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A nova família

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Imagem: Getty Images
Leo Fraiman

Leo Fraiman

Leo Fraiman é psicoterapeuta, escritor e palestrante. É autor da Metodologia OPEE, adotada atualmente por mais de 150 escolas em todo o Brasil, e também do livro "Como Ensinar Bem", pela Editora OPEE, além de outros títulos publicados nas áreas de Orientação Profissional, Familiar e de Educação. Site: leofraiman.com.br

13/11/2014 07h01

O que a escola tem a ver com as mudanças do contexto familiar e como os educadores podem usar as mudanças a favor da parceria casa-escola.

Hoje em dia, todos os membros têm voz na família. Isso trouxe muitos ganhos – o pai está mais afetivo e se permite brincar com os filhos, as crianças são mais ouvidas, há campanhas explícitas contra violência e abandono infantil. Mas também gerou duas questões muito problemáticas: uma, a atitude do ‘eu faço o que eu quero do meu jeito’, já que todos expressam suas opiniões; e, consequentemente, o “espontaneísmo” – ‘não estou com vontade, portanto, não vou fazer’.

Há 30 anos, era raro, por exemplo, que uma mãe abandonasse um filho. Era mais comum que o pai o fizesse. Quando ele virava as costas ao filho, a mulher carregava sozinha a família. Mesmo quando não havia separação, era comum a mãe dizer ‘não leva problema para o seu pai’, ‘vamos resolver isso aqui, porque seu pai não pode saber, ele está trabalhando’.

Agora o quadro é outro. O pai, de uma forma mais moderna, está em pé de igualdade com a mãe. Segundo o IBGE, em pesquisa realizada pelo último Censo (2010), constatou-se que 37,3% das famílias brasileiras eram chefiadas por mulheres. Isso significa um novo balanceamento. Por outro lado, a autoridade mudou. E aí há uma confusão de papéis, o que leva muitas vezes ao cenário de pais sem limites criando filhos impossíveis. Não é o adolescente ou a criança que não tem limites, é a família, a sociedade como um todo.

É uma das tarefas das escolas educar os pais para assumirem seu papel. Todos os estudos feitos sobre esta questão se mostraram favoráveis a políticas escolares que integrem as famílias em seu convívio. Uma estratégia é a formação da Associação de Pais e Mestres – e o comprometimento em mantê-la unida e ativa. Outra boa iniciativa é gerar vínculos com os pais e com as empresas em que trabalham para que os alunos as visitem e possam conhecer mais sobre suas carreiras. Em todos os sentidos há um “ganha-ganha” quando pais e escola se unem.

No entanto, precisamos entender que os pais estão sem limites não porque não querem ou têm uma deficiência de caráter. Isso acontece porque não foram educados para tal. O que também incomoda muitos pais é que esta juventude é diferente das demais. É questionadora, pode gritar por socorro, o que em tempos passados era algo impensável. Isto incomoda aqueles pais que querem tudo do seu modo e não mostram a menor abertura ao diálogo e ao contato.

Por isso, tem que estar na agenda da nossa escola educar a família, orientá-la, seja por meio de palestras, seja por meio de boletins, conversas orientadoras ou reunião de pais. Se não colocarmos como nossa pauta a necessidade de orientar a família, corremos um risco muito grande de entrar em um estado de melancolia, por não termos a família ideal e o aluno ideal. Precisamos ter clareza de que não lidamos com a família ideal nem com o aluno ideal, e sim com o aluno real e a família real.

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