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"Universidade é resistência a qualquer governo", diz nova reitora da UFRJ

Diogo Vasconcellos/Coordcom/UFRJ
Denise Pires de Carvalho assumirá a reitoria da UFRJ por um mandato de quatro anos Imagem: Diogo Vasconcellos/Coordcom/UFRJ

Ana Carla Bermúdez e Leandro Prazeres

Do UOL, em São Paulo e em Brasília

2019-06-07T04:00:00

07/06/2019 04h00

Pela primeira vez em quase cem anos, a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) terá uma mulher como reitora: a médica Denise Pires de Carvalho, professora titular do Instituto de Biofísica da universidade.

Carvalho assumirá o cargo máximo da instituição em um momento de cruzada contra uma suposta predominância de uma ideologia de esquerda nas universidades públicas.

"Universidade é resistência a qualquer governo. Não só a esse", disse em entrevista ao UOL. "O ambiente universitário é o ambiente da pluralidade."

A médica ainda terá o desafio de administrar a universidade em um período de grave crise financeira: com um orçamento anual de R$ 360 milhões, a UFRJ tem hoje um déficit de R$ 170 milhões. Soma-se a esse cenário um congelamento de R$ 114 milhões, reflexo do bloqueio determinado pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) para a área da educação.

"Estávamos trabalhando para cortar os gastos, mas, por mais que a gente corte, não será possível tocar a universidade se o contingenciamento determinado pelo governo for mantido", disse. A nova reitora não descarta o risco de que a UFRJ tenha que fechar as portas. "A situação é dramática", declarou.

Candidata mais votada na eleição interna realizada pela comunidade acadêmica da UFRJ em abril deste ano, ela liderou a lista tríplice enviada ao presidente Bolsonaro. A incerteza sobre sua nomeação, no entanto, durou meses. A oficialização veio apenas no dia 3 de junho, quando a escolha foi publicada no Diário Oficial.

"É óbvio que temíamos [que ele não me nomeasse]", afirmou a nova reitora, que tomará posse do cargo no dia 8 de julho.

Na entrevista, Carvalho falou ainda sobre machismo ("temos uma espécie de 'filtro' antes mesmo de as mulheres se candidatarem"), sobre os cortes em bolsas de pesquisa ("cortar bolsas vai matar a ciência nacional") e sobre o ministro da Educação, Abraham Weintraub ("deveria dialogar, defender mais as universidades"). Veja, abaixo, os principais trechos.

Diogo Vasconcellos (Coordcom/UFRJ)
Denise Pires de Carvalho ao lado do vice-reitor eleito, Carlos Frederico Leão Rocha (à esq.) Imagem: Diogo Vasconcellos (Coordcom/UFRJ)

UOL - Por que demorou quase cem anos para a UFRJ ter uma reitora?

Denise Pires de Carvalho - Porque temos uma sociedade machista. Não é só no Brasil. No mundo todo, existe ainda o machismo, essa herança do patriarcado e não é só a questão de cargo de reitor. Isso acontece em outros cargos de destaque. Eles são quase sempre ocupados por homens. Eu fui a primeira mulher eleita, mas veja que, desde a redemocratização, só tivemos três mulheres concorrendo. Temos uma espécie de "filtro" antes mesmo de as mulheres se candidatarem.

A senhora chegou a temer que o presidente Jair Bolsonaro não assinasse a sua nomeação?

Com certeza. Na verdade, o que é enviado é uma lista tríplice, e ele tem a prerrogativa de escolher qualquer um desses nomes. O ideal é que o presidente nomeie o mais votado. Mas essa é a lei: ele pode escolher entre os três nomes. É óbvio que temíamos [que ele não me nomeasse]. Eu dizia que ele não tinha nenhum motivo para não me nomear, mas não tinha nenhum motivo para me nomear.

Em maio, o governo publicou um decreto que dá poder à Secretaria-Geral da Presidência da República para avalizar as nomeações para cargos como o de reitor e pró-reitores. Você acha que a secretaria deveria ter esse poder?

Esse decreto fere a autonomia universitária. Uma vez nomeado o reitor, ele deve escolher a sua equipe. A nomeação dos pró-reitores é resultado de autonomia administrativa. Mas essa questão jurídica está sendo questionada.

Parte das pessoas que criticam a política educacional de Bolsonaro afirmam que seus apoiadores miram a universidade pública porque ela representaria "polos de resistência" contra o governo. Você vê as universidades federais como espaços de resistência?

Universidade é resistência a qualquer governo. Não só a esse. O ambiente universitário é o ambiente da pluralidade. Nós, da UFRJ, somos muito visitados por políticos e vemos movimentação em todos os governos.

