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Tema da redação do Enem 2019 abriu espaço para defender Lei Rouanet 

Estudantes se aglomeram em frente a universidade em São Paulo, um dos locais de prova do Enem 2019 - Vitor Pamplona/Colaboração para o UOL
Estudantes se aglomeram em frente a universidade em São Paulo, um dos locais de prova do Enem 2019 Imagem: Vitor Pamplona/Colaboração para o UOL

Carolina Cunha

Colaboração para o UOL

03/11/2019 17h49

Resumo da notícia

  • Redação do Enem 2019 aborda "Democratização do acesso ao cinema no Brasil"
  • Lei Rouanet poder ser usada para discutir a promoção do acesso ao cinema
  • Alas do governo Bolsonaro já criticaram a Lei Rouanet como um mecanismo de incentivo e financiamento público

O tema da prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019 sob o governo de Jair Bolsonaro (PSL), "Democratização do acesso ao cinema no Brasil", abre espaço para os estudantes argumentarem sobre a Lei Rouanet, um mecanismo criado para estimular o apoio da iniciativa privada ao setor cultural.

De acordo com especialistas ouvidos pelo UOL, o candidato poderia abordar a Lei Rouanet, caso ele fosse problematizar questões de políticas públicas e leis de incentivo para a promoção do acesso ao cinema. A Lei também pode ser citada no texto como uma proposta de intervenção.

"O tema desse ano abre espaço para discussão da Lei Rouanet. Quando a gente pensa em acesso ao cinema, também estou falando de produções nacionais. A Lei pode ser um dos argumentos abordados pelo candidato", avalia o professor Antunes Rafael dos Santos, diretor do Colégio Oficina do Estudante.

O professor acredita que essa questão é polêmica, mas reflete um tema importante para a sociedade. "Existe uma brecha e possibilidade de que os candidatos possam articular favoravelmente ao que contraria, de certa forma, as crenças do atual governo".

Alas do governo Bolsonaro já criticaram a Lei Rouanet como um mecanismo de incentivo e financiamento público. O governo também barrou repasses de fundos para produções que já haviam sido aprovadas e o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) teve verbas bloqueadas. Críticos do governo também avaliam que a Agência Nacional de Cinema, a Ancine, vem sendo desmontada pelo governo.

Para Maria Catarina Bozio, coordenadora de Redação do Poliedro, em termos de proposta de intervenção, o fortalecimento das políticas da Ancine e Lei Rouanet são caminhos que os estudantes podem seguir. " Os caminhos, dependendo do desenvolvimento do candidato, é pensar no fomento, que garanta ingressos mais baratos, e em exibições em locais públicos para garantir o acesso mesmo em cidades que não tenham esse aparelho cultural disponível", sugere.

Textos de apoio

A redação trouxe quatro textos motivadores. O primeiro cita dois pioneiros do cinema, Georges Méliès e Lumière. O segundo mostra a visão do pensador Edgar Morin sobre cinema. "São textos motivadores que fala do bem cultural e da invenção do cinema", avalia Sérgio Paganim, do Curso Anglo.

Já o terceiro e o quarto texto trazem dados sobre o consumo de cinema pela população e o número de salas do Brasil.

Os textos de apoio apontam para muitas possibilidades. "É uma coletânea que abre muitos caminhos. Eles acabam fazendo um direcionamento ligado à sala de exibição da arte. Ela abre a oportunidade de falar mais da democratização ligada ao bem cultural e às salas de exibição. O quarto texto fala sobre lugares em que não há salas de cinema. Essa discussão pode ser extrapolada para o valor do ingresso. O terceiro texto pode fazer um link com o fenômeno das plataformas de streamings", afirma Paganim.

Para o professor do Anglo, a Lei Rouanet e a Ancine podem ser abordadas, mas são transversais ao que a banca pediu. "Existe uma abertura para a discussão da Lei Roaunet. O candidato pode problematizar sobre isso. Não está definido no tema, mas ele pode. É uma possibilidade, mas não é uma obrigação. Aí é uma percepção pessoal, é a opção dele. Seria mais um argumento. Mas isso não é o tema. Não é sobre isso que precisa ser discutido. Ele tem que falar de acesso ao cinema. Se ele falar só da Lei Rouanet, por exemplo, vai perder pontos", avalia o professor.

