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Com metade de ausentes, Enem 2020 pode ser um sucesso, como diz o MEC?

Participantes durante o 1º dia do Enem na unidade Marquês de São Vicente da Unip, na zona oeste de São Paulo - André Porto/UOL
Participantes durante o 1º dia do Enem na unidade Marquês de São Vicente da Unip, na zona oeste de São Paulo Imagem: André Porto/UOL

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

24/01/2021 04h00

Um "sucesso". Foi assim que o ministro da Educação, Milton Ribeiro, definiu o primeiro dia de provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2020, no último domingo (17).

Vale relembrar o que aconteceu: a abstenção foi recorde e mais da metade dos inscritos nem sequer compareceu aos locais de prova. Apesar disso, houve denúncias de aglomeração. E, para completar, candidatos foram barrados e impedidos de fazer o exame devido à superlotação de algumas salas.

Se há uma palavra que pode definir esta edição do Enem, ela certamente passa longe de ser "sucesso". Às vésperas do primeiro dia de provas, o clima era de tensão e incertezas, até por ações judiciais que tentaram adiar o exame.

Apesar das declarações do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) de que seria possível realizar o evento com segurança, isso não aconteceu —e as incertezas voltam a pairar, agora, sobre o segundo dia do Enem.

Os candidatos que foram barrados no primeiro dia acabaram saindo sem nenhum tipo de comprovante de que haviam ido até lá. A orientação é que, após terem sido impedidos, os participantes escolham se vão comparecer ao segundo dia do exame ou se vão solicitar a reaplicação das duas provas. Caso decidam ir neste domingo, o que garante que eles conseguirão fazer as provas desta vez?

E se as salas estiverem, novamente, superlotadas? Imagina-se que os participantes que conseguiram entrar nas salas no primeiro dia do Enem comparecerão também ao segundo.

E as aglomerações, vistas já na entrada dos locais de prova, apesar do adiantamento do horário da abertura dos portões? Haverá fiscalização mais rígida sobre isso?

Qual o tipo de "sucesso" se há uma taxa de abstenção recorde, em que mais da metade dos inscritos não participaram das provas? Qual o mérito de conseguir realizar o exame para "não fazer os alunos perderem mais um ano", como disse o ministro na entrevista à imprensa, se os próprios estudantes já consideram o ano letivo como desastroso e insuficiente para prepará-los para uma nova fase de ensino? O abismo educacional vai se resolver?

Em sua fala, o ministro responsabilizou a imprensa e o que classificou como um "trabalho de mídia contrário" ao Enem pela quantidade surpreendente de faltosos.

A questão é que cabe à imprensa noticiar fatos de interesse público sobre a realização de um exame nacional —sem torcidas para um lado ou para outro. Parece mais acertado dizer que os candidatos não confiaram no protocolo de segurança do governo para a realização das provas, como mostrou reportagem da BBC.

É preciso entender, ainda, qual a real dimensão desses 51,5% de abstenção no primeiro dia do Enem, transformando esse número em informações que representam as diferentes situações vivenciadas pelos brasileiros. Quais foram as taxas de ausência por local de prova? E por município, por estado? Qual foi o perfil socioeconômico de quem não fez a prova?

Em poucas palavras: quem participou de fato do primeiro dia do Enem foi o aluno mais pobre ou o mais rico? O MEC (Ministério da Educação) e o Inep têm a obrigação de trazer a público essas informações.

Mais de 2 milhões de inscritos perderam a chance de entrar no ensino superior usando a nota do Enem, que é hoje considerado a principal porta de entrada para universidades públicas brasileiras. Em um país que sofre com atrasos e dificuldades no acesso à educação, é um golpe duríssimo.

A situação que vem se desenhando é de extrema injustiça e de condições desiguais de competição para os candidatos. O ano de 2020 foi caótico para a educação. Nenhum estudante saiu ileso de problemas psicológicos, pessoais ou educacionais devido à pandemia. Afinal, ninguém estava preparado, antes, para uma situação tão grave e delicada como essa.

Questões como essas pedem resposta e uma análise profunda para pensar as políticas educacionais para o país em 2021 e nos anos seguintes. O impacto precisa ser estudado. Não dá para fechar os olhos e continuar com a programação como se nada de anormal tivesse acontecido.

Enem 2020; veja fotos

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