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PE: Redação inspirada em "Vidas Secas" faz jovem tirar nota mil no Enem

Daiane mora em Limoeiro, no interior de PE, e quer cursar medicina - Arquivo pessoal
Daiane mora em Limoeiro, no interior de PE, e quer cursar medicina Imagem: Arquivo pessoal

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

13/02/2022 04h00Atualizada em 17/02/2022 12h17

Quando Daiane Souza da Costa, 20, viu o tema da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) teve uma ideia que a ajudaria a tirar nota máxima: iniciar o texto fazendo referência ao livro "Vidas Secas", do alagoano Graciliano Ramos (1892-1953) e um dos maiores clássicos da literatura nacional. Com a divulgação das notas na noite da quarta-feira passada, ela viu que tirou a nota mil.

A jovem pernambucana contou ao UOL que o insight veio na hora em que viu o tema da redação do Enem 2021: "Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil".

"Minha professora havia falado no livro em que o personagem principal, Fabiano, não deu nome aos filhos —eles os chama de filho mais velho e filho mais novo. Ele dá o nome da cachorra (Baleia), mas não dá nome aos filhos. A professora deu uma introdução sobre isso, falou sobre a cidadania", afirma.

O livro "Vidas Secas" retrata a vida de Fabiano, um vaqueiro rude do sertão nordestino e chefe de uma família (mulher, dois filhos, uma cadela e um papagaio) que se torna retirante.

"A primeira coisa que me veio à mente foi: esses filhos sem nome é reflexo de crianças que não têm acesso ao registro civil. Fiz essa associação na introdução da redação para chamar, de cara, a atenção do corretor, mostrar que estudo literatura, que tenho repertório específico", lembra.

Na redação ela conta que, além de Graciliano, citou o cientista político e historiador José Murilo de Carvalho, 82.

Esse rico repertório literário, diz, veio com uma rotina de preparação para o Enem que incluía de 8 a 9 horas diárias de estudos, com foco em ciências humanas.

Daiane e a professora Fernanda Pessoa  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Daiane e a professora Fernanda Pessoa
Imagem: Arquivo pessoal

Daiane mora em Limoeiro (87 km do Recife) e terminou o ensino médio em 2019, na escola Pentágono, onde era bolsista. Como mora em uma cidade do interior, ela diz que optou por fazer preparação com aulas online após terminar os estudos. Ela atribuiu sua boa preparação para redação à professora Fernanda Pessoa, do Recife, que tem um curso online de redação, linguagem e interpretação de texto, literatura e gramática.

"Geralmente eu assistia às aulas dela com muita atenção, e foi muito boa a experiência do curso. Tinha também a monitoria ao vivo, e sempre eu tentava montar um repertório. Tenho um caderninho de anotações das coisas que ela passava, em especial os pensadores do Brasil e do mundo que ela citava, além de músicas, obras", diz.

Daiane conta que escrevia uma redação por semana e mandava para correção da professora.

Quando vinha a correção, eu avaliava o que tinha errado, principalmente nessa parte de gramática. Tentava então tirar todas as dúvidas possíveis. Sempre fui muito curiosa e sei que a gente precisa buscar melhorar, não se acomodar.
Daiane Souza, nota mil na redação do Enem

Durante a preparação no ano passado, ela contou que a professora abordou muito o tema a cidadania, que bateu com o que foi exigido dos candidatos no Enem 2021. "A gente não tinha como saber o tema [da redação], mas trabalhamos vários autores que falam sobre cidadania, direitos das pessoas, e que poderia direcionar para o texto por conta do tema pedido", conta.

Bom histórico e tentativa em medicina

Daiane tem um histórico de boas notas nas redações do Enem. "Tirei 960 em 2019, 980 no de 2020 e agora cheguei a mil. Foi uma escadinha", brinca.

Ela vai tentar, mais uma vez, ingressar com a nota do Enem no curso de medicina da UPE (Universidade de Pernambuco) ou da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). "Eu ainda não parei para calcular a nota geral, não sei se vou conseguir atingir. Minha nota de matemática não foi tão boa e me puxou um pouco baixo", explica.

Independente de servir ou não, essa nota mil serve como uma motivação, mostra que estou no caminho certo. Caso não consiga entrar, mesmo que seja com uma bolsa em uma universidade particular, vou seguir estudando até passar.
Daiane Souza, nota mil na redação do Enem

A jovem diz que sempre sonhou em estudar medicina e, por isso, se dedicou ao máximo durante sua vida escolar. "Eu sempre gostei muito de escrever e sempre me dediquei muito na escola. Eu sabia que, como queria medicina, precisava me aprimorar mais e mais", revela.

Natural do Recife (onde morou até os sete anos), Daiane mora com seus avós maternos em Limoeiro. "Minha mãe mora aqui perto com o meu padrasto. Já o meu pai faleceu quando era recém-nascida", diz.

Ela conta que vem de uma família humilde — a única renda de sua casa é do seu avô que ganha salário mínimo (R$ 1.212 atualmente). A jovem recebe também ajuda financeira do padrasto, mas que não é suficiente, por exemplo, para que ela estudasse medicina na Bahia, onde chegou a ser aprovada em 2020. "Eu quero estudar aqui mais próximo, não teria como me manter em um local distante", diz.

Agora, com a visibilidade causada pela nota mil, ela diz que sua vida ficou diferente nos últimos dias. "Fiquei um pouco assustada, mas ao mesmo tempo feliz em inspirar as pessoas. Sou muito grata a todas as oportunidades que surgiram para falar sobre essa conquista", afirma.

Pela nota máxima, ele conta que recebeu muitos parabéns de amigos e colegas de colégio, e ganhou até uma homenagem nas redes sociais da Prefeitura de Limoeiro.

Para quem quer tirar uma nota boa na redação, ela diz que o começo de tudo está no gosto que cada um deve ter pela escrita. "É preciso aprender a gostar de escrever. Cada um tem de achar um processo bom para si, mas não pode ser um sentimento que 'eu tenho de escrever'. Tem gostar para dar certo", explica.

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