Tema inesperado

O tema de 2019, segundo os professores, foi mais específico do que nos anos anteriores. "Surpreendeu. Nós apostávamos que o tema até poderia falar de democratização do acesso à cultura e não especificamente sobre o cinema", afirma Maria Aparecida Custódio, professora do laboratório de redação do Objetivo.

Para Maria Aparecida, esse é um tema acessível e que qualquer candidato poderia fazer uma relação direta com o seu dia a dia na hora de escrever.

Segundo a coordenadora de Redação do Poliedro, Maria Catarina Bozio, a prova atual ano se diferencia da linha de 2018. "Ela traz de volta um tema que pede um recorte sobre o Brasil. Isso tinha desaparecido da prova de 2018, mas era uma tendência de 2014 pra cá. Isso pode trazer uma tranquilidade ao aluno, na hora de pensar uma proposta de intervenção que seja próxima da realidade deles".

Como o aluno pode argumentar?

Para o professor do Curso Anglo, Sérgio Paganim, o estudante deve argumentar a favor da democratização do acesso. "O acesso ao cinema no Brasil pode ser uma questão mais concreta. Como a população brasileira pode ter acesso a produções cinematográficas em geral? As salas de cinema no Brasil possuem uma distribuição irregular, especialmente quando a gente sai dos grandes centros urbanos", afirma Paganim.

De acordo com Rafael Cunha, professor de redação e linguagens do Descomplica, a coletânea de textos motivadores para os estudantes usarem na argumentação direciona o entendimento do tema, mas não é uma grande fonte de argumentos e referência. "A não ser pelo último texto, que dava alguns insumos e referências que poderiam ser aproveitadas como fonte de argumentos", afirma.

A professora Maria Aparecida, do Objetivo, lembra que uma proposta de intervenção eficaz deve sugerir ações concretas para promover o acesso às produções de cinema. Ela sugere que o candidato poderia refletir sobre o valor do ingresso de cinema ou o número de salas de cinema em cidades. "O candidato também poderia abordar as produções audiovisuais não apenas pelo viés do cinema, mas por outras plataformas como o Netflix, o Youtube e eventos culturais, como mostras", diz.

Para Simone Motta, coordenadora de Português do Grupo Etapa, a escolha do tema foi acertada "É um tema de ordem social, atual, abre diversas possibilidades para inserção da proposta de intervenção e tem características nacionais. É um bom tema, o estudante certamente consegue se organizar", afirma.

Controle de dados foi tema do ano passado

No ano passado, o tema da redação foi "Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet".

Esse foi o tema da Redação do Enem 2018! pic.twitter.com/d7irA9q2ie

-- Inep (@inep_oficial) November 4, 2018

Em 2018, mulheres foram maioria entre os 55 participantes que receberam nota mil na prova de redação.

Enquanto homens foram autores de 13 textos que conquistaram a nota máxima, as mulheres escreveram 42 redações nota mil —o que representa 76% dos casos.

Questões da prova já foram alvo de polêmicas. No ano passado, já eleito, Jair Bolsonaro criticou uma pergunta que tratava do "dialeto secreto" utilizado por gays e travestis e disse que sua gestão no Ministério da Educação "não tratará de assuntos dessa forma".

A questão à qual Bolsonaro se refere está no caderno de linguagens. Nela, o teste mostrou um texto sobre "pajubá, o dialeto secreto dos gays e travestis" e questionava o candidato quanto aos motivos que faziam a linguagem se caracterizar como "elemento de patrimônio linguístico".

"Uma questão de prova que entra na dialética, na linguagem secreta de travesti, não tem nada a ver, não mede conhecimento nenhum. A não ser obrigar para que no futuro a garotada se interesse mais por esse assunto. Temos que fazer com que o Enem cobre conhecimentos úteis", disse.

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