educação do Amazonas, Luís Fabian, admitiu que o retorno às aulas nas unidades particulares também cumpre uma necessidade da economia do estado.

"A atividade das escolas particulares é comercial. Sob pena de escolas menores terem que fechar as portas, elas precisam o quanto antes retornar suas atividades. Agora, obviamente, tomando-se todos os cuidados relativos ao bem estar das crianças", disse.