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MEC fica isolado e insatisfação continua, dizem analistas após protestos

30.mai.2019 - Manifestantes se reúnem em frente ao prédio da UFPR (Universidade Federal do Paraná), em Curitiba - Franklin de Freitas/Estadão Conteúdo
30.mai.2019 - Manifestantes se reúnem em frente ao prédio da UFPR (Universidade Federal do Paraná), em Curitiba Imagem: Franklin de Freitas/Estadão Conteúdo

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

01/06/2019 04h00

A escalada do MEC (Ministério da Educação) para um tom agressivo contra os manifestantes que saíram às ruas em defesa da educação deixa a pasta isolada e refém de um discurso pouco produtivo para o andamento das políticas públicas educacionais no Brasil. A avaliação é de especialistas ouvidos pelo UOL.

Na quinta-feira (30), estudantes voltaram a protestar contra os bloqueios promovidos pela gestão Jair Bolsonaro (PSL) na educação. Em nota distribuída no mesmo dia, o MEC pediu para que a população denunciasse quem estivesse nos atos em horário escolar. Ontem, o MPF (Ministério Público Federal) classificou o comunicado como inconstitucional e deu ao ministério um prazo de dez dias para que a nota seja cancelada.

No dia anterior às manifestações, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, já havia afirmado que estudantes estariam sendo coagidos por professores a participar dos protestos.

Para o cientista político Fernando Abrucio, os atos passam um recado de descontentamento com a condução da política educacional feita pelo MEC.

"Pode variar de tamanho a cada manifestação, mas é um descontentamento contínuo e nacional", afirma. "Isso deixa claro que a política do MEC vai continuar apanhando da sociedade."

"Se a gente se reportar ao que o Bolsonaro disse quando assumiu, de que iria colocar um quadro técnico na educação, ele fez o oposto", pontua Claudia Costin, diretora do Centro de Inovação em Políticas Educacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e ex-diretora de educação do Banco Mundial.

Para ela, a comunicação do ministério envolvendo o contingenciamento de verbas na educação foi "disparatada" e "confusa". "E, triste dizer isso, mas repleto de ideologia e não de uma visão técnica", afirma.

Esse ministro não é o Sergio Moro, não é o Paulo Guedes. Então ninguém do governo vai defendê-lo, ninguém nas redes sociais, salvo raras exceções, vai defendê-lo. Ele vai ficar no final cantando sozinho na chuva.
Fernando Abrucio, cientista político, em referência a vídeo de resposta de Weintraub, com guarda-chuva porque "está chovendo fake news"

Na avaliação de Abrucio, nem sequer os apoiadores de Bolsonaro, que saíram às ruas no dia 26, trouxeram para a manifestação pautas de apoio às ações que vêm sendo tomadas pelo governo na educação.

O primeiro anúncio de que seriam feitos bloqueios no MEC veio com uma declaração de Weintraub de que bloquearia 30% dos recursos discricionários (que envolvem gastos como obras, luz e água, mas não salários) de universidades que estivessem promovendo "balbúrdia".

Após críticas, o MEC recuou e passou a dizer que o bloqueio valeria para todas as universidades federais e que era necessário para cumprir a meta fiscal.

Para Abrucio, a subida do tom bélico adotado pelo ministro tende a piorar seu isolamento --mesmo considerando um cenário improvável em que haja recuperação da receita.

"É, de fato, um ministro que está sozinho, jogado aos leões, que está marcando uma posição ideológica a pedido do presidente", diz. "Mas o presidente não vai defendê-lo. [Bolsonaro e aliados] vão defender o Sergio Moro, o Paulo Guedes", afirma, em referência aos ministros da Justiça e da Economia.

"Se for resumir, nesse processo todo, faltou diálogo. Houve um discurso que botou as universidades e até a educação básica sob ataque. Isso não ajuda em nada", afirma Costin.

Para os especialistas, o desafio do MEC, agora, é voltar a falar de medidas concretas para pautas como a formulação da base nacional docente, a implementação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e a definição de um novo modelo de Fundeb, principal mecanismo de financiamento da educação básica no país --que vence em 2020.

"[É preciso] parar com essa atitude, que é muito agressiva, e que não acerta apenas os inimigos políticos --acerta um conjunto de pessoas que, inclusive, votaram no Bolsonaro."

"O que a gente viu nas ruas foi uma resposta aos ataques que a educação sentiu que estavam ocorrendo", concorda Costin. "[Precisamos] ver como garantir que a pesquisa e a tecnologia prossigam no Brasil. A gente tem um país a construir."

Mais de 130 cidades tiveram manifestações pela educação

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