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Enem 2021 tem questões sociais e aborda temas políticos de forma indireta

Ana Paula Bimbati e Giorgia Cavicchioli

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL, em São Paulo

21/11/2021 19h26Atualizada em 22/11/2021 09h11

População indígena, racismo, e a música "Admirável Gado Novo" foram alguns temas que surgiram nas questões do primeiro dia do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2021. Na avaliação de professores, questões sociais apareceram, mas de forma indireta na prova.

"A prova trouxe pautas importantes, falou de questões gêneros, da população carcerária, refugiados, população indígena, mas algumas temas ficaram de fora também", diz Claudio Hansem, professor do Descomplica.

Como exemplo, ele citou questões de meio ambiente, que foram abordadas, mas não com a temática de desmatamento —o Brasil tem tido uma piora crescente nos dados. Perguntas com relação à população indígena, à violência ou à demarcação de terras também não foram trazidas nos textos.

Fernando Santo, gerente de Inteligência Educacional e Avaliações do Poliedro, diz que o "pedagógico prevaleceu ao político" neste primeiro dia.

"Os estudantes receberam uma prova como nos anos anteriores, uma boa prova. Se por um lado se destaca a ausência de questões sobre a ditadura, é louvável a presença de itens sobre a questão indígena brasileira. Ao menos seis itens abordaram essa temática", afirma.

Para Ricardo Di Carlo, professor de História do Curso e Colégio Objetivo, a prova foi "analítica, com grande desenvolvimento cultural". "Um foco grande documental em textos, pouco uso de imagem para História e com uma diversificação de temas", detalha.

Reportagem do UOL ontem noticiou, por exemplo, que servidores ouvidos têm colocado os temas "sensíveis" pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido) de forma implícita nas provas. A ditadura militar é um deles.

"Não teve questão que falasse abertamente de ditadura, nenhuma questão de regime totalitário", diz o professor do Descomplica.

Apesar disso, uma questão trazia um trecho da música "Admirável Gado Novo", do cantor Zé Ramalho, e pedia para o participante responder qual "comportamento coletivo" é criticado na letra.

"Essa é uma questão que fala da luta das massas, que fala da resistência, de lutas populares e questionamentos políticos. É uma música do final dos anos 70, portanto é do regime militar brasileiro. Então está sendo vista como uma questão que passou a falar do período de forma indireta, embora nenhuma tenha abordado diretamente", explica Hansem.

Segundo Daniel Perry, diretor do Curso Anglo, a prova manteve o padrão dos últimos anos em relação às competências cobradas, com muitas análises de gêneros textuais em várias áreas do conhecimento.

"Não apresentou polêmicas, mas dialogou com temas da atualidade, como a passividade política, a erotização do corpo feminino, o racismo, a questão indígena", explica Perry.

Para Santo, as provas de inglês e espanhol foram bastante tradicionais e não apresentaram um grau de dificuldade muito elevado.

A prova de ciências humanas, afirma, foi equilibrada em relação aos conteúdos e cobrou os clássicos como Sócrates, Descartes e Nietzsche. "Na parte de geografia, também esteve bem dividido entre geografia física, política, temáticas de industrialização, capitalismo e até ali uma questão da exploração do trabalho pelo WhatsApp", explica.

Perry também citou questões que abordaram o racismo, uma delas sobre a discriminação racial no futebol. A pergunta usou o exemplo de culpabilização do goleiro Barbosa, que era negro, pela derrota do Brasil na Copa de 1950.

"O tema escravidão apareceu algumas vezes. Em uma das questões, abordava a hierarquia existente entre os escravizados. Em outra, se falava a respeito da perseguição aos escravos", afirma.

Marcus Vinicius de Moraes, professor de história do Curso Pré-Vestibular Oficina do Estudante de Campinas (SP), disse que a prova recuperou a "tradição do Enem", abordando temas que contemplam uma sociedade plural.

"Questões sobre revoltas medievais, folclore camponês, indígenas, resistências escravas, África e identidades foram o ponto alto da prova. Além do uso de documentos, escritos e imagens. Merece destaque a questão 82 [considerando o caderno branco] sobre os tigres catadores de lixo. Analiso que a prova teve uma dificuldade mediana", explica.

Segundo José Maurício Mazzucco, professor de Sociologia e Filosofia do Curso e Colégio Objetivo, a prova teve seis questões de filosofia e seis de sociologia. "Uma prova muito diversificada, questões básicas com o problema da exclusão social. Uma prova muito bem elaborada. Ela exige atenção, leitura e uma certa bagagem", afirma.

Os participantes do Enem responderam hoje perguntas das provas de linguagens e ciências humanas, além da redação.

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