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"Impessoal e grosseiro", dizem docentes da Uninove demitidos pela internet

Mensagem de demissão enviada por notificação pop-up a professores da Uninove - Reprodução
Mensagem de demissão enviada por notificação pop-up a professores da Uninove Imagem: Reprodução

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

24/06/2020 04h00

Em meio à pandemia da covid-19, a professora Joana* vinha estudando formas de aprimorar as aulas que ministra online. Na segunda-feira, ao acessar a plataforma de ensino a distância da Uninove (Universidade Nove de Julho), em São Paulo, foi surpreendida por uma mensagem pop-up que a informava de sua demissão.

"Nesse momento, em que está todo mundo fragilizado, perder o emprego é um baque enorme. E perder o emprego dessa forma, então...", lamenta ela que, por temer represálias, preferiu não ser identificada.

"Foi triste, foi chocante. Nesse momento em que a gente está se desdobrando para se reinventar com as aulas online, encontrar um bloco de gelo no caminho não é fácil", desabafa.

Joana é uma dos ao menos 300 professores que, segundo o Sinpro-SP (Sindicato dos Professores de São Paulo), foram surpreendidos com um aviso de demissão ao acessar o sistema interno da universidade.

"Atenção! Prezado(a) professor(a), comunicamos que em 22 de junho de 2020, fica V. Sa. dispensada de prestar serviço a esta empresa sem obrigatoriedade inclusive do cumprimento do aviso prévio previsto em lei", dizia o comunicado.

O texto informava ainda que os profissionais deveriam comparecer ao departamento de Recursos Humanos da unidade Vergueiro para efetuar a devolução de "crachá, cartão de acesso, cartão de estacionamento, carteirinhas de assistência médica e/ou odontológica" e para dar prosseguimento à baixa na carteira de trabalho.

O comunicado também estipulava um prazo de dois dias úteis para a devolução de eventuais equipamentos pertencentes à universidade, "sob pena de desconto nas verbas rescisórias".

Paulo*, que também pediu para ter a identidade preservada, lecionava na Uninove havia mais de dez anos. Mesmo com tanto tempo de casa, foi demitido pela internet. Segundo ele, nem sequer os coordenadores e diretores dos cursos foram informados dos desligamentos.

"Geralmente vem [essa informação] para a direção e a coordenação. Os coordenadores, que têm contato direto com professores e alunos podem avaliar melhor a questão pedagógica e negociar [as demissões]. Desta vez, isso não aconteceu", afirma.

Ao UOL, os professores lamentaram a "impessoalidade" da instituição e classificaram a medida como "terrível" e "grosseira".

"Foi exatamente igual para todos os professores, de todos os cursos, de todas as diretorias", relatou Joana. Ela diz que não foi possível observar um critério claro para os desligamentos, já que tanto docentes recém-contratados como professores como os com médio ou longo tempo de casa foram demitidos. Segundo ela, muitos dos profissionais que receberam o comunicado eram bem avaliados entre os colegas e os alunos.

"A medida é terrível, grosseira. Está tudo errado", diz. "Não saberia dizer qual é a melhor forma, mas [essa teve] zero consideração. Tive um grande apoio dos colegas e dos meus coordenadores. Eu acabei dando a notícia para eles", conta Paulo.

No horário em que as aulas canceladas deveriam ocorrer, os alunos assistiram a uma palestra motivacional intitulada "Fortaleça o seu eu interior e acredite em você". Participaram da transmissão o padre Fábio de Melo, o filósofo e professor Gabriel Chalita, ex-secretário municipal de educação, e Viviane Patrício Delgado, coordenadora do programa de inclusão da instituição.

O Sinpro diz não ter sido avisado com antecedência de que haveria demissões na Uninove. O sindicato protocolou um dissídio coletivo no TRT (Tribunal Regional do Trabalho) nesta terça (23) para pedir a anulação dos desligamentos.

"Apesar de ter sido facilitada pela reforma trabalhista de 2017, a demissão em massa, como a que a Uninove acabou de promover, tem enorme impacto social. O fato de ela ocorrer em meio à pandemia e de a mantenedora não ter manifestado nenhuma intenção de negociar ou amenizar o problema agrava ainda mais a situação", disse o sindicato em nota.

Outro lado

O UOL procurou a Uninove para saber quantos professores foram demitidos, por que os desligamentos aconteceram por meio do aviso pop-up e se há previsão de mais demissões ao longo desta semana.

Em nota, a universidade afirmou que preza como "bem maior" o ensino dos seus alunos e a qualidade dos serviços prestados pela instituição, mas que diante da pandemia do coronavírus teve de se "adaptar à nova situação".

"Fomos ao limite para manter nosso quadro funcional e todas nossas obrigações contratuais em dia. Salários dos professores foram garantidos pontualmente e vultosos investimentos em tecnologia realizados", diz o texto.

A nota diz ainda que "todas as medidas de readequação foram necessárias para preservar o sonho dos futuros profissionais que aqui se formarão".

A Uninove afirma acreditar que "essa situação é momentânea e será superada por todos com trabalho e confiança". "Agradecemos aos professores que contribuíram e aos que aqui permanecem contribuindo para a excelência e qualidade de nosso ensino", diz a instituição.