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Após 5 meses, universidades estaduais não definiram aulas presenciais

Levantamento feito pelo UOL mostra que maioria já retomou atividades remotamente, mas não definiu volta presencial - Getty Images
Levantamento feito pelo UOL mostra que maioria já retomou atividades remotamente, mas não definiu volta presencial Imagem: Getty Images

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

03/09/2020 04h00

Mais de cinco meses após a suspensão das aulas presenciais devido à pandemia do coronavírus, a maior parte das universidades estaduais brasileiras já retomou as atividades de forma remota, mas não definiu ainda quando acontecerá a volta para as salas de aula.

Levantamento realizado pelo UOL com universidades estaduais de todo o país mostra que pelo menos 25 instituições de ensino retomaram as aulas da graduação no formato online. Outras 8 ainda não o fizeram —delas, cinco têm previsão para que isso aconteça a partir do mês de setembro.

A reportagem procurou, ao todo, 40 universidades estaduais. Sete delas não responderam.

Quando vai ser o retorno presencial

Até o momento, entre as universidades consultadas, apenas a UEA (Universidade do Estado do Amazonas) tem data marcada para o retorno presencial às salas de aula ainda em 2020, que deve acontecer em 5 de outubro.

Na UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa), a retomada presencial deste ano letivo está programada para o dia 3 de fevereiro de 2021.

A USP (Universidade de São Paulo) prevê a reposição de aulas e atividades práticas do primeiro e segundo semestres de 2020 entre janeiro e março de 2021. A previsão é semelhante na Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Já a Uneal (Universidade Estadual de Alagoas) diz que o retorno presencial acontecerá somente em 2021 e desde que seja possível garantir segurança aos alunos e servidores. A UERR (Universidade Estadual de Roraima) também fala na possibilidade de retorno apenas em 2021.

Outras 27 universidades estaduais disseram não ter previsão para a retomada das aulas presenciais.

Aulas online

Na Uncisal (Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas), na Ueap (Universidade do Estado do Amapá) e na Uesb (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) ainda há indefinição sobre a retomada das atividades de forma remota.

A Uncisal disse que as aulas online estão "próximas de serem realizadas", mas não informou uma data. Segundo a instituição, o retorno depende da finalização de um edital para fornecer auxílio internet em caráter emergencial aos alunos. O edital foi lançado em 15 de agosto e teve as inscrições encerradas no dia 22 do mesmo mês, mas ainda não teve os resultados divulgados. A previsão é que 118 alunos da universidade sejam beneficiados com um valor de R$ 100 por seis meses.

Na Ueap, as aulas ainda não foram retomadas porque, segundo a instituição, a maioria dos estudantes não possui acesso particular à internet em banda larga, tendo apenas pacotes de dados de conexão pré-paga. Na avaliação da universidade, a implementação de aulas online prejudicaria esses alunos nos quesitos de avaliação. A instituição ofereceu um auxílio emergencial aos estudantes mais vulneráveis por três meses, mas o edital não mencionava questões de conectividade.

Ontem, o retorno remoto das aulas foi aprovado em uma votação. Um novo calendário e outras questões serão discutidos daqui a 20 dias —incluindo a possível ida de alunos até a univerdade, caso eles não tenham conexão em casa.

As universidades que têm previsão de volta às aulas de forma remota no mês de setembro são: UVA (Universidade Estadual Vale do Acaraú), Uema (Universidade Estadual do Maranhão), Uespi (Universidade Estadual do Piauí), Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Uezo (Fundação Centro Universitário Estadual da Zona Oeste).

Ana Clara, estudante de direito na Uespi - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ana Clara, que cursa direito na Uespi, diz que não houve atividade letiva até agora
Imagem: Arquivo pessoal

Aluna do segundo ano do curso de direito na Uespi, Ana Clara Nascimento Oliveira, 20, diz que nenhuma atividade letiva aconteceu ou foi enviada aos alunos da graduação neste ano pela universidade.

"As nossas aulas eram para ter voltado em 1º de abril. Mas, antes disso, em março, começou a quarentena e o calendário foi paralisado", afirma.

A reitoria da universidade realizou, em abril, enquetes online com a comunidade acadêmica para sondar as condições de acesso dos estudantes e professores à internet. Responderam cerca de 40% dos alunos da graduação, 42% dos professores e 40% dos técnicos. Entre os 4.825 estudantes que responderam ao questionário, 1.862 disseram não ter internet em casa.

Membro do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da instituição, Ana Clara acredita que a retomada das atividades letivas em setembro, de forma online, pode prejudicar principalmente os alunos de campi localizados no interior do estado, onde a conexão à internet é mais precária.

"Eu participo de um grupo de pesquisa que, durante a quarentena, tem se reunido virtualmente. A gente faz debates, discussões e organizamos atividades para movimentar as redes sociais para falar de temas importantes. Acho que esse deveria ser o caminho na quarentena, as atividades não obrigatórias que incentivam a formação", diz.

A Uespi informou que negocia com o governo do estado do Piauí o lançamento de um edital para fornecer auxílio conectividade a toda a comunidade acadêmica. Segundo a universidade, "o edital está em fase de produção, para que esteja tudo garantido até o início do semestre 2020.1, em setembro".

A universidade disse ainda que oferta, desde junho, um auxílio moradia em caráter emergencial para os alunos que, em decorrência da pandemia, ficaram impedidos de retornar às suas residências de origem e estão sem recursos para se manter no período de isolamento social.

Enem

O cenário de incerteza se estende também para o uso do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) como forma de seleção para o ano letivo de 2021. Com o adiamento da edição de 2020 do exame para janeiro e fevereiro do ano que vem, sete universidades estaduais que tradicionalmente oferecem vagas para seleção por meio do desempenho obtido no exame ainda não sabem se continuarão a fazê-lo.

Esta é a situação na UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), Unemat (Universidade do Estado de Mato Grosso), Uespi (Universidade Estadual do Piauí), UEL (Universidade Estadual de Londrina), Uenp (Universidade Estadual do Norte do Paraná), Uezo (Fundação Centro Universitário Estadual da Zona Oeste) e Unitins (Universidade Estadual do Tocantins), que disseram não ter definição sobre o uso do Enem como forma de seleção para 2021.

Já a UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul) informou que está avaliando se utilizará outra forma de seleção além do Enem. O ingresso nos cursos de graduação da universidade acontece por meio do Sisu (Sistema de Seleção Unificada), que seleciona candidatos com base no desempenho obtido no exame.

"A princípio, esta continuará sendo a forma de ingresso em 2021, mas a universidade ainda está avaliando se optará por outra forma de seleção", disse a instituição.

Outras duas universidades estaduais deixarão de usar o Enem como parte de seus processos seletivos para 2021. É o caso da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e da Unesp.

A Unicamp anunciou, em julho deste ano, que o Enem não será utilizado para ingresso na instituição no ano que vem por diferenças de calendário. Segundo a instituição, as 639 vagas que seriam oferecidas pelo edital Enem-Unicamp já foram inseridas no vestibular tradicional da universidade.

A Unesp, que costuma oferecer aos candidatos a opção de usar o desempenho obtido no Enem no lugar da nota da primeira fase do vestibular, não terá esse recurso para 2021. "Não será possível, porque a nota do Enem vai sair depois do processo seletivo [da Unesp]", diz a pró-reitora de graduação da instituição, Gladis Massini-Cagliari.

Ela destaca, no entanto, que a Unesp pretende utilizar o Enem como forma de seleção para eventuais vagas remanescentes ainda em 2021.