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Mestrado de novo ministro da Educação tem indícios de plágio, diz professor

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

27/06/2020 13h39Atualizada em 29/06/2020 14h23

O novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli, é suspeito de ter plagiado sua dissertação de mestrado na FGV, defendida em 2008. Ontem, ele precisou se defender da suspeita de que não concluiu seu doutorado em uma universidade na Argentina.

A nova descoberta é do professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) Thomas Conti, que publicou os trechos em sua conta no Twitter.

Ao UOL, Conti afirma que decidiu investigar o mestrado do novo ministro depois que um seguidor do Twitter abriu a dissertação e apontou que no resumo em inglês havia erros gritantes e palavras em vermelho.

"Isso é o tipo de problema que nós que orientamos trabalhos acadêmicos e participamos de bancas já ficamos em alerta de que o trabalho foi, no mínimo, mal feito e mal revisado", disse.

"Foi isso que me fez querer investigar as outras partes", diz. Como o documento de dissertação dele é público, o professor buscou na web pelos trechos e encontrou um relatório administrativo do Banrisul na CVM (Comissão de Valores Imobiliários), também na internet em domínio público.

Conti explica que fez a comparação com a ajuda de um site de comparação de documentos.

"Apenas desse relatório existem 4.200 palavras na dissertação em trechos longos que são cópia literal. O site de comparação de documentos deu 12,6% de trechos idênticos", afirma.

O professor acredita que o plágio pode ser ainda maior. "E esse percentual é apenas comparando com o relatório na CVM. No Twitter eu mostro um trecho longo sem citação que veio de outro artigo acadêmico."

Surpresa?

Conti confessa que a descoberta não o surpreendeu.

"Sendo sincero não me surpreende tanto. O problema provavelmente é mais comum do que imaginamos. O que surpreende nesse caso é a quantidade de problemas grandes na dissertação que passaram batido e que levantariam a suspeita em uma leitura simples", afirma.

Ontem, o MEC (Ministério da Educação) já havia desmentido o reitor da Universidade de Rosário, na Argentina, Franco Bartolacci. Também pelo Twitter, Bartolacci negou que o novo ministro tenha obtido seu doutorado na instituição como mencionado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na quinta-feira (25).

Segundo a pasta, o ministro concluiu o curso em fevereiro de 2009, com "todos os créditos do doutorado em Administração pela Faculdade de Ciências Econômicas e Estatística da Universidade Nacional de Rosário, na Argentina".

A colunista do UOL Constança Rezende revelou que o hoje ministro Carlos Alberto Decotelli copiou pelo menos quatro trechos de outros trabalhos sem citar os autores.

Acho que a parte do título de doutorado que a universidade argentina confirmou dele não ter já seria grave o suficiente. Acho que só isso já não é compatível com a pasta.
Thomas Conti, professor do Insper

Procurada pelo UOL, a Fundação Getulio Vargas informou que "vai apurar os fatos referentes à denúncia de plágio na dissertação do Ministro Carlos Alberto Decotelli". "A FGV está localizando o professor orientador da dissertação para que ele possa prestar informações acerca do assunto."

Ministro nega plágio

Em nota divulgada hoje pelo Ministério da Educação, o ministro nega ter cometido plágios e afirma que, se houve omissões, trata-se de "falhas técnicas".

"O ministro refuta as alegações de dolo, informa que o trabalho foi aprovado pela instituição de ensino e que procurou creditar todos os pesquisadores e autores que serviram de referência e cujo conhecimento contribuiu sobremaneira para enriquecer seu trabalho. O ministro destaca que, caso tenha cometido quaisquer omissões, estas se deveram a falhas técnicas ou metodológicas", disse o MEC.

Dacotelli informou que revisará o trabalho "por respeito ao direito intelectual dos autores e pesquisadores citados".