Havia movimentação contra Fernando Henrique Cardoso (PSDB), havia movimentação contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e agora há essa movimentação contra o atual governo. É um espaço muito crítico, em que as ideias são muito expostas e a gente vive o processo democrático na sua totalidade. Isso é natural. Mas o governo tem falado muito sobre isso na mídia. Tem exposto muito essa questão. Aí, a reação passa a ser ainda maior.

Por que você acha que esse governo é tão vocal e assertivo em relação à comunidade acadêmica brasileira?

É difícil essa resposta. Procurar conflito com uma instituição tão importante para o país como as universidades federais não é o ideal. Porque elas são importantes para o desenvolvimento econômico e social de qualquer país. Só que a universidade é o lugar da liberdade, da democracia.

Não é verdade que ali está posto apenas o que se chama de marxismo cultural. Há todo tipo de pensamento na universidade. Mas, como é um ambiente assim, aberto, qualquer um que ingresse na universidade pode receber críticas. Isso é histórico. Por que o governo se comporta dessa maneira? Eu não consigo entender. É difícil a gente avaliar. Seria normal que os governos lidassem bem com o contraditório. O que eu espero é isso.

O atual ministro da Educação prometeu cortar verba de universidades que, em vez de ter bom desempenho, promovessem "balbúrdia". Qual sua opinião sobre essa estratégia?

Eu acho que o ministro da Educação deveria conversar mais com as universidades. Deveria dialogar, defender mais as universidades. O papel do ministro é esse. O conflito com as universidades não é bom para ninguém, muito menos para o governo ou para a sociedade. Espero que ele acerte o tom da conversa. Todos estão dispostos ao diálogo. Não tem razão esse tipo de ataque. A UFF, UFBA, UnB [citadas pelo ministro Abraham Weintraub na fala sobre balbúrdia] são universidades de excelência. Considero que ele cometeu um equívoco.

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Ao longo da sua vida acadêmica, a senhora já presenciou ou participou do que o ministro chama de "balbúrdia"?

Não. De forma nenhuma. Você acredita que eu recebi da minha mãe um vídeo desses que espalharam por aí? Minha mãe veio me perguntar: "Minha filha! O que está acontecendo?". Eu tive que explicar para ela que aquilo era falso. É o tipo de coisa que não constrói um país melhor. Hoje, sabemos que aquelas imagens nem sequer saíram de universidades brasileiras.

A senhora teve que se defender de fake news para a sua mãe?

Para você ver até que ponto essa coisa chegou... Quando eu fiz o contraponto, ela se deu conta do absurdo que aquilo era.

Especificamente sobre a UFRJ, em que situação financeira a senhora vai encontrar a instituição?

No momento, vamos assumir a universidade com uma situação financeira muito grave. Temos um déficit orçamentário de R$ 170 milhões e um orçamento de R$ 360 milhões.

Minha equipe e eu já estamos elaborando um plano de contingenciamento interno, tentando cortar mais ainda as atividades de limpeza, segurança, poda dos diferentes campi. Estávamos trabalhando para cortar os gastos, mas, por mais que a gente corte, não será possível tocar a universidade se o contingenciamento determinado pelo governo for mantido.

Se isso não for revertido, a UFRJ corre o risco de ter que fechar?

Com certeza. Porque são R$ 114 milhões a menos. Só fazer as contas: são R$ 170 milhões de déficit somados aos R$ 114 milhões do corte do governo. Isso é quase igual ao orçamento anual da universidade. Não tem a menor condição. Como vamos funcionar sem pagar luz, água, empresas terceirizadas? A situação é dramática. A característica da UFRJ é fazer pesquisa e fazer pesquisa é caro. São mais de 1.200 laboratórios de pesquisa.

A senhora já iniciou alguma conversa com Weintraub no sentido de evitar ou reverter esse bloqueio?

Não. Estive no MEC conversando com o secretário de Ensino Superior, Arnaldo Lima. Naquele momento, eu não estava nomeada ainda. Temos um reitor até o início de julho e seria desagradável que eu fizesse algum tipo de gestão enquanto ele está no cargo. Mas eu fui em busca de diálogo. A conversa foi muito boa e discutimos projetos de futuro. Um deles é a reconstrução do Museu Nacional, a abertura de um equipamento de cultura e a internacionalização da UFRJ. O secretário está procurando. Um quarto ponto é o parque tecnológico, maior integração da universidade com as empresas.

Nesta semana, a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) anunciou o corte de 2.700 bolsas. Qual o impacto desse corte?

Os pesquisadores brasileiros têm muita dificuldade para desenvolver atividades de pesquisas. Nós somos subfinanciados. No Brasil, quem faz com que as pesquisas avancem são os pós-graduandos. Cortar bolsas vai matar a ciência nacional. Disso ninguém tem dúvida. Não há ciência, não há pesquisa científica em nível de qualidade no Brasil sem que haja pós-graduandos atuando nos laboratórios.

