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Dom Paulo Evaristo Arns, cardeal da resistência à ditadura, faria 100 anos

Dom Paulo Evaristo Arns, cujo nascimento completa cem anos em setembro de 2021 - Agência Senado
Dom Paulo Evaristo Arns, cujo nascimento completa cem anos em setembro de 2021 Imagem: Agência Senado

Murilo Matias

Colaboração para o UOL

14/09/2021 04h00Atualizada em 14/09/2021 10h33

Cardeal da resistência, da periferia, do povo da rua, dos operários, dos direitos humanos ou, simplesmente, o cardeal da esperança. Assim era descrito dom Paulo Evaristo Arns, cujo nascimento completa cem anos hoje, em 14 de setembro. Ele viveu até os 95 anos, morrendo em dezembro de 2016.

Contrariando interesses da Igreja Católica, fez sua trajetória ao lado dos socialmente discriminados e dos politicamente perseguidos, tornando-se uma das mais relevantes lideranças a contestar a ditadura militar no Brasil. Além disso, denunciou crimes de tortura e combateu a injustiça que condenava à miséria populações vulneráveis.

"O Brasil e o mundo celebram essa data de um ser humano que passou pelas nossas vidas deixando marcas que não desaparecerão nunca. Dom Paulo encarnou na sua atuação pastoral uma verdadeira revolução inspirada na Teologia da Libertação, ao mesmo tempo em que, diferentemente de outras figuras da igreja, assumiu de pronto a defesa dos que lutavam pela democracia e pelos mais pobres. Continha a dimensão política da fé", relata a ex-prefeita de São Paulo e deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP).

A integridade do religioso, que ocupou os mais altos cargos da igreja, incluindo o posto de arcebispo de São Paulo, permitia embates com os militares numa época em que desafiá-los poderia ter consequências imprevisíveis.

Esteve em centros de tortura reivindicando a liberdade de presos políticos, revelou em suas igrejas documentos relatando violações cometidas pelo Estado e chegou a reunir-se, em 1974, com o general Golbery do Couto e Silva para apresentar um dossiê sobre 22 desaparecidos, junto a familiares das vítimas.

A criação da Comissão Justiça e Paz, responsável por proteger perseguidos, inclusive de regimes autoritários de outros países da região, e o projeto Brasil Nunca Mais, realizado em sigilo com a finalidade de documentar crimes da ditadura, são apontados como eventos centrais para debilitar o regime diante da opinião pública, nacional e internacionalmente.

Igualmente importantes foram o histórico ato ecumênico na Catedral da Sé em memória ao jornalista Vladimir Herzog e a Celebração da Esperança, homenageando o estudante Alexandre Vannucchi Leme —ambos mortos por agentes da repressão na década de 1970.

Estranhamento com a elite

Em todos esses episódios, a participação de dom Paulo foi decisiva. "Hoje, talvez a gente ainda não tenha essa noção do quanto dom Paulo foi importante e do quanto a nossa democracia hoje deve a ele. Ele realmente é uma personalidade fundamental da igreja no século 20, talvez o maior de todos os personagens na América Latina", afirma a biógrafa Evanize Sidow em relato para o site Memórias da Ditadura.

As ações no terreno social também motivaram um estranhamento entre o arcebispo e setores da elite. Depois de assumir a diocese de São Paulo, vendeu o palácio episcopal: com os US$ 5 milhões arrecadados, investiu na compra de lotes de terrenos e na construção de milhares de casas na periferia paulista, enquanto, para o campo, defendia a pauta da reforma agrária.

Criticava a inflação que corroía o salário da população e a invisibilidade das pessoas em situação de rua, segmento junto ao qual desenvolveu uma série de iniciativas, entre as quais a Catedral de Oração do Povo de Rua.

"Quando o Brasil tiver justiça social, todo mundo vai decidir por uma religião bem fundamentada e que responda aos anseios sabendo usar uma linguagem moderna para se comunicar, assim como Jesus soube se comunicar. Uma nação precisa de solidariedade, verdade e liberdade. Isso deve nos mover no tempo novo e lançar o país para frente", projetava em uma entrevista concedida na década de 1990.

