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Sem computador nem apoio: Desigualdades na educação aumentam na pandemia

Fabíola, 13, e seu irmão Fernando, 11, estudam em casa, com tablet emprestado - Arquivo pessoal
Fabíola, 13, e seu irmão Fernando, 11, estudam em casa, com tablet emprestado Imagem: Arquivo pessoal

Ana Paula Bimbati

Do UOL, em São Paulo

28/04/2021 04h00

Francielma Silva já estava desempregada quando as escolas foram fechadas em março de 2020 para conter a disseminação do coronavírus. Sem uma renda para comprar smartphone ou computador, seus filhos Fabíola, de 13 anos, e Fernando, 11, não conseguiram acompanhar as atividades escolares até o início deste ano.

"Já estava desempregada, correndo atrás de serviço e não conseguia ajudá-los", conta Francielma. O cenário se repete para muitas famílias pelo Brasil.

Segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em 2020:

  • mais de 1,8 milhão de alunos não possuíam equipamentos eletrônicos para estudar, e
  • cerca de 6 milhões não tinham acesso à internet.

Dados como esses mostram mostram as desigualdades se aprofundaram em meio a pandemia, que dura mais de um ano. Hoje (28), dia da educação, muita gente não tem o que comemorar.

Francielma diz que foi um verdadeiro "desespero" ver os filhos sem estudar, sem conseguir "dar qualquer apoio" para eles. A família havia recém-chegado a São Paulo. E foi só neste ano, com equipamentos emprestados ou doados, que as crianças conseguiram fazer as atividades propostas.

Agora, como só tem um computador, eles revezam. Um usa durante o dia e o outro à tarde, mas ainda assim é difícil, porque tem conteúdos que eles estão aprendendo que não lembro e não consigo ajudar.
Francielma Silva, desempregada

Segundo César Nunes, gerente de desenvolvimento de soluções do Instituto Unibanco, como "a educação funciona como um sistema contínuo", a descontinuidade das aulas tem sido o maior desafio. "Com isso, vem a desigualdade, porque quem teve uma descontinuidade das atividades são os alunos com condições piores", explica.

Um relatório da Unesco sobre a América Latina apontou que só em 2030 os alunos brasileiros e de outros países latinos devem voltar para o nível de aprendizagem em que estavam. O mesmo documento mostra, por exemplo, que, em 21 países, crianças das 20% famílias mais ricas têm cinco vezes mais probabilidade de concluir o ensino superior em relação as mais pobres.

Para a diretora do Ceipe (Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais), da FGV, Claudia Costin, o principal desafio imposto pela pandemia é que o Brasil não foi preparado para uma prática pedagógica de aprendizagem remota.

Imagina como é um ano inteiro de escolas fechadas. Alguns alunos têm em suas casas livros, equipamentos e apoio dos pais. Em outras casas, os pais não conseguem estar presentes, já que muitas vezes estão na rua tentando buscar fonte de renda, e falta o acesso à conectividade. É aí que as desigualdades são ampliadas.
Claudia Costin

Os recortes social e racial entre os alunos, segundo Costin, mostram como as desigualdades são ampliadas. "O Brasil não assegurava antes da pandemia uma mobilidade social pela educação, mas havia condições de cada vez um número maior de alunos seguirem para o ensino médio, um número maior de alunos concluir a etapa. Mas agora vemos essa mobilidade ser reduzida a quase nada", avalia.

Esse é um receio de Célia Aparecida dos Santos. Ela é faxineira, mas está desempregada. Com a falta de renda fixa, os filhos ficaram sem acesso à internet nesta semana. "Fico preocupada, porque não tenho dinheiro para pagar e quero que eles estudem. Estudei pouco e quero o melhor para eles."

Ela, que mora de favor na casa da irmã, teme que os filhos fiquem para trás e percam oportunidades ao longo da vida. "Não sabemos quanto tempo as escolas ficarão fechadas, por isso uma coordenação nacional, por parte do MEC [Ministério da Educação] para minimizar os efeitos da pandemia é urgente", aponta Claudia Costin.

Enquanto os desafios são ampliados, as famílias se esforçam para garantir o mínimo de acesso. "Nada vai ser como uma aula presencial, com o professor na frente, mas eu tenho feito de tudo para eles se manterem focados", disse Francielma.

Câmara promove dia da educação na quinta

Amanhã (29), o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), pretende promover o dia da educação e pautar projetos ligados ao tema. Segundo o UOL apurou, deputados ligados à bancada da educação se preparam para um embate com o governo federal.

Não se sabe quantas propostas serão discutidas, mas a expectativa é que um dos projetos seja o 14.040/2020, da deputada Dorinha Rezende (DEM-TO), que fala do estado de calamidade pública e mantém as condições para atividades remotas. Outro PL, que assegura R$ 3,5 bilhões para alunos e professores terem acesso à internet, também deve entrar em discussão.