O Brasil deveria buscar um Nobel e não matar o que foi construído nas últimas décadas.

A senhora concorda com a estratégia de tirar recursos dos cursos de humanas e direcioná-lo para os cursos de exatas, biológicas, como sugerido pelo ministro Weintraub?

É mais um equívoco. Um equívoco de quem não conhece a história das universidades no mundo. Elas têm origem na área de humanidades. É muito difícil fazer essa dicotomia porque não há professores "puros", exclusivos de uma área. O professor da área de biofísica pode ministrar disciplinas de filosofia da ciência. Há programas de humanidades ligados a programas tecnológicos.

O século 21 é o século da transversalidade, que vai privilegiar o profissional com a educação mais ampla. É verdade que o Brasil precisa de mais engenheiros. Mas precisamos de engenheiros bem formados e eles têm que passar por disciplinas da área de humanas e sociais, se possível, no seu currículo da graduação.

A senhora é contra a cobrança de mensalidade nas universidades. Entretanto, há setores que defendem que quem tenha condições de pagar deveria fazê-lo. Por que a senhora é contra?

As pessoas com melhores condições econômicas deveriam pagar mais, mas de forma indireta: pagando mais impostos. Qual o grande problema do pagamento de mensalidade? Ele não resolve o problema. Não estamos falando de mensalidades para uma escola de nível superior. Estamos falando de mensalidade numa universidade que produz ciência e tecnologia.

Se a gente cobrar de quem pode pagar, não vamos resolver o problema, porque a cobrança deveria ser muito alta e ainda cria, no ambiente da universidade, uma divisão entre o indivíduo que paga e o que não paga. Hoje, mais de 70% dos estudantes das universidades públicas não poderia pagar, porque eles têm renda per capita de até 1 salário mínimo e meio. Acho que a universidade tem que buscar novas fontes de recursos, mas não por meio de mensalidade.

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O governo defende a inversão na pirâmide de investimento: diminuir o percentual investido em ensino superior e aumentar o bolo destinado à educação fundamental. Qual sua opinião sobre essa estratégia?

Na verdade, já é assim. Temos 6% do PIB aplicado à educação. Desse total, apenas 1,6% fica com o ensino superior. A maior parte já está na educação básica. A pergunta é: como melhorar o desempenho da educação? A resposta é, em primeiro lugar, aumentando o investimento. Porque o papel desses níveis de ensino é diferente, mas eles conversam entre si. O ensino superior cria professores para o ensino básico. O caminho é aumentar investimento, não diminuir.

A senhora já conversou com o governo federal sobre a reconstrução do Museu Nacional? Quais os planos da nova gestão da UFRJ em relação a isso?

O atual diretor, Alexander Kellner, tem sido incansável na busca de recursos nacionais e internacionais na reconstrução do museu. O museu não é apenas um local de exposição. Havia pesquisa, laboratórios. O incêndio foi, realmente, uma tragédia.

Então, a gente tem que buscar frentes alternativas para a reconstrução. Uma é a reconstrução do museu [que era] local de exposições. A outra é a garantia de que as atividades de pesquisa e ensino continuem enquanto o museu é reconstruído.

Protocolamos um projeto de construção de laboratórios e áreas para a guarda do acervo em um terreno anexo à Quinta da boa Vista, próximo ao Museu Nacional. Esse projeto vai utilizar a verba da bancada federal do Rio de Janeiro. Esse projeto foi protocolado na semana passada, segundo me informaram. Além da construção do anexo, está contido nesse projeto a reforma de toda a fachada do museu e do telhado definitivo.

O restante, que estamos conseguindo com muito esforço, será para reconstrução do museu por dentro. É um projeto que vai demorar muito mais tempo.

O que a senhora achou da performance do ministro entoando "Cantando na Chuva"?

Eu não sei nem o que responder. O que mais me assustou é que o ministro, na verdade, falou que [o corte no orçamento do Museu Nacional, revelado pelo UOL] era uma fake news. Colocou a culpa na bancada federal, usou um guarda-chuva contra as fake news, mas, no fundo, é um contingenciamento que o governo está pedindo para todos os ministérios. A Capes, por exemplo, cortou bolsa.

Então, é uma ação do governo federal. Isso faz parte do governo. Não foi o Ministério da Educação diretamente, mas foi o governo, por meio do Ministério da Economia. Ele deveria tomar mais cuidado porque, no final, o corte aconteceu. E ele deveria falar com mais seriedade sobre essa questão. É óbvio que fake news não é bom. Mas não houve fake news. Houve um corte e ele é real.

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