O religioso enfrentou o preconceito de parcelas reacionárias incapazes de compreender a articulação de um líder que recebia o então presidente dos EUA Jimmy Carter em sua visita ao Brasil e trocava correspondências com o líder da revolução cubana, Fidel Castro.

A defesa da liberdade para presos que haviam cometido pequenos furtos em busca de alimentos, sua adesão aos movimentos grevistas do ABC paulista, quando se aproximou do ex-presidente Lula (PT), e a habilidade para fomentar o interculturalismo entre as religiões foram outros temas espinhosos enfrentados durante diferentes períodos de sua vida.

"Nosso compromisso é seguir seu legado, lutar pelos direitos humanos, pela democracia que está em risco novamente em um país que está despencando pelo precipício na mão de pessoas absolutamente inconsequentes, como o presidente, que se distrai andando de moto enquanto as pessoas morrem", afirma José Carlos Dias, presidente da Comissão Arns, organização sem fins lucrativos de defesa dos direitos civis.

Em homenagem ao seu centenário, conheça livros sobre a vida de dom Paulo Evaristo Arns e sua atuação durante a ditadura no Brasil.

Confira a seleção de títulos:

Brasil: Nunca Mais - Dom Paulo Evaristo Arns

Preço: R$ 66,99*

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Brasil: nunca mais (novo) - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

O título é uma das principais obras do período a denunciar os crimes de tortura e outras violações de direitos humanos realizados por agentes da ditadura militar contra opositores do regime a partir de 1964. O conteúdo é resultado da investigação sigilosa promovida com o apoio de dom Paulo durante os anos de repressão, fato que ressalta o trabalho empreendido. Editora Vozes de Bolso.

Dom Paulo: Um Homem Amado e Perseguido - Evanize Sydow e Marilda Ferri

Preço: R$ 42,64*

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Dom Paulo, um homem amado (novo) - Divulgação - Divulgação
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A biografia é considerada referência para compreender o papel de dom Paulo Evaristo Arns na resistência às perseguições, prisões, torturas e mortes ocorridas durante o período do regime militar. A obra com edição ampliada e revisada homenageia o legado de um dos principais líderes da Igreja Católica no Brasil e na América Latina, conforme define uma das autoras. Editora Expressão Popular.

O Cardeal da Resistência: As Muitas Vidas de Dom Paulo Evaristo Arns - Ricardo Carvalho

Preço: R$ 30,06*

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O cardeal da resistência (novo) - Divulgação - Divulgação
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Centenas de ilustrações, fotos, trechos de documentos, recortes de jornais e revistas, desenhos e charges compõem a obra que retrata a luta de dom Paulo pelos oprimidos socialmente e perseguidos politicamente. Fatos desde sua chegada à capital paulista, em 1966, são relatados em linguagem simples ao leitor, que pode ainda conhecer diferentes partes da vida do religioso. Editora Instituto Vladimir Herzog.

Dom Paulo Evaristo Arns - Pastor das Periferias - Profº. Waldir

Preço: R$ 23,99*

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Pastor das periferias (novo) - Divulgação - Divulgação
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Ao longo das 479 páginas, é destacada a atuação de dom Paulo no campo social. Foi constante e permanente seu trabalho junto à população de rua, setores empobrecidos pela desigualdade, presos em condições degradantes. Dentre essas ações, a Operação Periferia foi responsável por construir milhares de casas na cidade de São Paulo. Casa 3 Idade Tereza Bugolim.

Justiça e Paz: Memórias da Comissão de São Paulo - Antonio Carlos Ribeiro Fester

Preço: R$ 25*

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Justiça e Paz (novo) - Divulgação - Divulgação
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Vinte e cinco entrevistados célebres da época —entre os quais dom Paulo Evaristo Arns— discorrem sobre momentos marcantes da comissão que se notabilizou na defesa dos perseguidos políticos no Brasil e na América Latina e pela luta contra a ditadura civil militar. Os relatos são apresentados por meio de depoimentos, citações, reflexões e meditações religiosas. Edições Loyola.

