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No TikTok, aluna conta perrengues no novo ensino médio: 'Muita aula vaga'

Do UOL, em São Paulo

16/04/2023 04h00Atualizada em 16/04/2023 08h16

A estudante Jhennifer Kelly de Castro, 16, viralizou no TikTok após "desabafar" sobre o novo ensino médio. Ela está no segundo ano de uma escola pública de Contagem (MG).

O que aconteceu

Estudante viralizou no TikTok com vídeo sobre o novo ensino médio. A ideia era ser "só um desabafo", diz Jhennifer. O conteúdo foi visualizado 1 milhão de vezes, recebendo comentários de alunos e professores de outras escolas que também tiveram experiências negativas com a reforma.

Ela afirma que os itinerários formativos não se aprofundam nos temas. Parte flexível do novo ensino médio, eles foram criados para que os alunos pudessem escolher os temas de sua preferência. A crítica, porém, é que nem todas as escolas têm estrutura para oferecer um leque maior de disciplinas.

Jhennifer diz que passou a ter menos aula de outras disciplinas. Matemática, segundo ela, passou a ser abordada uma vez por semana — antes, eram duas— depois da adoção dos itinerários.

Infraestrutura deficiente e falta de apoio institucional aos docentes são os principais problemas levantados pela estudante nos vídeos e em conversa com o UOL. "Me sinto completamente despreparada e desamparada com esse número de aula. Não dá para aprender tudo e os professores precisam se desdobrar."

Jhennifer afirma que é a favor da revogação do modelo e que teme não conseguir ir bem no vestibular por causa do novo formato.

Jhennifer tem mais um milhão de visualizações em um dos vídeos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Jhennifer tem mais de um milhão de visualizações em um dos vídeos
Imagem: Arquivo pessoal

O que Jhennifer diz

Apesar de tantas novas matérias do itinerário formativo, a gente não teve muito conteúdo [no 1º ano]. Muitas aulas vagas, conversas, aulas superficiais. Não sei falar muito sobre o que a gente aprendeu e até hoje não sei o significado da sigla de algumas matérias, por exemplo."

A escola não tem estrutura necessária para dar essas aulas. Meu itinerário é de ciências humanas e audiovisual. A gente precisa de um laboratório para ter as aulas práticas e, até hoje, o laboratório não dá sinal de ficar pronto."

Não esperava tamanha repercussão. Na hora, foi só um desabafo, só queria comentar minha experiência. [...] Muita gente me mandou mensagem, a carga horária, a experiência que estava vivendo, e tinha coisas absurdas, gente com experiência pior que a minha."

Itinerário foi escolhido pela mãe de Jhennifer

A aluna conta que seu primeiro "trauma" com a reforma foi a escolha do itinerário que acabou sendo feita por sua mãe, de surpresa, na hora de fazer a matrícula na escola.

"Infelizmente, ela acabou colocando um itinerário de ciências da natureza, que não é uma área que eu gosto muito. Fiquei bem abalada, porque ficaria presa nessa área pelos próximos três anos", diz Jhennifer.

Ela tentou mudar a escolha na escola no dia seguinte, mas foi informada de que não havia vagas em outras áreas. "Por muita sorte, consegui trocar de sala no começo do ano, o que me fez trocar de itinerário", afirmou.

A jovem relembra, em um dos vídeos, que há situações piores em que as escolas só têm uma opção de aprofundamento.

Suspensão da implementação da reforma foi comemorada

Jhennifer aprovou a decisão do MEC de suspender a implementação da reforma — embora, no caso dela, não tenha havido nenhuma mudança na rotina escolar. A pausa, decidida pelo governo federal após críticas, vai durar 60 dias e acontece, segundo a pasta, enquanto a consulta pública do tema está aberta.

Com memes e músicas virais, ela publicou vídeos comemorando, mas agora, "analisando com mais razão", diz acreditar que o modelo não será revogado.

Queria muito que o novo ensino médio fosse, de fato, revogado e a gente pudesse voltar com melhorias. Aquele antigo não era um ótimo ensino, mas era melhor do que esse novo sistema."

O que é o novo ensino médio

A reforma foi aprovada em 2017 durante o governo Michel Temer (MDB). O objetivo apresentado à época era tornar a etapa mais atrativa e fazer com que alunos se aprofundassem em temas de interesse.

A proposta não se tornou uma realidade em muitas escolas. Especialistas apontam que o novo ensino médio ampliou as desigualdades.

O MEC defende que a reforma passe por ajustes, mas sinaliza ser contrário à revogação. O ministro Camilo Santana já disse publicamente que faltou diálogo na discussão do novo ensino médio.

O MEC abriu uma consulta pública sobre o tema, que deve ser encerrada em meados de junho. O ministro da Educação, Camilo Santana (PT), no entanto, sinalizou em diferentes ocasiões que o governo não deve revogar o modelo.