Cartas da Prisão - Frei Betto

Preço: R$ 39,90*

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Cartas da prisão (novo) - Divulgação - Divulgação
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A edição reúne uma série de cartas escritas pelo autor durante os quase quatro anos (1969-1973) em que esteve preso pela ditadura. Antes editado no Brasil em dois volumes separados, com os títulos "Cartas da Prisão" (1977) e "Das Catacumbas" (1978), o livro em questão traz 20 cartas inéditas de Frei Betto, símbolo da resistência ao regime autoritário. Editora Companhia Das Letras.

Igreja Católica e Ditadura Militar no Brasil - Renato Cancian

Preço: R$ 19,90*

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Igreja Católica e ditadura militar (novo) - Divulgação - Divulgação
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Com questionamentos filosóficos sobre a força da religião e a forma como as crenças, valores e convicções influenciam a ação de indivíduos e grupos, a obra provoca essas e outras reflexões a partir da apresentação do contexto das relações estabelecidas entre a Igreja Católica e setores militares durante a vigência do regime ditatorial no Brasil, que durou de 1964 a 1985. Editora Claridade.

Os Bispos Católicos e a Ditadura Militar Brasileira - Paulo César Gomes

Preço: R$ 25,95*

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Os bispos católicos (novo) - Divulgação - Divulgação
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Baseado em documentos inéditos e até recentemente secretos, o autor reconstitui a aliança entre os militares e a Igreja Católica, apoiadora do golpe em 1964, para posteriormente revelar a rede de espionagem montada para monitorar lideranças religiosas que passaram a se opor ao regime autoritário, dentre as quais destacadamente figurava dom Paulo Evaristo Arns. Editora Record.

Memórias Afetivas: Desaparecidos Políticos - Maria Helena Soares de Souza

Preço: R$ 32,44*

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Memórias afetivas (novo) - Divulgação - Divulgação
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A ditadura deixou como marca no terreno da violação dos direitos humanos um saldo de assassinatos, torturas e outros crimes. No livro, parte dessa história é contada a partir das vivências compartilhadas ao longo de cinco anos por familiares de desaparecidos políticos, possivelmente sepultados clandestinamente na chamada Vala de Perus, em São Paulo. Editora Alameda Editorial.

Corintiano, Graças a Deus - Dom Paulo Evaristo Arns

Preço: R$ 35,59*

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Corintiano graças a Deus (novo) - Divulgação - Divulgação
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Catarinense nascido no pequeno município de Forquilinha, dom Paulo passou a maior parte da vida em São Paulo, maior cidade da América Latina, onde faleceu, aos 95 anos de idade. Na capital, elegeu o Corinthians, time das massas, para ser fiel, conforme são chamados os torcedores da equipe de futebol. Nas páginas de sua própria autoria, um pouco da paixão do arcebispo por seu clube do coração. Editora Planeta.

Margarida, Coragem e Esperança - Camilo Vannuchi

Preço: R$ 60*

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Margarida (novo) - Divulgação - Divulgação
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Figura combativa na defesa dos direitos humanos e da cidadania, Margarida Genevois decidiu, aos 98 anos, compartilhar seus arquivos contando experiências de sua caminhada. Entre outros postos, a biografada, parceira de trabalho de dom Paulo em vários momentos da vida, foi presidenta da Comissão Arns e da Comissão Justiça e Paz de São Paulo. Em sua mesa na Cúria Metropolitana ou em missão pelos grotões do Brasil, orientou familiares de desaparecidos políticos, combateu a Lei de Segurança Nacional e a tortura, enfrentou a cultura do extermínio e a pobreza, somou-se à luta contra o racismo e em favor dos direitos das mulheres. Editora Alameda Editorial.

Uma dica: você prefere ler virtualmente? Então assine o Kindle Unlimited, serviço da Amazon que reúne mais de um milhão de e-books. É gratuito no primeiro mês e custa R$ 19,90 após a promoção.

* Os preços e a lista foram checados no dia 10 de setembro de 2021 para atualizar esta reportagem. Pode ser que eles variem com o tempo.

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